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Noruega

Premiê da Etiópia recebe Nobel da Paz pedindo união contra o ódio e combate à pobreza

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, recebe o diploma e o prêmio Nobel da Paz de 2019 em Oslo, na Noruega.
O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, recebe o diploma e o prêmio Nobel da Paz de 2019 em Oslo, na Noruega. NTB Scanpix/Hakon Mosvold Larsen via REUTERS

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, 43 anos, recebeu nesta terça-feira (10) em Oslo o prêmio Nobel da Paz de 2019. Ele compartilhou a recompensa com os ex-inimigos da Eritreia por seus esforços pela reconciliação entre os dois países, num momento em que seu país é devastado pela violência étnica.

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"Aceito essa distinção em nome dos etíopes e dos eritreus, em particular aqueles que fizeram o último sacrifício pela causa da paz", disse Abiy, o líder mais jovem da África, ao receber o Nobel. Ele elogiou seu "parceiro" e "camarada de paz", o presidente (eritreu) Issaias Afeworki, "cuja boa vontade, confiança e compromisso foram determinantes para terminar com duas décadas de estagnação". "Já não há 'nós' e 'eles'. Há somente 'nós'. Porque estamos todos unidos por um destino comum de amor, de perdão e de reconciliação", acrescentou. Afeworki governa a Eritreia desde a independência, em 1993. "Entendemos que nossas nações não são inimigas, mas fomos vítimas do mesmo inimigo chamado pobreza", afirmou.

Anunciado no dia 11 de outubro, o prestigioso prêmio recompensa as tentativas de mediação em uma região turbulenta, assim como as reformas empreendidas pelo jovem primeiro-ministro para democratizar seu país, após um longo período de regime autoritário. Em seu discurso de agradecimento, na sede da prefeitura de Oslo, Abiy lançou um apelo de "união contra o ódio", diante do olhar admirativo da família real da Noruega.

Em 9 de junho de 2018, após um encontro histórico em Asmara, a capital da Eritreia, os presidentes etíope e eritreu encerraram o estado de guerra que paralisou os dois países durante 20 anos.

Abiy, um ex-soldado, também detalhou os estragos da guerra, lembrando como sua unidade foi destruída por um ataque da artilharia eritreia do qual escapou porque havia se afastado brevemente para encontrar um sinal de rádio melhor. "A guerra é a personificação do inferno para todas as pessoas envolvidas", disse.

Segundo o historiador francês Gerard Prunier, especialista ouvido pela RFI, o prêmio Nobel não será de grande importância para o líder etíope diante da onda de violência que ele enfrenta em seu país. Abiy tem procurado unificar o país, inclusive por meio de uma reforma política que resultou na fusão de partidos de várias etnias distintas. Mas ele enfrenta resistências de grupos que não querem perder o poder, diz Prunier, e tem um adversário nacionalista que também atua contra esses avanços.

Prunier considera exagerado dizer que o primeiro-ministro etíope obteve uma reconciliação com a Eritreia. "Ele apenas formalizou o estado de paz queestava em vigor há 20 anos", afirma. "A Eritreia não se transformou em profundidade internamente e continua sendo uma ditadura semelhante à Coreia do Norte", afirma. A reconciliação, nesse contexto, foi apenas simbólica.

Situação estagnada

Embora a aproximação entre os dois ex-inimigos tenha resultado na reabertura de embaixadas e postos na fronteira ou no restabelecimento de linhas aéreas, o processo de aproximação atualmente enfrenta obstáculos. Vários importantes postos fronteiriços estão novamente fechados, e a questão da demarcação da fronteira está pendente.

"Este trabalho parece estar parado", disse o presidente do Comitê Nobel, Berit Reiss-Andersen, antes de entregar o prêmio. "O comitê norueguês do Nobel espera que suas realizações anteriores, juntamente com o estímulo adicional que o Prêmio da Paz representa, incentive as partes a continuar implementando tratados de paz", acrescentou.

Especialistas temem que Abiy deixe de lado o processo de paz para se concentrar nas eleições "livres, justas e democráticas" que ele prometeu para maio de 2020. Um desafio, dada a atual situação de segurança na Etiópia.

Violência interétnica

Rompendo com o autoritarismo de seus antecessores, Abiy suspendeu o estado de emergência, libertou milhares de presos políticos, criou uma comissão nacional de reconciliação e deu fim à proibição que pesava sobre alguns partidos. Esse processo de democratização favoreceu a afirmação de identidades étnicas.

As manifestações contra Abiy começaram menos de duas semanas após o anúncio do Nobel e resultaram em confrontos étnicos e na morte de 86 pessoas. Em seu discurso no Nobel, Abiy criticou "os pecadores do ódio e da divisão" que "causam estragos em nossa sociedade através das redes sociais".

A celebração do Nobel foi ofuscada pela recusa do vencedor a responder às perguntas dos jornalistas. Abiy reduziu significativamente o programa oficial e cancelou todas as coletivas de imprensa. É uma situação "muito problemática", lamentou o diretor do Instituto Nobel, Olav Njolstad. Os membros da equipe de Abiy justificaram-se argumentando que é "bastante difícil" para um líder passar vários dias fora do país, especialmente quando "problemas domésticos são urgentes e precisam de atenção".

"No nível pessoal, a humildade do primeiro-ministro não é compatível com a natureza pública do Prêmio Nobel", disse seu assessor de imprensa, Billene Seyoum.

O Nobel consiste em um diploma, uma medalha de ouro e um cheque de 9 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 950.000). Os outros prêmios (literatura, física, química, medicina e economia) são concedidos no mesmo dia em Estocolmo.

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