Por Alfredo Valladão
Reportagem publicada em 09/03/2010 Última atualização 11/03/2010 10:20 TU
Pelo visto os iraquianos estão cansados das guerras de religião e dos terroristas da Al Qaeda. Apesar dos ataques suicidas contra as filas de votantes, os cidadãos iraquianos foram votar em massa nestas segundas eleições legislativas nacionais, depois da invasão americana. Desta vez, até as províncias do norte, com maioria sunita, decidiram não boicotar mais o processo democrático. Melhor ainda : tirando o caso particular do Curdistão, todos os principais partidos constituíram listas que misturam candidatos sunitas e chiitas.
É claro que o ódio e os rancores entre as comunidades ainda perduram, mas a grande notícia é que agora tem muita gente que está disposta a resolver as pendengas pela via das armas. Se fala menos de guerra entre sunitas e chiitas e cada vez mais do reestabelecimento da economia e do poderio nacional. Depois desses anos de violência e divisão, os iraquianos querem mais é explorar as suas reservas de petróleo para construir casas, hospitais, estradas e redes elétricas, e para relançar os negócios e o comércio.
A Al Qaeda pode continuar tentando colocar lenha na fogueira das frustrações da minoria sunita, que perdeu o poder absoluto que tinha na época de Sadam Hussein. Mas hoje, os líderes sunitas estão bem mais interessados em conquistar parcelas de poder efetivo e negociar com os chiitas, do que manter um enfrentamento sem perspectivas. Hoje, a moda é ser nacionalista, e ninguém esquece que o Iraque tem cacife para isso. A segunda maior reserva de petróleo do planeta depois da Árabia Saudita .
É claro que ainda falta muito para resolver os milhões de problemas urgentes e estabilizar as instituições do país. A violência diminuiu de maneira espetacular nos últimos anos, mas ainda é um desafio maior, sobretudo quando os vizinhos, como o Irã, a Síria ou a Arábia Saudita insistem em meter o bedelho em assuntos internos iraquianos. A questão curda ainda não foi resolvida. Sem falar no problema chave da distribuição dos royalties do petróleo entre as províncias e os grupos de poder do país. Mas a verdade é que o Iraque está no bom caminho para estabelecer o mundo mais democrático do mundo árabe fora o caso excepcional do Líbano.
Estas segundas eleições legislativas foram, para os critérios da região tão democráticas e abertas que ninguém era capaz de dizer quem iria ganhar e quem seria o próximo primeiro-ministro. Nada a ver com as monarquias absolutas ou com os governos autoritários do resto da região, onde o poder acaba sempre passando de pai para filho e onde a oposição, como na época de Saddam, é sistematicamente reprimida e por vezes massacrada. Parece paradoxal, mas no frigir dos ovos, e sete anos depois da invasão americana, a ideia de um Iraque democrático estável, e com boas relações com o mundo occidental parece tomar corpo.
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