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Sahel

Dos 10 conflitos mais preocupantes em 2020, três são na África

Soldados franceses realizam uma operação de controle antiterrorista no Mali, em julho de 2019.
Soldados franceses realizam uma operação de controle antiterrorista no Mali, em julho de 2019. Reuters/Benoit Tessier

O aumento da violência no Sahel fez a região que abrange 10 países africanos, mais ao norte do continente, entrar para a lista dos locais onde acontecem os 10 mais preocupantes conflitos em 2020, segundo o Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED). A violência política foi mais difundida na região ao longo do ano passado, quando foram registrados mais de 2.100 situações como explosões, protestos que terminaram em confusão, conflitos armados e violência contra civis. Número bem maior do que o de 2018 (quase 1.300). Desde 2014, esta situação se agrava. Só no ano passado, esses episódios deixaram mais de 5.360 mortos.

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Segundo o relatório do ACLED, os ataques de vários grupos islâmicos locais e globais, com objetivos diversos, e a fraca resposta das forças de segurança contribuíram para o cenário de instabilidade, que deixa essa região da África mais vulnerável que em 2018. O Boko Haram, que antes era uma preocupação só para o governo da Nigéria, agora é uma ameaça regional. O norte dos Camarões é assolado pela violência transfronteiriça. Chade vem experimentando tentativas de insurgência em vários espaços descoordenados. Tillaberi, no Níger, virou uma região praticamente fantasma depois que moradores se viram obrigados a deixar suas casas nos últimos meses para fugir dos conflitos entre as forças de segurança do país e os militantes do Estado Islâmico. Burkina Faso vem registrando conflitos em todas as suas regiões, enquanto grupos do Mali continuam com plano de invasão ao sul. As taxas de violência no Mali, Burkina Faso e Níger dobraram em 2019 em comparação com 2018.

O desdobramento de tropas no Sahel nos últimos anos tem tomado uma forma relativamente diferenciada na opinião de  Gustavo de Carvalho, o único brasileiro entre os pesquisadores do Institute for Security Studies. O especialista em operações de paz não vê com surpresa o envio de mais tropas francesas à África, o que considera uma confirmação do interesse direto da França na região. “Isso leva o país a engajar de forma mais próxima ao G5 Sahel, coalização de países da região autorizada tanto pelas Nações Unidas como pela União Africana”, completou. O G5 Sahel tem tido dificuldades em controlar a situação de segurança da região.

O governo francês atendeu ao pedido de líderes africanos da região do Sahel e vai mandar mais 600 soldados para a África, específicamente no sul do Saara. O objetivo é reforçar a luta contra militantes islâmicos. O anúncio foi feito no domingo pela ministra da Defesa francesa, Florence Parly. Governantes africanos começaram 2020 reunidos com o presidente francês, Emmanuel Macron, pedindo apoio para combater o avanço do terrorismo nesta parte do continente.

A França já tem 4.500 militares operando na região. A ideia é que parte desses novos soldados vá, principalmente, para a área entre o Mali, Burkina Faso e Niger. Outra parte se juntaria às forças do G5 no Sahel, que é uma região com mais de 5 mil km de extensão.

O professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, Márcio Scalercio, diz que acredita na solidariedade francesa, mas também reforça que o país tem seus próprios interesses. “Há empresas e organizações do país na velha África Equatorial francesa. E boa parte dos suprimentos de energia nuclear vem do Mali. Além do mais, se aquele pedaço da África se desestabilizar completamente a crise dos refugiados vai se agravar na Europa”, disse.

“De certa forma, espera-se que debates a cerca do Sahel aumentem em importância nos próximos meses, liderados pela França mas também apoiados por Niger, membro do G5, que recentemente entrou no Conselho de Seguranca para um mandato temporário de 2 anos”, completou o pesquisador sênior do ISS.

Somália

Outros dois conflitos africanos entraram para a lista dos 10 mais preocupantes do mundo em 2020. Um deles acontece na Somália, onde há um grande risco do grupo terrorista al-Shabaab se fortalecer e acabar dominando um governo enfraquecido.

A Somália declarou , no último domingo, estado de emergência por conta da tempestade de gafanhotos que assola o país e compromete sua já fragilizada segurança alimentar. Mas, em se tratando de segurança, esta é só mais uma batalha que o governo somali precisa enfrentar para proteger o seu povo. E em breve vai contar com menos forças para isso. É que o comando da missão de paz da União Africana (AMISOM) decidiu retirar mil homens da tropa no país.

Será o segundo corte desde que o aumento do número de ataques do grupo terrorista al-Shabaab passou a preocupar, segundo a imprensa local. A União Africana disse que a retirada dos mil militares será concluída até o dia 28 de fevereiro.

A Somália foi alvo de um grande ataque do al-Shabaab no fim de dezembro. Uma explosão matou mais de 90 pessoas e fez o número de feridos passar de cem na capital Mogadíscio. O atentado virou notícia internacional, mas há anos ações terroristas como esta fazem parte da rotina do povo somali.

Os Estados Unidos continuam apoiando o país na luta contra o grupo. O ACLED registrou 72 ataques aéreos realizados por forças americanas no ano passado. Um aumento de 24% em relação a 2018 (58 ataques) e de 200% quando comparado aos ataques em 2016 (24 ataques). Semanas atrás o continente também foi surpreendido pela notícia da ideia dos EUA de diminuir a presença militar americana na África. Foram mais de 2.300 conflitos armados na Somália em 2019, que deixaram 4.030 mortos.

A potencial redução de tropas já vinha sendo discutida pela União Africana. “A pressão financeira e capacidade logística têm sido os grandes determinantes de tal decisão, já que existe uma situação de estabilidade muito tênue no país”, acrescentou Gustavo de Carvalho.

Ainda de acordo com o pesquisador sênior do ISS, a grande questão será a capacidade do Governo Federal da Somália em atuar no vazio deixado pelas tropas e componentes policiais da AMISOM e da habilidade da UA em continuar atuando como um facilidador crível no processo de estabilização.

“Caso haja um aumento de violência, países da região como Quênia ou Etiópia continuarão interessados em manter estabilidade, e já vimos no passado intervenções dos dois países na Somália, mesmo fora do contexto da União Africana”, acrescentou.

Etiópia com Nobel, mas sem paz

O país governado pelo vencedor do Nobel da Paz do ano passado, o primeiro-ministro Abiy Ahmed, parece não viver uma realidade muito pacífica. O homenageado foi reconhecido por ter colocado fim a um longo conflito com a vizinha Eritréia, mas também alvo de críticas por parte da opinião pública africana por não ter contido conflitos internos etíopes.

O professor Márcio Scalercio se disse surpreso ao ver o país nesta lista. “A Situação da Etiópia é grave. Sabia que havia problemas entre muçulmanos e cristãos, mas pelo que o relatório diz é um cenário bem mais complicado”, afirmou.

A violência política na Etiópia mudou da resistência contra o regime para conflitos étnicos, incluindo tumultos e confrontos instigados por milícias étnicas. Resultado: ao longo de 2019 houve brigas em universidades que terminaram em mortes até grandes conflitos armados. Foram quase 300 registrados no ano passado, entre explosões, manifestações e protestos que desencadearam em violência. Aproximadamente 680 pessoas morreram nestes episódios.

A complexa busca pela paz na África

Este ano será desafiador para a União Africana, que começou 2020 com o objetivo de silenciar armas no continente. O pesquisador sênior do ISS, Gustavo de Carvalho, diz que este é um processo importante, mas que deve ser visto com cautela, pois provavelmente não trará resultados a curto prazo.

“Certamente não será um processo simples ou rápido, mas pode ajudar no desenvolvimento de políticas públicas mais eficientes no que diz respeito à prevenção de conflitos e manutenção da paz no continente”, concluiu o especialista em operações de paz, Gustavo de Carvalho.

México

O professor da PUC-Rio se disse surpreso também com a inclusão do México nesta lista. Houve protestos e episódios de violência política em praticamente todo o país, principalmente nas províncias mais ao sul. A segurança do país vem se deteriorando e o crime ligado ao narcotráfico preocupa cada vez mais. Foram registrados mais de 31.000 homicídios nos últimos 12 meses e o governo acabou de divulgar dados indicando que mais de 60.000 pessoas desapareceram desde 2006.

Assassinatos de jornalistas e funcionários do governo, decapitações, desaparecimentos e cadáveres enforcados publicamente vêm sendo manchetes no México. Os vários ataques particularmente brutais levam a crer que os cartéis estão adotando cada vez mais técnicas insurgentes.

“Fica mais difícil gerenciar a segurança com a pulverização dos cartéis. Mas ainda mais preocupante é que essa fragmentação aconteceu por conta de uma política do Estado, quando o presidente anterior objetivou prender os líderes dos cartéis e acabou favorecendo a fragmentação. É preocupante porque tem implicações com os EUA. Ainda mais com o Trump querendo declarar os cartéis mexicanos como organizações terroristas”, analisou Márcio Scalercio.

Iêmen

A escala de destruição atingiu níveis sem precedentes no país, há cinco anos em conflito. Estima-se que mais de 100.000 pessoas tenham morrido, alvos diretos da violência, incluindo mais de 12.000 civis mortos em ataques direcionados. O ACLED registrou mais de 23.000 mortes em 2019 diretamente ligados - uma queda de 25% no total de mortes relatadas em 2018, mas ainda o segundo ano mais mortal desde o início dos conflitos. Enquanto os diferentes lados iemenitas da guerra não chegarem a um acordo entre si, a violência física continuará, segundo o relatório.

“A situação do Iêmen está se tornando pulverizada quase como foi na guerra civil da Síria”, comparou o professor de Relações Internacionais, que admitiu não ter se surpreendido ao ver este país na lista do ACLED.

Índia

O governo do Partido do Povo Indiano (BJP, sigla em inglês), do atual primeiro-ministro, Narendra Modi, se vê em um cenário complexo de discórdia política envolvendo conflitos nacionais e internacionais de longa data. Internacionalmente, a tensão entre a Índia e o Paquistão sobre a região disputada da Caxemira aumentou em 2019, quando a relação política volátil entre os dois países foi testada por ataques militantes e violência transfronteiriça frequente ao longo da Linha de Controle. Aproximadamente 1520 pessoas morreram no ano passado em mais de 23.500 conflitos armados no país, principalmente protestos que desencadearam para violência.

A crescente instabilidade exige este ano uma reavaliação de políticas por parte do governo indiano para combater a proliferação de descontentamentos e conflitos em todo o país. Resta saber se o BJP no poder estará disposto ou será capaz de adotar uma abordagem mais pluralista para enfrentar os desafios acumulados de governança.

Irã

O mundo ficou apreensivo diante da escalada de tensão entre Irã e Estados Unidos no início do ano, resultado da morte do general iraniano Qasem Soleimani. Sanções americanas prejudicam a economia do país, já em dificuldades. Dos quase 2.500 conflitos armados registrados no ano passado pelo ACLED, quase todos foram protestos que geraram tumulto, causando mais de 400 mortes.

Afeganistão

Já são quase duas décadas de tensões no país desde a invasão americana, em 2001. O clima de tensão só aumenta. A violência já é registrada em todas as 34 províncias. O país começou 2020 sob o risco de crescimento da violência contra civis, alvos de ataques de forças de segurança e do Taliban. Sinais de que os EUA retirarão tropas do país (diminuindo de 13 mil para 8,6 mil) não serviram ainda para se ter esperança em um futuro próximo de paz. Os mais de 13,6 mil conflitos armados em 2019 terminaram com quase 42 mil pessoas mortas.

“Mais cedo ou mais tarde – tenho impressão que mais cedo do que tarde – a OTAN vai sair do Afeganistão. E minha previsão é que o Talibã retomará o poder lá, e vai dizer que ganhou da OTAN”, completou o professor.

Líbano

Embora 85% das manifestações registradas no ano passado tenham sido pacíficas, há o risco de que os protestos se intensifiquem e cheguem ao cenário de violência organizada. Uma onda de insatisfação tomou conta do país no ano passado e fez o povo ir às ruas contra impostos sobre gasolina, tabaco e até ligações pelo whatsapp. Aumentaram em outubro, contra o governo, por causa da economia estagnada e o desemprego. Resta saber como as tensões entre grupos aliados dos EUA e do Irã se refletirão entre vários partidos políticos do Líbano - particularmente com o importante aliado do Irã, o Hezbollah.

Estados Unidos

“Os EUA sofreram mais assassinatos em massa em 2019 do que em qualquer ano registrado" segundo um estudo realizado pela Associated Press, USA Today e Northeastern University que contabilizou 41 ataques que resultaram em 211 mortes. De acordo com as estatísticas mais recentes do FBI, os crimes violentos de ódio atingiram o nível mais alto em 16 anos em 2018, enquanto no mesmo ano um banco de dados que rastreia a violência perpetrada pelas agências policiais relatou que “a brutalidade da polícia americana está piorando”.

O relatório aponta poucos conflitos em território americano, em comparação com outros países, porém preocupantemente letais. O ACLED também registrou 16 casos envolvendo força excessiva da polícia, mais da metade deles contra minorias raciais e étnicas. E também mais de 21 crimes de ódio contra grupos minoritários, incluindo sete ataques contra membros da comunidade LGBTQ +, principalmente mulheres trans. Ao todo, o ECLAD contabilizou em três meses do ano passado quase 3.200 episódios que terminaram de forma violenta nos EUA (a maioria protestos), com quase 50 mortes registradas.

“Essa polarização política nos EUA já está radicalizando há algum tempo, desde o governo do Bush Filho. Preocupante também é o aumento de milícias regionais lá. Tenho impressão que essa campanha eleitoral americana pode ter momentos de violência bastante significativos”, analisou Márcio Scalercio, que ainda ressaltou que não se enfrenta problemas como o crime organizado, que tem negócios com outros países, sem cooperação internacional. “Não adianta tentar derrotar os cartéis mexicanos militarmente se eles continuam recebendo matéria-prima da droga. Isso os dá condições financeiras de regar o braço indispensável para o crime organizado funcional, que é o suborno de agentes públicos”, completou.

Além do mais, a decisão do presidente Donald Trump de assassinar, em janeiro, o comandante militar iraniano Qasem Soleimani aumentou imediatamente o risco de ataques a militares e cidadãos americanos.

O ACLED listou, basicamente, locais onde a violência tem sido consequência de protestos e extremismo. Ainda de acordo com o professor de Relações Internacionais, Marcio Scalércio, existe em várias partes do mundo um movimento de descontentamento em relação a como o processo político e social está se estruturando desde o final dos anos 90. E ele não acha que esses movimentos vão parar logo. “Vamos ter ainda mais manifestações de massa no mundo e não acho isso necessariamente ruim”, disse, exaltando a liberdade de expressão mas, ao mesmo tempo, se demonstrando receoso de que essas manifestações possam desencadear para um cenário de violência, inclusive por parte do aparato repreensivo do Estado, dependendo do país.

Márcio Scalércio também acredita em um aumento das ações terrorristas nos países onde este é o problema mais crítico. “É preocupante a possível internacionalização do Boko Haram, por exemplo. E nos lugares do mundo onde as instituições não estão funcionando bem a populaçao quer fazer com que voltem a funcionar”, concluiu.

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