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Linha Direta

Uruguai adia anúncio de vencedor da eleição presidencial devido a resultado apertado

Áudio 05:48
Segundo turno disputado voto a voto, o anúncio de quem será o novo presidente do Uruguai não foi feito neste domingo devido à margem apertada de votos entre os dois candidatos.
Segundo turno disputado voto a voto, o anúncio de quem será o novo presidente do Uruguai não foi feito neste domingo devido à margem apertada de votos entre os dois candidatos. REUTERS/Andres Cuenca Olaondo

Após inusitada paridade eleitoral no segundo turno da eleição presidencial nesse domingo (24), o Uruguai terá de esperar mais alguns dias para saber quem será o próximo presidente. O opositor de centro-direita, Luis Lacalle Pou, ainda é favorito para vencer a disputa e encerrar 15 anos de governos da esquerda.

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Correspondente da RFI em Buenos Aires

A votação no segundo turno foi tão apertada que a Corte Eleitoral adiou para até sexta-feira (29) o resultado que se esperava para a noite deste domingo. O candidato da centro-direita Luis Lacalle Pou ficou com 48,7% enquanto o governista e socialista Daniel Martínez chegou a 47,5%. O número surpreendeu o país que esperava uma vitória folgada de Lacalle Pou.

"Houve uma surpreendente mudança de cenário. Houve um evento inesperado. Esperava-se uma diferença consistente a favor de Lacalle Pou, mas o cenário mudou e estamos agora numa situação de incerteza", explica o cientista político e historiador uruguaio, Gerardo Caetano.

Todas as sondagens apontavam para uma vitória entre 5 e 8 pontos de vantagem para o opositor Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, sobre o governista Daniel Martínez, da Frente Ampla. À medida que os votos eram apurados, no entanto, o clima de vitória da oposição dava, paulatinamente, lugar ao nervosismo. Pelo lado dos governistas, o clima era o oposto: do derrotismo a uma inesperada euforia.

A diferença de 28.666 votos, ou 1,2%, a favor de Lacalle Pou seria suficiente para ele ser eleito presidente neste domingo, mas os chamados votos "em observação" somam 35.229. São eleitores que votaram fora das suas jurisdições e que, por isso, requerem de um processo mais lento para serem validados.

Além do mais, com uma escassa margem de diferença, podem surgir pedidos de revisão. A Corte Eleitoral preferiu adiar o resultado.

Reviravolta

Matematicamente, há chance de uma reviravolta, mas na prática, Lacalle Pou deve ser eleito vencedor. Para uma virada de Daniel Martínez, seria preciso que o candidato governista ficasse com 90,6% de todos os votos a serem "observados", algo improvável.

Por isso, o provável eleito Lacalle Pou lamentou que seu adversário não reconhecesse o resultado como "irreversível". "Não nos telefonou, nem reconheceu o resultado que, do nosso ponto de vista, é irreversível", disse.

Já o governista Daniel Martinez evitou admitir a derrota e pediu aos militantes para festejarem essa "conquista incrível", que nenhuma sondagem indicou. "Enfrentamos uma situação inédita no Uruguai. Agora, vamos festejar nas nossas casas", incentivou.

No primeiro turno em 27 de outubro, o candidato do governo, Daniel Martínez, ganhou com 39%. O opositor Lacalle Pou ficou com 28,6%, dez pontos abaixo, mas toda a oposição de direita, que somou 55% dos votos, se uniu no segundo turno e virou o jogo. Os cinco partidos da oposição formaram a chamada coligação "multicor".

"No primeiro turno, 55% dos eleitores optaram por alguma das opções da chamada coligação multicor. Essa votação deu uma mensagem de desaprovação ao governo atual. Quatro semanas depois, a mensagem é desaprovação à 'multicor'. E essa desaprovação aconteceu nos últimos dias. Por isso, as sondagens não detectaram", observa Gerardo Caetano.

Extrema-direita militar

Na quinta-feira (21), o candidato a presidente derrotado no primeiro turno, o ex-comandante do Exército Guido Manini Ríos, que obteve surpreendentes 11,3% dos votos e uniu-se numa coligação com Lacalle Pou e outros três partidos, gravou um vídeo divulgado nas redes sociais. No vídeo, destinado aos militares, Manini Ríos pede aos soldados que não votem no candidato governista e relembra que o governo atual “sempre atacou, sistematicamente, as Forças Armadas”.

Manini Ríos foi afastado do Exército em março por ter acobertado militares que cometeram violações aos direitos humanos durante a ditadura uruguaia. Ao mesmo tempo, circularam mensagens intimidatórias em que se pede para votar em Lacalle Pou, com apoio do comandante Manini Ríos, para "salvar a pátria". Uma das mensagens advertia que, quem não votasse, seria tratado como um traidor.

Também o Centro Militar divulgou uma publicação na qual anuncia que "os marxistas do governo vão embora do poder" e que "o marxismo deve ser extirpado do Uruguai".

Essas mensagens assustaram boa parte dos eleitores uruguaios que decidiram mudar de voto. Muitos dos que votariam em branco ou que anulariam também mudaram de opinião.

"Definitivamente, discursos como o do Sr. Manini ou comunicados como o do Centro Militar não têm mais espaço na democracia uruguaia e talvez tenham sido um fator decisivo nesta circunstância", avalia Gerardo Caetano.

Polarização uruguaia e regional

A estreita margem de diferença revela um país polarizado e obriga o ganhador a fazer um governo de muito mais negociação para unir as duas partes.

"Ganhe quem ganhar, aqui há dois países e nenhum dos dois candidatos poderá resolver os desafios do país a partir de si mesmo. O próximo governo terá de estabelecer pontes a outra metade", afirma Caetano.

Por outro lado, a escassa margem de diferença e esse adiamento do resultado mostra um sistema político sólido e confiável no Uruguai. Em outro país da América Latina, neste momento, haveria suspeita de fraude e manifestações contra o governo.

O resultado que pode sair entre terça (26) e sexta-feira (29) deve confirmar que o Uruguai vira da esquerda à centro-direita e que a América do Sul, com exceção da Venezuela e da Argentina, será toda da centro direita ou da direita.

Uma boa notícia para o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que precisa de aliados na região, principalmente no Mercosul, para compensar o distanciamento da Argentina.

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