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Meio Ambiente/Chile

Lítio: o ‘ouro branco’ que ameaça o deserto de Atacama no Chile

Deserto de Atacama.
Deserto de Atacama. Yasna Mussa

Nos últimos anos, o lítio tornou-se a esperança ecológica na Europa, especialmente para a fabricação de baterias usadas em veículos elétricos, telefones celulares ou computadores. O Chile possui 52% das reservas mundiais desse metal, também conhecido como “ouro branco”. No entanto, sua extração vem causando danos irreversíveis ao deserto de Atacama, seu ecossistema, e comunidades vizinhas.

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Yasna Mussa, correspondente da RFI em San Pedro de Atacama

O Chile enfrenta a contradição de presidir a COP 25, que ocorre em Madri (por causa da onda de protestos inédita), e, ao mesmo tempo, aumentar sua dívida ambiental com as chamadas “áreas de sacrifício”. No meio de uma paisagem que lembra Marte, com montanhas ocres e avermelhadas e um céu azul profundo, um casal apaixonado posa em frente ao Salar de Atacama. Neste deserto, um dos mais ácidos do mundo, milhares de flamingos andinos, ou parinas, como são conhecidos neste local no norte do Chile, podem ser vistos. Mas, nesta manhã de sábado mal se distingue dois ou três à distância.

Sergio Cubillos, presidente do Conselho dos Povos Atacameños, lembra as histórias que seu avô contava: “Eles iam uma vez por ano dentro do Salar de Atacama e colhiam mil ovos de flamingos. Dizem que na melhor temporada chegaram a encontrar cerca de 7.000 ou 8.000 ovos e isso equilibrava o bioma no deserto; tudo reaparecia no ano seguinte, havia uma relação entre o que era retirado para consumo e o que estava sendo produzido.”

Grandes projetos de mineração

Para esse porta-voz da comunidade indígena, também conhecida como Licanantay, a mudança foi evidente: “É por isso que os avós sempre diziam que às vezes havia 5.000, 6.000, 7.000 parinas no deserto de Atacama e, desde a chegada da mineradora, isso mudou completamente. Por causa da extração, não era mais possível continuar realizando essa tradição de pegar os ovos e a diminuição da população dos flamingos hoje é extraordinária”.

A região, localizada no planalto chileno, não só atrai a atenção mundial por suas impressionantes paisagens, mas também abriga grandes projetos de mineração focados principalmente na extração de cobre e lítio.

“Você poderia dizer que o deserto de Atacama é como um mar que se estende ao longo da costa de San Pedro de Atacama e onde estão imersas as 18 comunidades de Atacama la Grande. O cotidiano da forma como o lítio é explorado tem sido muito complicado. Lembre-se de que a exploração de lítio no Salar começa no ano de 1985, com a Sociedade Chilena de Lítio Limitada, atualmente Albemarle, e desde então as pessoas fornecem informações de como mitigar os impactos. Em algum momento, visualizou-se que o lítio seria um mineral importante para o país, mas esta constatação não levava em conta toda a realidade que ocorreu com sua exploração."

Bárbara Jerez Henríquez é professora e pesquisadora da Escola de Serviço Social da Universidade de Valparaíso, e seu trabalho é focado em conflitos socioambientais em áreas rurais. Jerez acredita que a exploração do lítio no deserto de Atacama transformou o local em uma “zona de sacrifício”.

“É uma declaração com a qual procuro chamar a atenção sobre como esses locais foram planejados para extrair seus ativos naturais, minerais e principalmente água doce e salgada para operações de mineração em larga escala, sem considerar seus limites ou as possibilidades de seus ecossistemas e comunidades ”, diz ela.

Para a pesquisadora, as sérias consequências sofridas pelos povos Atacameños poderiam ter sido evitadas, porque não se trata de algo recente: “Existe uma hiperexploração planejada de projetos de exploração e mineração que há mais de 30 anos acontece, tanto na mineração de cobre quanto lítio, o que causou uma agonia socioambiental nas bacias, principalmente no Salar de Atacama ”.

Na cidade de Peine, nenhum dos habitantes queria falar a respeito. Embora a cidade pareça quase vazia, os poucos transeuntes são esquivos. Desconfiam, acima de tudo, de jornalistas e também de representantes da mineração. Por esse motivo, organizaram e elegeram Sergio Cubillos como seu representante. Ele resume as impressões de sua comunidade: “No que diz respeito à exploração, existe obviamente um sentimento do nosso povo de que o recurso natural está sendo removido e que hoje é um recurso que pode dar liquidez econômica ao país, mas vemos, ao mesmo tempo, como nossas comunidades vivem em abandono".

Abandono e lucros milionários

Um abandono que é percebido de uma maneira muito concreta: “Dos lucros milionários que são obtidos com esses recursos naturais, não vemos progresso significativo em nossas comunidades. Viemos dizer em toda parte: temos comunidades que ainda não regularizaram sua água potável, que não regularizaram sua eletricidade, que não regularizaram o acesso a suas comunidades e, nesse sentido, obviamente as pessoas veem com tristeza como é feita a exploração e, principalmente, como ela vem desenvolvendo essa superexploração de água onde o sal é extraído aproximadamente a 4.500 litros por segundo de água, então estamos falando de algo que excedeu os limites normais de extração”, avalia.

Matilde López Muñoz é professora de biologia e atualmente trabalha como acadêmica na Universidade do Chile, com doutorado em ciências sociais, ecológicas e econômicas. Ela mantém uma estreita relação com o deserto de Atacama, um lugar que visita constantemente. Assim, ela observa a exploração do deserto no dia a dia.

“Existem três países essencialmente ricos em lítio. (…) A Bolívia precisa transformar seu depósito em carbonato de lítio ou hidróxido de lítio, e algo semelhante acontece na Argentina. Em vez disso, o mineral é simplesmente extraído aqui”, diz ela.

A água, um recurso vital

Sendo a região mais árida do mundo, a água é um bem precioso fundamental no Atacama, especialmente porque a área está ameaçada pela superexploração desse recurso vital.

“É um esforço tremendo para o bioma, a água tem que ser trazida de camadas profundas, do lençol freático. Estão retirando a água de muitas formas e simultaneamente. São bombas que sugam a camada profunda que alimenta o deserto”, explica López.

Menos flamingos do que antes

Para Sergio Cubillos e Matilde López, a ausência de flamingos é um sinal claro da seriedade do que acontece: “As lagoas, no deserto de Atacama, eram os locais de nidificação do maior grupo de flamingos andinos, sua comida que provém fundamentalmente de algas siliciosas. Como são filtros, eles tiram sua comida da consistência da lama para montar os ninhos e, por muitos anos, digamos, em uma época de tipo evolucionário, isso funcionou. ”

Dos quase 12.000 flamingos percebidos nos anos 1980, quando Matilde visitou a área, hoje, com sorte, apenas mil são apreciados. “No início das extrações veio o barulho, veio tudo o que significa tecnologia, com caminhões pesados, com máquinas. E, pouco a pouco, eles começaram a sair de lá, e não é tão fácil pensar: 'eles já voaram e seguiram para o outro lado'. Durante muito tempo eles estavam evoluindo. Em algum momento, eles se tornaram refugiados ecológicos porque, se forem para outro lugar, as condições não serão as mesmas”, diz López.

Do ponto de vista geopolítico, a distribuição é outro aspecto importante, uma vez que o deserto de Uyuni tem o dobro do tamanho do deserto de Atacama, mas foi dada prioridade à extração de lítio do lado chileno dos Andes, porque o carbonato de lítio está concentrado no local e sua exploração é mais barata. No entanto, a quantidade de água necessária para obtê-lo é enorme.

“Aqui foi criado um parque nacional que protege até certo ponto. Precisamos supervisionar para que as empresas de mineração não destruam essas reservas; então, é claro, são políticas públicas, e nem tudo deveria ser transformado em uma ‘área de sacrifício’. Eu morei no deserto por um longo tempo, o rio Loa está praticamente extinto, porque os mineiros removeram toda a água, e os habitantes das pequenas comunidades agrícolas que viviam no local, praticamente não existem mais”, explica López.

Turismo afetado

O turismo é um dos pilares da economia e meio de subsistência para os habitantes desse deserto. Dos quase seis milhões de turistas estrangeiros que o Chile recebe anualmente, cerca de 400.000 visitam San Pedro de Atacama.

“A intervenção da mineração, os impactos que estão ocorrendo na paisagem e também relacionados à flora e à fauna, afetam atividades como o turismo, então também observamos que há mobilização, manifestações de outros setores que expressam preocupação e rejeição diante da expansão das operações das empresas existentes e da entrada de novos projetos”, diz Ramón Morales Balcazar, membro do Observatório Plurinacional de Salares Andinos.

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