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África do Sul anuncia confinamento e brasileiros temem ficar bloqueados no país

O presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, anunciou o confinamento da população (foto de arquivo)
O presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, anunciou o confinamento da população (foto de arquivo) REUTERS/Sumaya Hisham

O isolamento dos sul-africanos por 21 dias foi anunciado pelo presidente Cyril Ramaphosa nesta segunda-feira (21), horas depois de homens do exército começarem a ocupar ruas de Joanesburgo. Diante do cancelamento de voos para o Brasil, os brasileiros que estão no país temem ficar bloqueados sem poder voltar para casa.

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Correspondente da RFI na África do Sul

A partir da próxima quinta-feira (26), e até o dia 16 de abril, a população só poderá sair de casa se for extremamente necessário. “Esta é uma medida decisiva para salvar milhões de sul-africanos de infecções e salvar a vida de centenas de milhares de pessoas”, justificou o chefe de Estado no pronunciamento de cerca de 30 minutos.

A África do Sul passou a liderar o número de casos confirmados no continente ao anunciar 402 infectados pelo novo coronavírus, dos 12.815 testes feitos em quem sentiu os sintomas da Covid-19. A partir desta terça-feira (24), todas as praias da Cidade do Cabo estarão fechadas. Supermercados, bancos, farmácias e indústrias consideradas essenciais continuarão funcionando. Fora isso, os todos os negócios terão que ser fechados.

Voos internacionais estão proibidos apenas para um dos aeroportos, o Lanseria. Os cinco voos semanais da LATAM vindos de São Paulo desembarcam no O.R.Tambo. Com a suspensão dos 7 voos semanais da South African Airways nos últimos dias, a LATAM é a única opção de voo sem escala entre a África do Sul e o Brasil.

Brasileiros gravaram um vídeo em um hotel de Joanesburgo onde estão mais de cem passageiros da LATAM que tiveram seus voos cancelados nos últimos dias. De acordo com eles, a empresa não justificou os cancelamentos. Tem gente sem data prevista para embarcar, como Fábio da Silva Neves, Biomédico e Técnico de radiologia, que mora em São Paulo. Ele está desde 10 de março na África do Sul, onde passa férias, e tinha passagem comprada para 27 de março. Estava em Port Elizaberth quando recebeu um recado da companhia aérea sobre o cancelamento do voo.

“Logo que fui comunicado comprei uma passagem e voei para Johannesburg. Estou em um hotel somente esperando a LATAM se pronunciar”, disse. Como o Brasil ainda não é considerado um país de alto risco, Fábio disse que se sente mais aliviado. Mas vai tentar voltar ainda nesta terça. “Vou tentar me colocar no voo que sai para GRU às 12:50. Como profissional da saúde no Brasil, preciso voltar para ajudar no meu trabalho”, disse.

Passageiros buscam rotas alternativas

Na madrugada dessa segunda-feira, o atleta pernambucano Ricardo Almeida conseguiu embarcar com a esposa, depois que seu embarque agendado para domingo foi cancelado. Ao todo, 87 voos foram cancelados neste mesmo dia no aeroporto internacional de Joanesburgo. Os dois vieram com outras dez pessoas para um campeonato de pólo aquático, que acabou não acontecendo por conta da pandemia que riscou do calendário eventos marcados para os próximos meses no mundo todo. O restante do grupo conseguiu antecipar a volta e embarcar sábado para o Brasil.

“Após a empresa informar que não tinha como garantir a confirmação de nenhum voo, sugeriu que se alguém quisesse, poderia comprar passagem com outra companhia”, disse o pernambucano que embarcou em uma viagem para o Brasil com escala em Dubai junto com a esposa, sem ter a certeza de que serão reembolsados pela despesa adicional. 

Em nota, a LATAM informou que "continua operando seus voos na rota Guarulhos-Johanesburgo-Guarulhos de forma reduzida" e explica que, conforme anunciado em 16 de março, "reduziu 90% de todas as suas operações internacionais no mundo, e segue atenta às restrições impostas pelas autoridades". 

Entrada de estrangeiros proibida

Na semana passada o presidente sul-africano já havia anunciado a proibição da entrada de estrangeiros vindos de países considerados de alto risco por causa do grande número de casos de coronavírus confirmados. Também proibiu aglomerações de mais de cem pessoas, suspendeu aulas nas escolas e universidades e bloqueou o trânsito em 35 das 53 fronteiras terrestres do país.

Embaixadas do Brasil em países africanos têm recomendado a turistas brasileiros que antecipem a volta para casa, temendo que mais vôos internacionais sejam suspensos e outras fronteiras sejam fechadas. Apesar do empenho de diplomatas para acomodar os interessados em voltar, brasileiros afirmam que estão encontrando preços extremamente altos por viagens que chegam a durar 30 horas até o destino final em razão das conexões.

“Culpa dos estrangeiros e dos ricos que viajam”

O clima tenso em Nairóbi fez Fernanda Nobre decidir sair o mais rápido possível do Quênia, para onde se mudou em julho do ano passado. O país também está no mapa global do coronavírus. “Alguns moradores locais estão muito bravos. Temo pelo cenário que possa se desenrolar aqui, economicamente e em se tratando de violência”, contou, preocupada com possíveis casos de xenofobia. Segundo ela, para alguns quenianos “isso tudo é culpa dos estrangeiros e dos ricos que viajam”.

A paulistana de Ribeirão Preto veio fazer uma pós-graduação em Inovação Social no país e pretendia ir ao Brasil, de férias, apenas em Julho. Mas como viu o cenário mudar nas últimas duas semanas, com casos de Covid-19 sendo confirmados e medidas restritivas sendo anunciadas, começou a busca por passagens aéreas.

O governo decidiu suspender vôos internacionais a partir de quarta-feira (25), meia-noite. O voo dela estava previsto para cinco minutos depois, já início de quinta-feira. Após o anúncio da restrição, ela comprou passagem para voar com outra companhia, nesta segunda. “Encontrei uma passagem para o Brasil custando R$10 mil só a ida. Um roubo! Acho que deveria ser proibido praticar esses valores. Comprei uma em um voo que fará conexão em Dubai. Paguei R$ 5 mil, que é caro ainda”, contou, deixando claro que não tinha escolha. Mas ela quer voltar para o Quênia depois que a poeira baixar. Só não se sabe quando.

Brasileira morta no Quênia

Para piorar a situação, uma brasileira morreu no fim de semana no Quênia. A embaixada do Brasil em Nairóbi disse que a causa não foi o novo coronavírus, mas, sim, malária. Rachel Varoto Correa estava na cidade de Quisumu. Ela embarcou para a África em novembro do ano passado para uma aventura, depois de ter feito uma cirurgia nas duas pernas, de acordo com o que escreveu no Instagram. Antes de chegar ao Quênia, esteve em países como África do Sul, Namíbia, Botsuana e Tanzânia.

Na rede social onde vinha compartilhando fotos da viagem, ela se apresentava como uma “viajante em tempo integral”. Segundo uma amiga, Rachel disse que começou a sentir febre na quarta-feira. A embaixada do Brasil na capital queniana disse que foi avisada na sexta-feira pela família da brasileira que Rachel estava internada e passou a acompanhar o caso. Seus familiares e amigos questionam a versão dada pelo hospital queniano sobre a causa da morte.

A União Africana (UA) recebeu neste domingo 1,1 milhão de kits de testes laboratoriais para diagnosticar se os pacientes que apresentam os sintomas da Covid-19 estão realmente com a doença. Os kits foram doados pela fundação do bilionário chinês Jack Ma, proprietário do site de comércio online Alibaba.

Mais de 1.600 casos no continente

Ainda que lentamente, o número de infectados não para de subir na África. Já passa de 1.600 o balanço de casos confirmados em mais de 40 países e territórios do continente. Desde o registro do primeiro doente, a UA garante que 169 pacientes foram recuperados em 11 países da África.

O Egito é o segundo país com o maior número de infectados (327) e onde foram registradas 14 das 52 mortes contabilizadas em 13 países até agora. A reportagem entrevistou o embaixador brasileiro no Egito, Antônio Patriota, que está no cargo há 5 meses.

De acordo com ele, 135 brasileiros pediram ajuda à embaixada, entre eles 46 que tiveram seus voos cancelados. “Restam 23 casos. Estamos dando prioridade a este assunto desde segunda-feira passada. Nem todos quiseram embarcar de volta. Os aeroportos ficam fechados até 31 de março. Alguns esperarão”, disse.

“Cinco funcionários da Embaixada foram mobilizados para contatos com agências de turismo e companhias aéreas. Ajudam a fazer reserva de passagens”, explicou, lembrando que alguns brasileiros precisavam de ajuda para se comunicar em árabe. O embaixador disse que nenhum brasileiro foi infectado no país até agora.

Nesta terça-feira (24), mais de cem brasileiros devem voltar para casa em um voo organizado pela embaixada do Brasil em Cabo Verde. Enquanto isso, na Nigéria, o consulado brasileiro em Lagos conseguiu embarcar os últimos 14 brasileiros em um voo antes do fechamento do aeroporto. Conseguiram a liberação dos passaportes de três dos passageiros junto à imigração nigeriana. Um está voltando com Autorização de Retorno ao Brasil. Sete dos brasileiros gravaram um vídeo, postado nas redes sociais do Itamaraty, agradecendo ao encarregado do consulado em Lago, Helges Bandeira. 

O embaixador dos Estados Unidos em Burkina Faso, Andrew Young, anunciou que testou positivo, assim como quatro ministros do país africano, conforme divulgado no fim de semana.

 

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