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Linha Direta

Uruguai deve eleger um novo aliado de Bolsonaro

Áudio 05:03
O candidato do governo, o socialista Daniel Martínez e o candidato da oposição, o liberal Luis Lacalle Pou
O candidato do governo, o socialista Daniel Martínez e o candidato da oposição, o liberal Luis Lacalle Pou wikipédia

Os uruguaios definem no domingo (24) quem será o próximo presidente do país de 2020 a 2025. Este segundo turno coloca frente a frente duas correntes ideológicas opostas. Se as urnas confirmarem a tendência apontada por todas as sondagens, o presidente Jair Bolsonaro vai ganhar um aliado na região e, sobretudo, no Mercosul, o liberal Luis Lacalle Pou.

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Correspondente da RFI em Buenos Aires

De um lado, o candidato da governista Frente Ampla, o socialista Daniel Martínez (62), ex-ministro da Indústria e Energia, senador e prefeito de Montevidéu (2015-2019). Do outro, o candidato da oposição, Luis Lacalle Pou (46), filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle Herrera (1990-1995) e da ex-senadora Julia Pou.

Em jogo está uma mudança política que pode pôr fim a 15 anos de governos de esquerda no Uruguai. A centro-direita chegaria ao poder com a chamada "coligação multicor", que promete mudar o rumo do país tanto em aspectos da economia quanto de relações exteriores. No campo econômico, diz que vai tirar o Uruguai da estagnação para gerar empregos. Para isso, se comprometem a tornar o Estado mais eficiente e melhorar as contas públicas, hoje deficitárias.

Mesmo havendo reduzido a pobreza de 40% a 8% entre 2004 e 2019, a Frente Ampla da esquerda uruguaia deve ser substituída pelo conservador Partido Nacional. É que, ao longo de 15 anos de governos de esquerda, a média de crescimento econômico foi de 1,6%. Neste ano, o crescimento deve ficar em 0,4%. A falta de crescimento elevou o desemprego a 9,47%, o mais alto índice dos últimos 12 anos. Também o déficit fiscal alcançou os 5% e a dívida pública atingiu 63,4% do PIB.

Ajustes sem cortes em políticas sociais

A esses números, soma-se uma pressão fiscal elevada. Os dois candidatos prometem um ajuste, mas afirmam que não haverá cortes em políticas sociais nem aumento de impostos.

"A economia não está tão mal, mas já esteve bem melhor. Não estamos como estávamos até 2014. As pessoas sentem essa queda. No Uruguai, sempre houve um problema de trabalho porque há poucas fontes de emprego. Mas as pessoas sentem que o desemprego vai continuar a subir e provavelmente não se enganam", explica à RFI Adriana Rada, analista política e diretora da consultoria em opinião pública Cifras.

No campo internacional, uma vitória do centro-direita de Lacalle Pou deve levar o Uruguai a retirar o apoio à Venezuela de Nicolás Maduro e a aliar-se ao Grupo de Lima.

No campo social, o desafio da “coligação multicor” é reverter a crescente criminalidade associada ao tráfico de drogas.

"O que as pessoas querem é mudar. Estão insatisfeitas depois de 15 anos. Na verdade, o desgaste é inevitável depois de tantos anos. Os eleitores manifestam que querem uma mudança um pouco menos assistencialista. Há uma burocracia estatal grande que está cheia de gente da Frente Ampla", indica Rada.

Vantagem de até 8 pontos

Todas as sondagens apontam uma vantagem de 5 a 8 pontos a favor de Luis Lacalle Pou, do conservador Partido Nacional, sobre Daniel Martínez, da Frente Ampla de esquerda. No primeiro turno em 27 de outubro, o candidato do governo ganhou com 39%. Lacalle Pou ficou com 28,6%, dez pontos abaixo, mas toda a oposição de direita se uniu e virou o jogo.

Segundo a consultoria Cifras, por exemplo, Lacalle Pou tem agora 47% das intenções de voto, enquanto Daniel Martínez chega a 42%. Outros 5% dos eleitores pretendem votar em branco ou anular o voto. E 6% continuam indecisos. "Não vejo chance de uma surpresa a favor de Daniel Martínez. Os integrantes da Frente Ampla se mostraram derrotados nas últimas três semanas. Isso também impacta nos eleitores. É difícil que todas as sondagens errem", afirma Adriana Rada.

Estratégias para o segundo turno

Os cinco partidos da oposição conseguiram se unir na coligação "multicor". Essa união ocorreu em torno de um acordo chamado de "Compromisso País". São 12 pontos sobre, por exemplo, Segurança, Emprego e Educação. Esses, aliás, são os três principais pontos que levam os uruguaios a mudarem de rumo.

"Armar essa coligação para as eleições foi um sucesso. Precisamos ver como funciona no exercício do governo", adverte Rada.

Além disso, o acordo dos partidos de direita também envolve as relações exteriores. Segundo ele, o Uruguai vai deixar de ter um alinhamento com países, como a Venezuela. O atual governo uruguaio de Tabaré Vázquez classificou como golpe de Estado a renúncia de Evo Morales na Bolívia. Isso também deve mudar com Lacalle Pou.

Contexto regional

"As insurreições populares na região tiveram pouca incidência no debate. Lacalle tentou trazer ao debate a Venezuela. A Bolívia é muito distante para nós. Não convém a Lacalle trazer o Chile à discussão. A Martínez também não, a não ser para apontar o Chile como um país desigual e compará-lo com a igualdade do Uruguai. Mas isso não lhe rendeu mais votos", avalia Adriana Rada.

Pelo lado do candidato do governo, a estratégia foi reluzir a prata da casa. O ex-presidente José Mujica, de 84 anos, voltou ao ringue e foi eleito Senador. Se Daniel Martínez ganhar a eleição, Mujica será nomeado ministro da Agricultura, cargo que já exerceu entre 2005 e 2010.

Novo aliado para Bolsonaro

A anunciada vitória de Lacalle Pou pode significar um novo aliado na região para Jair Bolsonaro. Não um aliado ao comportamento nem ao pensamento de Bolsonaro em matéria de Direitos Humanos, mas um aliado em matéria econômica e comercial.

"Lacalle Pou não sabia como se distanciar o suficiente de Bolsonaro porque essa aliança joga contra ele que não se identifica com Bolsonaro. No Uruguai, existe muito medo quanto ao autoritarismo. Inclusive, a família Lacalle foi perseguida pelo regime militar. Já Bolsonaro é uma figura que causa rejeição aqui no Uruguai", observa Rada, indicando, no entanto, uma sintonia em matéria comercial e econômica. "Sim, nesse sentido, certamente o Uruguai será um aliado", diz.

O provável novo presidente do Uruguai também vai defender a abertura do Mercosul. Ao contrário da Argentina que quer rever aspectos do acordo do bloco com a União Europeia, Lacalle Pou quer avançar o mais rápido possível com esse e com novos acordos.

Bolsonaro terá, portanto, um novo aliado contra o protecionismo do presidente eleito na Argentina, Alberto Fernández. Aliás, Fernández fez campanha a favor de Daniel Martínez. Tudo indica que, no campo político, o Uruguai também vai tomar distância da Argentina.

O Paraguai também é a favor da abertura comercial do Mercosul. Com isso, a Argentina será como uma ilha de esquerda, cercada de direita por todos os lados.

Presença militar

Além disso, dentro da coligação de Lacalle Pou, está o partido "Cabildo Aberto", fundado em março passado pelo ex-comandante do Exército Guido Manini Ríos. No primeiro turno, Manini Ríos obteve surpreendentes 11,3% dos votos. Esse ex-militar, agora político, pode ser outro aliado de Bolsonaro no Uruguai.

A vitória de Alberto Fernández na Argentina animou a esquerda sobre a possibilidade de uma onda de vitórias, mas o fim do ciclo de Evo Morales na Bolívia e a provável derrota da esquerda no Uruguai mostram que a tendência é a vitória das oposições.

"Há um cansaço com os governos. Aqui no Uruguai, não é uma questão de direita ou de esquerda. É uma questão de mudança. E as mudanças beneficiam a oposição. Não importa muito se é direita ou esquerda. A questão é mudar e que os mesmos não fiquem tanto tempo no governo", conclui Adriana Rada.

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