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Brasil-América Latina

Inspirados em médicos cubanos, brasileiros realizam sonho de estudar Medicina em Havana

Áudio 09:52
Estudantes brasileiros na Escola Latinoamericana de Medicina (Elam), em Cuba.
Estudantes brasileiros na Escola Latinoamericana de Medicina (Elam), em Cuba. Arquivo Pessoal/Diego Oliveira Nunes

Cuba é célebre por enviar médicos a todos os cantos do mundo para suprir a deficiência de atendimento em regiões atingidas por catástrofes naturais ou economicamente desfavorecidas - áreas onde serviços de saúde são escassos. Esse foi o caso do Brasil que, durante os governos do PT usufruiu dessa parceria, recentemente interrompida por iniciativa do presidente Jair Bolsonaro.

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Além da participação em missões humanitárias internacionais, Cuba também acolhe estudantes estrangeiros, entre eles brasileiros, na Escola Latinoamericana de Medicina (Elam). O objetivo é formar médicos para atuar em áreas de atendimento precário nos países de origem desses futuros profissionais. Em Havana, a RFI encontrou dois jovens que participam deste programa: o pernambucano Ricardo da Silva Estevo, de 27 anos, e o baiano Diego Oliveira Nunes, de 29 anos.

"Desde minha infância fui cativado pelos médicos cubanos que deram sua importante contribuição no Estado de Pernambuco, sempre apoiando regiões de difícil acesso. Além disso, Medicina pra mim sempre foi um sonho, especialmente estudar em Cuba, pela questão humanitária e de ajuda a todos os povos pelo mundo e pelo Brasil", conta Ricardo.

Já Diego, além da meta de estudar Medicina, inspirado pela mãe, que é enfermeira, traz em sua bagagem familiar o engajamento social. "Minha família toda pertence ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no Brasil. No programa da Elam, uma parte das vagas era destinada a organizações sociais. Então, fui selecionado e ganhei uma bolsa", diz.

Ricardo (à esquerda) e Diego, estudantes da Escola Latinoamericana de Medicina (Elam), em Havana.
Ricardo (à esquerda) e Diego, estudantes da Escola Latinoamericana de Medicina (Elam), em Havana. Daniella Franco/RFI

Dificuldades e surpresas

Por trás da realização de estudar Medicina em Cuba e integrar uma importante missão humanitária, os dois jovens enfrentaram um cotidiano de dificuldades e desafios, mas também de muitas surpresas. No início, os maiores empecilhos foram a distância de casa, o idioma estrangeiro e a vida em um país castigado por décadas de bloqueios econômicos. Uma adaptação que resultou no crescimento e amadurecimento dos dois estudantes.

"Eu chorava todos os dias com saudades de casa! Mas, com o tempo, fui me adaptando. No Brasil, temos muito e podemos sempre ter mais. Aqui, com o pouco que temos, fazemos muito. Porque o povo cubano tem essa característica: eles nos ensinam muito a ser otimistas e a valorizar as pequenas coisas", ressalta.

Já o que mais surpreendeu Diego quando aterrissou em Havana foi o inesperado acesso da população a bens de consumo e as limitações da tecnologia, que chega a conta-gotas desde a recente abertura do país, no final dos anos Castro. Para o baiano, o sistema atual em nada se parece com o que estudou nos livros de História.

"Pensava que iria viver em um país comunista. Mas, quando cheguei, vi gente usando smartphones, com carros novos... minha família não acreditava no que eu contava! Mas o que foi muito difícil no começo foi a comunicação. Antigamente, eles vendiam um cartão telefônico por US$ 10 com o qual eu fazia uma ligação de apenas quatro minutos para o Brasil. Mas aí ficamos sabendo que alguns cubanos tinham internet discada em casa e podíamos telefonar via internet. Metade do nosso dinheiro ia nisso!", conta.

Atualmente, o país conta com rede 3G e 4G, em pacotes de 6.5 e 10 GB custando 35 e 45 CUC (cerca de R$ 149 e R$ 191). Também há cartões de acesso à internet que custam 1 CUC (equivalente R$ 4,26) por 150 MB. No entanto, o salário médio no país é 30 CUC (cerca de R$ 128) e o serviço ainda é caro para a maioria da população.

O pernambucano Ricardo da Silva Estevo, estudante da Escola Latinoamericana de Medicina (Elam), em Cuba.
O pernambucano Ricardo da Silva Estevo, estudante da Escola Latinoamericana de Medicina (Elam), em Cuba. Arquivo Pessoal/Ricardo da Silva Estevo

Prática da Medicina em Cuba

As dificuldades vividas no cotidiano também se refletem nos estudos e na prática da Medicina em Cuba, conta Ricardo. O pernambucano destaca as qualidades da Elam, um programa que, segundo ele, prepara os estudantes "para o mundo e para a vida".

"Embora estejamos um pouco limitados por conta da bibliografia, que é um pouco antiga, os professores sempre tratam de atualizá-la. Saímos daqui extremamente capacitados. Você não imagina a experiência que vivemos trabalhando nos hospitais cubanos, porque aqui temos que imaginar, criar, pensar rápido para salvar a vida dos pacientes. Estudar Medicina em Cuba no prepara para situações reais", salienta.

Com a formação chegando ao fim, os dois estudantes começam a planejar a volta ao Brasil. Mas por lá a situação não deve ser menos complexa, com todo o tabu criado em torno dos médicos cubanos do programa Mais Médicos e a propaganda contra Cuba realizada pelo atual governo.

"Em agosto de 2020 devo voltar para o Brasil, mas ainda estamos dependentes da questão da revalidação dos diplomas. Minha previsão é ir para casa, mas preciso da certeza de que terei espaço para trabalhar lá. Afinal, não é fácil passar sete anos estudando fora de seu país, voltar e não poder trabalhar porque existe por parte do governo atual um partidarismo e o preconceito contra os médicos cubanos e os estudantes de Medicina em Cuba", observa.

O pernambucano reconhece que a possibilidade de permanecer em Cuba após a graduação também poderia comprometer o ideal do programa da Elam. "Eu não estaria cumprindo o contrato que assinei que estabelece que, quando terminamos nosso curso, devemos voltar para nossos países e ajudar a nossa população, que é tão carente de saúde. Por isso, meu plano é esse: voltar pra casa para poder ajudar o meu povo e o meu país", reitera Ricardo.

Caso a volta ao Brasil seja dificultada pelas políticas de Bolsonaro, Diego já pensa em outras alternativas. "Me faltam ainda dois anos e meio para finalizar a formação. Espero que daqui até lá a situação esteja melhor no Brasil. O que eu quero é voltar para o meu país, trabalhar na minha cidade, se possível na minha comunidade. Mas, se por acaso o Brasil continuar desse jeito, pretendo me organizar e ir para um outro lugar. Afinal, não quero perder todo esse tempo, essa dedicação e o investimento de meus pais em vão", conclui.

O estudante baiano Diego Oliveira Nunes começou seus estudos de Medicina em Cuba em 2011.
O estudante baiano Diego Oliveira Nunes começou seus estudos de Medicina em Cuba em 2011. Arquivo Pessoal/Diego Oliveira Nunes

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