Reportagem publicada em 31/10/2009 Última atualização 10/11/2009 18:30 TU

No livro o "Último Copo", lançado em 2008, o cardiologista Olivier Ameisen explica como se livrou da doença utilizando um relaxante muscular chamado Bacoflen.
Foto: Divulgação
Livrar-se do vício do álcool é um desafio para milhões de pessoas em todo o mundo. Para um homem em particular, o médico francês Olivier Ameisen, a busca para vencer essa dura batalha foi vencida com uma descoberta : a de que a doença pode ser combatida e tratada com um medicamento que já existe há mais de 40 anos no mercado: o Bacoflen, comercializado também como medicamento genérico. Sim, um remédio receitado como relaxante muscular pode ajudar as pessoas a deixarem de ser alcoolatras e voltar a beber socialmente, segundo o dr Ameisen. Sua própria experiência com o vício e sua luta para convencer médicos e dependentes a optar pelo medicamento fez o doutor Amesien tomar uma decisão dificil; a de escrever um livro e expor sua vivência.
Desde que foi lançado aqui na França, o sucesso foi imediato e ganhou as páginas dos jornais e reportagens de televisão e rádio. Na França, o livro foi lançado com um título um pouco apelativo: "Le dernier Verre", "O último copo", em uma tradução livre. Nem mesmo o autor considera o título apropriado porque sugere uma ruptura definitiva com o álcool. Na verdade, o que ele defende é a cura da dependência: o remédio Bacoflen permite o uso controlado do álcool, tornando assim o consumidor um bebedor social como qualquer outro.
Como ele chegou a essa descoberta?
O caminho foi longo e doloroso. Logo no começo do livro, o Dr. Ameisen descreve o momento em que ele decidiu enfrentar o vício pra valer. A cena, que aconteceu no ano 2000, ficou gravada na sua memória: ele estava em um táxi em Nova York com o sangue escorrendo na testa, sem sequer se lembrar do que havia acontecido: uma queda no meio-fio e um corte profundo que o levaram ao pronto-socorro. Mas como um cardiologista famoso na França e instalado há mais de 20 anos em Nova York como professor associado de medicina e cardiologia no New York Presbyterian Hospital, bem sucedido profissionalmente e financeiramente estava sendo derrotado pelo álcool? " Tinha cerca de 30 anos e era convidado a várias saídas com amigos. Não me sentia à vontade, era muito tímido e tinha dificuldade de fazer contato com as pessoas. Mas, assim que eu tomava um copo de uísque, aliás eu detestava o gosto, eu me liberava, fazia amizades... o álcool me ajudou muito", conta. "O problema foi que, aos poucos, eu não precisava mais de um copo para controlar meu mal estar. Precisava de dois, depois três, cinco. Pouco a pouco eu me tornei dependente. Quando eu tentei parar, percebi que não podia mais ... já não era mais socialmente ."
Escravo do vício
A saída do abismo começou com a leitura de um artigo onde um paraplégico viciado em cocaína relatou que sua vontade de consumir a droga desapareceu ao tomar Bacoflen, remédio receitado contra espasmos musculares. A partir daí, o Dr Ameisen começou a se interessar pelo tema e decidiu que ele mesmo iria testar um método de tratamento com o Bacoflen, um medicamento bem conhecido dos médicos. “ Ele existe há 40 anos e é usado em neurologia para problemas musculares benignos. E ele é usado para problemas de vício desde 1993. "O que eu descobri foi, partindo de uma experiência com animais, é que o Bacoflen, a uma dose forte, uma dose que os neurologistas utilizam de rotina, que não há nada de extraordinário, mas no animal, uma dose mais forte comprovou que acaba com a vontade de beber", diz.
Depois de muito consultar seus colegas médicos e se informar sobre os efeitos colaterais do uso do Bacoflen, no caso uma grande vontade de dormir, o Dr Ameisen começou a aumentar a dose até chegar a 270 miligramas. Com esta quantidade, ele percebeu que a vontade desaparecia completamente, evitando um problema recorrente em quem quer abandonar qualquer vício: a recaída após um período de abstinência. Mas como age o Bacoflen no organismo? “ Trata-se de uma molécula que é usada como medicamento contra espasmos musculares inofensivos e que tem uma particularidade: ela age sobre um receptor que chamamos GABA B. Nenhum outro medicamento existente age sobre esse receptor. É a particularidade desta molécula. Vimos que ela age sobre o animal e agora sobre o homem também. Todos os outros sedativos e tranquilizantes atuam sobre outros receptores", diz.
Desde que descobriu essa fórmula para superar seu vício, o Dr Ameisen tem percorrido vários países, dando palestras para médicos e estudantes de universidades e até para o público em geral, promovendo a campanha para que um amplo estudo clínico seja feito para comprovar cientificamente sua tese.
Segundo ele, aos poucos, hospitais e clínicas na Europa e Estados Unidos começam a tratar pacientes com o Bacoflen. Ele garante que conhece casos de mais de 350 pacientes que se livraram do vício com o medicamento. As taxas de sucesso desse tratamento chegam a 95%, segundo ele. Mas, superar a desconfiança da classe médica tem sido um problema. Como o Bacoflen só pode ser vendido com receita médica, o acesso ainda é difícil para muitos viciados. Embora se sinta livre, curado do álcool, o dr Ameisen lembra que se trata de uma doença que exige cuidados diários. Por isso ele tem sempre à mão uma dose diária de 30 miligramas de Bacoflen, quantidade 9 vezes menor do que no início de seu tratamento. "Para mim é uma doenca biológica, como a hipertensao, o diabetes ou a asma e o tratamento é dificil e por toda a vida. Não é como uma bronquite que se pode curar em alguns dias. Esses tratamento é inofensivo, eu diria talvez menos grave do que um tratamento com o paracetamol ou as aspirina que pode ter efeitos mesmo com doses terapêuticas. Esse medicamento já tem mais de 40 anos, não há casos de dependência", finaliza.
(Reportagem de Elcio Ramalho)
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