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Linha Direta

Dia Mundial do Elefante: Botsuana quer liberar caça aos animais

Áudio 04:08
Elefantes nos Chobe National Park, de Botsuana.
Elefantes nos Chobe National Park, de Botsuana. (Stacy Howell)

Doze de agosto é o Dia Mundial do Elefante. Organizações não governamentais aproveitam a data para promover ações em diversos países de conscientização sobre a importância de se preservar esse animal. Neste ano, as atenções se voltam para Botsuana, país com a maior quantidade de elefantes da África que quer voltar a permitir a caça a esses animais. O correspondente da RFI na África, Vinícius Assis, foi até Botsuana e constatou que a população de áreas rurais apoia a proposta do presidente.

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Vinícius de Assis, correspondente da RFI

Se há algo que as crianças negras dos vilarejos do norte de Botsuana temem, além de ver pessoas brancas pessoalmente, é ficar cara a cara com um elefante. Mas, se por um lado, neste país - onde os brancos representam 3% da população de cerca de 2,3 milhões de habitantes - a infância de um negro pobre da área rural é sinônimo de raríssimos contatos com pessoas de outra cor, por outro lado faz parte da rotina dele ver rastros desses gigantescos animais no quintal de casa.

Nem todos os terrenos são cercados. Os vultos vistos pelas janelas durante a noite, além do barulho, são constantes e perturbadores. É comum encontrar de manhã fezes, pegadas no chão molhado de urina, árvores arrancadas pela raiz e, às vezes, carcaças de elefantes mortos naturalmente ou alvos de caçadores ilegais. E não é raro se deparar com esses animais vivos em pleno dia, embora seja mais comum vê-los ao anoitecer.

“A gente aprende desde criança aqui a ficar longe de elefante. Se um deles se aproximar, começar a abanar as orelhas, é melhor correr logo, porque eles são rápidos”, afirma Galalingsang Masilo, de 25 anos. Formado em Administração, mas trabalhando como motorista, transportando frutas e verduras, o jovem mora em Mokubilo, um vilarejo perto de Kasane, cidade turística de pouco mais de 9 mil habitantes. Foi onde a reportagem também encontrou Tonny Inambao, professor de 36 anos que se dedica a alfabetizar adultos de vilarejos. Ele concorda com a decisão do governo de voltar a permitir a caça a estes animais.

“Eles estão matando pessoas e está ficando perigoso viver aqui”, justificou Tonny.

Caça proibida desde 2014

Em maio, o presidente de Botsuana Mokgweetsi Masisi anunciou que a caça aos elefantes voltará a ser permitida no país. A prática era proibida desde 2014, quando quem estava no comando era o presidente Ian Khama. Ao tomar a decisão, o atual ocupante do cargo foi alvo de críticas nas redes sociais vindas de vários países. E alguns dos críticos também foram rebatidos por moradores de Botsuana, que apoiam a decisão do presidente. Foi essa reação da população que fez a reportagem viajar até o país para ver de perto a realidade de quem quer distância dos elefantes.

No dia 26 de abril o corpo do filho mais velho de Catherine Charles Shamukuni, de 72 anos, foi encontrado a menos de 500 metros da casa da família, na comunidade Botshabilo.

“Meu filho tinha 54 anos. Era construtor e foi pisoteado por elefantes à noite quando voltava do trabalho. Eu já era a favor da caça e agora sou ainda mais. Tem muito elefante aqui chegando perto das nossas casas hoje em dia. Antigamente não tinha tanto”, disse a idosa. Ela não é fluente em inglês (fala melhor Tswana, o outro idioma oficial do país) e passa o dia em um pequeno comércio que montou na frente de casa vendendo produtos como biscoitos, cigarros e itens de higiene.

Alguns contam que “anos atrás” quando elefantes matavam algum morador a comunidade se vingava abatendo o animal, quando conseguia. E a carne era distribuída entre a população. Desde 1993, as famílias das vítimas recebem uma compensação em dinheiro do governo. Isso serve também para ataques de outros animais selvagens.

Kachaua Abel tem 35 anos. No ano passado ele e os sete irmãos perderam o pai, que também foi pisoteado por elefantes.

“Demoramos dois dias para achar o corpo do nosso pai. O governo nos pagou 50 mil Pulas (o equivlente a menos de R$ 18 mil) e ainda deu 20 mil Pulas (cerca de R$ 7 mil) em comida para o velório, que na região dura uma semana e reúne toda a comunidade”, detalhou Kachaua.

Balanço oficial

Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, Conservação Natural e Turismo, 50 pessoas foram mortas por elefantes no país na última década (até fevereiro deste ano). E desde o ano passado, 3000 ataques já foram registrados. Praticamente o dobro dos que aconteceram no período anterior. Isso tudo custou aos cofres públicos o equivalente a R$ 44 milhões em compensações pagas às famílias.

Botsuana é o país com a maior população de elefantes da África. Estima-se que o número passe de 130 mil, segundo o Great Elephant Census, que contabilizou mais de 352 mil desses animais em 18 países do continente. Em Botsuana os elefantes são mais vistos na região norte. Especialistas garantem que parte veio de países vizinhos (Namíbia e Zimbábue) fugindo de caçadores. Estima-se que 76% dos elefantes africanos são encontrados em populações transfronteiriças. Entre 2007 e 2014, a população de elefantes na África diminuiu 30%.

Em Botsuana a reportagem viu alguns desses animais em plena tarde na beira da estrada A33, que corta o Chobe National Park. Não há cercas em torno do parque. Ao longo desta e outras estradas de Kasane, placas advertem os motoristas sobre a presença de elefantes e outros animais selvagens, como girafas.

Fronteira com a Namíbia

No villarejo Muchanje encontramos a artesã Esnart Mpambo, que aos 67 anos passa a maior parte do dia sentada diante da casa de dois cômodos, feita de barro, fazendo trabalhos manuais. Há energia solar, graças a uma placa de 40x60cm no chão, encostada na parede do lado de fora do imóvel. Ela sobrevive com o dinheiro da venda das peças que produz sentada numa cadeira no quintal de casa, mas sempre com medo de ser surpreendida por elefantes.

“Não temos banheiro aqui. Então, quando precisamos fazer as necessidades vamos para o mato. Se somos surpreendidos por algum elefante temos que correr. Ainda mais que aqui tem pés de amarula, que os elefantes adoram. Eles chegam e destroem tudo que encontram pelo caminho”, declarou.

No entorno, vegetação seca e pouca sombra. Nessa época do ano quase não há folhas nas árvores. Da casa da artesã a vista alcança a Namíbia. Num raio de cerca de 250 metros há sete pequenas casas, razoavelmente distantes entre si, onde há décadas vivem famílias que ganham a vida com o que conseguem produzir: cerveja artesanal, leite de cabra ou vaca, além de artesanatos.

Na tentativa de espantar os animais, moradores espalham latas de refrigerante e placas de alumínio penduradas pelo quintal. O barulho que elas fazem com o vento e quando os elefantes se aproximam, às vezes, espantam os animais (dependendo do tamanho).

Algumas dessas mulheres são viúvas e se protegem como podem. Cerca de 20 metros de onde ficavam as cabras do professor Tonny Inambao - devoradas por leões - a reportagem encontrou dona Annah Mazunga, de 85 anos, sentada numa cadeira dando canjica de almoço para um dos netos. Ela vive da venda de leite de vacas. O gado fica preso em um pequeno cercado de galhos de árvores construído perto da casa. Dona Annah mostrou à reportagem uma espingarda que usa para sua segurança caso os elefantes a ameacem.

“Depois de seis horas da tarde eu fecho tudo e ninguém mais sai de casa. A gente sempre ouve barulho deles passando aqui do lado de fora à noite. Minha arma está aqui. Se avançarem ou começarem a destruir alguma coisa aqui eu atiro para cima, só para fazer barulho. Não mato porque é proibido, mas se o governo me deixar eu atiro para matar. A carne a gente distribui depois”, contou dona Annah Mazunga.

Caça e turismo

Aliás, há quem diga que hoje em dia só mesmo no mercado clandestino se consegue comprar carne de elefante no país, que é “saborosa, mas tem ser cozida por horas”, segundo moradores que já provaram.

O que mais atrai os caçadores de elefantes não é a carne, é o marfim, muito valioso no mercado asiático. Em abril, a chinesa Yang Feng Glan, de 70 anos, conhecida como a rainha do marfim, foi condenada a 15 anos de prisão na Tanzânia acusada de ter contrabandeado 860 presas de elefantes, avaliadas em US$ 6,45 milhões.

Botsuana é um país conhecido também por ser um dos maiores produtores de diamantes do mundo. Os pacotes turísticos nem sempre são baratos. Atrai visitantes dos quatro cantos do planeta, de anônimos a personalidades, como o príncipe Harry, da Inglaterra. Aliás, outro nobre já foi fotografado no país, mas em uma situação polêmica. Em 2012, o então rei da Espanha, Juan Carlos, teve que pedir desculpas ao povo espanhol depois da divulgação de uma foto dele, armado, em pé diante de um elefante morto em Botsuana. A viagem de caça foi feita na época em que a Espanha enfrentava uma crise econômica.

Com um estilo de viva bem diferente do da maioria dos turistas que se hospedam nos hotéis de luxo de Kasane, o jovem Galalingsang Masilo, nascido e criado na região, não concorda com a decisão do presidente de liberar novamente a caça de elefantes.

“A maioria das pessoas morreu à noite. É preciso seguir as regras dos vigilantes de vida selvagem e evitar isso. Mas o governo também deveria tirar as pessoas que vivem dentro dos parques e dar a elas casas em locais mais seguros. A quantidade de elefantes também atrai turistas para cá. Se matarmos esses animais, isso vai prejudicar nosso turismo. E alguns matam só por diversão, não por segurança. O que é preciso fazer principalmente é combater a caça ilegal e o tráfico de marfim”, disse Masilo.

Moradores de Kasane dizem que os caçadores ilegais, não raras vezes, são ex-militares de países vizinhos que hoje trabalham para traficantes internacionais e tentam enganar os guardas florestais de Botsuana de qualquer forma. Chegam a cortar as patas dos elefantes e fazer delas calçados improvisados para não deixar rastros de seus sapatos.

Um comerciante do Malawi, que há anos mora em Botsuana e preferiu não se identificar, disse não acreditar que o governo de fato regulamente a caça aos elefantes. Para ele, isso é uma estratégia do presidente para agradar a população de áreas rurais, de olho nos votos desta parcela do eleitorado na eleição presidencial marcada para outubro.

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