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Argélia: Pressão popular fez militares precipitarem queda de presidente Bouteflika

Argelinos voltaram às ruas nesta quarta-feira (3) para continuar a comemorar a renúncia de Abdelaziz Bouteflika (03/04/2019).
Argelinos voltaram às ruas nesta quarta-feira (3) para continuar a comemorar a renúncia de Abdelaziz Bouteflika (03/04/2019). RYAD KRAMDI / AFP

Depois de 20 anos no poder e quatro mandatos consecutivos, bastaram seis semanas de intensos protestos nas ruas para o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, apresentar uma carta de demissão. Mas, apesar da pressão popular, a queda só foi possível depois de as Forças Armadas abandonarem o líder, de 82 anos.

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Desde que Bouteflika sofreu um AVC, em 2013, e a sua saúde se deteriorou, os militares exerciam uma forte influência sobre o executivo. O anúncio de que o presidente concorreria a um quinto mandato nas eleições previstas para abril fez eclodir um impasse político sem precedentes, com a realização das mais intensas manifestações populares já vistas na Argélia.

Neste contexto, que poderia ameaçar a estabilidade do país, o chefe do Estado-maior afirmou e reiterou, no fim de março, que a solução da crise se encontrava na aplicação do artigo 102 da Constituição nacional, relativo ao impedimento do presidente. A partir deste momento, pouco a pouco, o comando militar e o círculo próximo do líder se distanciaram, um a um e rapidamente, de Bouteflika.

Protagonismo na transição política

“É a confirmação de que, por mais poderoso que seja um político, inclusive o presidente, ele não pode exercer o poder sem o consentimento do Exército. E isso por duas razões”, explica Leila Latrous, editora-chefe da edição de Magreb e Oriente Médio da revista Jeune Afrique, em entrevista à RFI. “O Exército interpreta as leis de forma a se autorizar a declarar o conselho constitucional e o presidente inaptos, e dessa forma se colocar como o único defensor legitimo da Constituição. E, em segundo lugar, as Forças Armadas argelinas são extremamente populares junto à população. Toda família argelina tem um irmão, um primo ou um amigo militar”, disse.

Milhares de argelinos festejam o que pode ser uma nova era na política do país. (03/04/2019)
Milhares de argelinos festejam o que pode ser uma nova era na política do país. (03/04/2019) REUTERS/Zohra Bensemra

A principal despesa do Estado argelino é com defesa, que conta com quase 1 milhão de homens, se incluídos os reservistas. A dúvida agora é se os militares se colocarão como protagonistas na transição política. “Como eles se consideram na prerrogativa de preservar a segurança e a unidade do país, avaliam que têm o dever de se implicar na política. Podemos esperar que as Forças Armadas seguirão executando um papel mais ou menos visível, como foi o caso nos últimos anos”, avalia Latrous.

Argelinos agradecem aos militares, mas querem mais

Nas ruas de Argel, a comemoração pela renúncia de Bouteflika invadiu a madrugada, com buzinaços e festa. A correspondente da RFI Léa-Lisa Westerhoff relata que os argelinos demonstravam gratidão aos militares por essa etapa crucial rumo a uma almejada abertura política - mas mantinham a cautela sobre o futuro.

“Vimos o profissionalismo das Forças Armadas, que intervieram de uma maneira constitucional, afinal tivemos uma intervenção sem golpe de Estado. O Exército deu uma mão ao povo, que estava sozinho”, declarou um senhor. “É uma grande emoção, mas o que queremos mesmo ainda não aconteceu. Espero que os militares compreenderão o que o povo deseja: uma Argélia democrática, na qual o povo é livre”, disse uma aposentada.  

“Essa é uma pequena etapa da nossa ‘revolução do sorriso’. Agora, reivindicamos uma verdade república democrática e social”, complementou outro argelino que participava da comemoração. Uma senhora adverte que os manifestantes vão continuar em alerta. “Não é porque tivemos 10 anos de terrorismo que estávamos dispostos a aceitar tudo. No terceiro mandato de Bouteflika, quando a Constituição foi triturada, começamos a dar um basta. Desde então, trabalhamos muito discretamente, mas longamente, para chegarmos até esse dia”, relembra.

“Durante tantos anos, não tivemos o direito de reclamar, de falar, de escolher. Era comer, dormir, trabalhar. Só. Esse dia é como se fosse uma segunda independência”, festeja outra moradora da capital.  

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