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Uruguai

Vitória Lacalle Pou representa novo aliado para visão de Bolsonaro sobre Mercosul e Venezuela

Luis Lacalle Pou asumirá a presidência do Uruguai em 1° de março de 2020.
Luis Lacalle Pou asumirá a presidência do Uruguai em 1° de março de 2020. REUTERS/Mariana Greif

O presidente eleito do Uruguai, Luís Lacalle Pou, tende a reconhecer Juan Guaidó como presidente da Venezuela e somar-se ao Grupo de Lima. Ele também deve promover a abertura do Mercosul, aproximando-se da visão de Jair Bolsonaro sobre o bloco regional, em oposição ao argentino Alberto Fernández.

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Correspondente da RFI em Buenos Aires

A virada da esquerda à centro-direita no Uruguai era a última peça que faltava no tabuleiro da América do Sul desde que o argentino Mauricio Macri iniciou o ciclo de vitórias da oposição conservadora em 2015. A partir de 1° de março, quando assumir a Presidência, Luís Lacalle Pou, porá fim a 15 anos de governos de esquerda e deverá iniciar um giro que colocará o país mais próximo do Brasil de Bolsonaro e mais distante da Argentina de Alberto Fernández, os dois principais sócios do Uruguai.

Essa aproximação com o Brasil deve acontecer em relação a dois temas que coincidem com a visão do governo brasileiro, mas que são opostas à postura do próximo governo argentino, que assumirá em 10 de dezembro: a crise na Venezuela e o Mercosul.

Em relação à Venezuela, Lacalle Pou deverá condenar o regime de Nicolás Maduro como ditatorial, reconhecer o governo do opositor Juan Guaidó e associar o Uruguai ao Grupo de Lima.

Em relação à queda de braço sobre a abertura comercial do Mercosul, o Uruguai deverá somar-se à postura de Brasil e Paraguai, distanciando-se da visão protecionista da Argentina.

A mudança em política externa passa por eliminar das relações internacionais as chamadas "afinidades ideológicas", uma variante uruguaia do "viés ideológico" tão propagado por Bolsonaro.

O objetivo é que o Uruguai não fique confinado num Mercosul fechado em si, mas que procure a "agilidade e flexibilidade" do bloco para negociar acordos com outros países e blocos relevantes no comércio internacional.

"Lacalle Pou não se identifica com Bolsonaro. No Uruguai, existe muito medo quanto ao autoritarismo. Inclusive, a família Lacalle foi perseguida pelo regime militar. Bolsonaro causa rejeição aqui no Uruguai, mas em matéria comercial, certamente o Uruguai será um aliado", explica à RFI Adriana Rada, analista política e diretora da consultoria em opinião pública Cifras.

A visão em matéria de política externa para o período 2020-2025 do governo Lacalle Pou aparece no quinto dos 12 pontos do denominado "Compromisso com o país", documento que permitiu a formação da  chamada "coligação multicor", com os cinco partidos que se opuseram durante a campanha eleitoral ao candidato governista Daniel Martínez.

Sintonia comercial

Intitulado "Inserção internacional: abrir mercados e fazer alianças", o documento indica que "após anos de uma política externa baseada em 'afinidades ideológicas', o país ficou confinado num Mercosul bloqueado e isolado do mundo". O texto indica que as barreiras comerciais atuais fazem com que "os produtos uruguaios não sejam competitivos", afetando "negativamente o emprego, o investimento e as condições de vida dos uruguaios".

O documento estabelece um plano estratégico de política exterior que "reoriente o serviço exterior do país em direção a uma grande força comercial". O texto está em total sintonia com os discursos de Bolsonaro e de seu ministro da Economia, Paulo Guedes.

Em relação especificamente ao Mercosul, o documento indica que a "coligação multicor" propõe um bloco "moderno, ágil e flexível", com uma "agenda externa proativa, pragmática e não condicionada a fatores ideológicos" para se chegar a novos acordos comerciais ou para concretizar os já fechados ou em curso, como o pactado acordo Mercosul-União Europeia e Mercosul-EFTA (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein).

"Trabalharemos por uma flexibilização das regras do Mercosul no que se refere aos outros acordos comerciais. Precisamos de um Mercosul moderno, ágil e flexível", diz o texto.

O Mercosul está em negociações avançadas com Canadá, Singapura e Coreia do Sul. Também avança com Japão e pretende iniciar negociações formais com os Estados Unidos. Porém, o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, já avisou que quer rever o acordo com a União Europeia e deu sinais de preferir o protecionismo como forma de recuperar a indústria argentina antes de permitir qualquer competitividade com o mundo.

Além disso, Alberto Fernández fez campanha a favor do candidato uruguaio derrotado, Daniel Martínez. No campo político, o Uruguai também deve tomar distância de uma Argentina que fica cercada por governos de direita.

Ditadura de Maduro

O eleito Lacalle Pou sempre classificou o regime de Nicolás Maduro como uma "ditadura" e criticou, ao longo dos últimos anos, a postura condescendente do atual governo de Tabaré Vázquez, que não condenou o governo venezuelano. Essa postura foi definida por Lacalle Pou como de "cumplicidade", permitindo a Maduro manobras que retardaram a pressão interna e internacional.

Em fevereiro, quando o Uruguai recebeu a primeira reunião do Grupo de Contato Internacional, com a participação de países europeus e latino-americanos para lidar com a crise na Venezuela, o Partido Nacional de Lacalle Pou declarou o regime de Maduro como "ilegítimo" e reconheceu Guaidó.

Diante da crise pós-eleitoral na Bolívia, Tabaré Vázquez classificou a renúncia de Evo Morales como um golpe de Estado – posição que também deve mudar com Lacalle Pou.

Desafio interno

No primeiro turno da presidencial uruguaia, em 27 de outubro, o governista Daniel Martínez chegou em primeiro lugar com 39%. O opositor Lacalle Pou ficou com 28,6%, dez pontos atrás do adversário, mas toda a oposição de direita se uniu e virou o jogo.

"Armar essa coligação para as eleições foi um sucesso. Precisamos ver como funciona no exercício do governo", adverte Adriana Rada.

Agora, a vitória apertada do liberal Lacalle Pou, do Partido Nacional, sobre o socialista Daniel Martínez, da Frente Ampla, obriga o primeiro a reforçar internamente a sua coligação eleitoral, formada às pressas entre o primeiro e o segundo turno, e a estabelecer pontes com a outra metade do país que não o elegeu.

"Depois do primeiro turno, formou-se uma coligação eleitoral de cinco partidos (Partido Nacional, Partido Colorado, Cabildo Aberto, Partido da Gente e Partido Independente) que, juntos, somando cada participação, obtiveram 54% dos votos. Por outro lado, a Frente Ampla tinha 39% de votos. Essa diferença de 15 pontos terminou em 1,2%", observa o analista político e diretor da Consultoria Factum, Oscar Bottinelli.

"Lacalle Pou já indicou que vai buscar a alternativa que lhe cabe: buscar a unidade com a outra metade do país, evitando o ambiente de confrontação para construir um ambiente de acordos. A coligação terá que se articular muito para que funcione bem", indica Bottinelli.

A quase paridade final levou a Corte Eleitoral a adiar o anúncio do vencedor. Em outro país da América Latina, essa decisão abriria espaço a manifestações contra o governo por suspeitas de fraude. No Uruguai, prevaleceu a solidez do sistema e a sensatez da política.

"Em qualquer país da América Latina, teríamos tido incêndios com um resultado assim. Há uma grande garantia no Uruguai em matéria de eleições. O resultado final é o que as pessoas votaram e não o que convém a alguém", conclui Bottinelli.

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