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Linha Direta

Histórico ou pró-Israel? Trump anuncia aguardado plano de paz para Oriente Médio

Áudio 07:58
O presidente Doald Trump anuncia o plano de paz para o Oriente Médio ao lado de Benjamin Netanyahu em Washington, nesta terça-feira 28 de janeiro de 2020.
O presidente Doald Trump anuncia o plano de paz para o Oriente Médio ao lado de Benjamin Netanyahu em Washington, nesta terça-feira 28 de janeiro de 2020. REUTERS/Kevin Lamarque

O plano de paz para o Oriente Médio será anunciado, nesta terça-feira (28) por Donald Trump durante uma coletiva com Benjamin Netanyahu, na Casa Branca. A proposta é aguardada com bastante expectativa, pois começou a ser desenvolvido há mais de três anos por uma equipe encabeçada por Jared Kushner, o genro do presidente americano e marido de Ivanka Trump. O plano já é chamado de histórico por Israel, mas rejeitado antecipadamente pelos palestinos que não participaram de sua elaboração.

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Desde o início do processo de discussão do plano de paz, não faltaram críticos quanto à capacidade de Kushner de liderar uma missão tão ambiciosa. Ele não tinha as credenciais esperadas para assumir o cargo de assessor do presidente para assuntos do Oriente Médio, e muitos diziam que sua única qualificação era ser próximo à família Netanyahu.

O plano que será finalmente divulgado hoje é detalhado em cerca de 50 páginas e inclui um mapa com uma proposta de novas demarcações entre Israel e a Cisjordânia. Além disso, oferece aos palestinos um caminho para conquistar a condição de Estado, desde que algumas exigências sejam cumpridas. Já há algumas especulações de que o texto é bastante generoso com Israel, pois pode viabilizar um recurso para o país anexar os assentamentos na Cisjordânia. Além de dar a Israel soberania sobre Jerusalém, o projeto não inclui previsões concretas para o retorno dos refugiados palestinos.

Apesar de Trump ter dito que os detalhes até agora divulgados não passam de boatos, ele admitiu que o plano tem tudo para agradar tanto Netanyahu quanto seu rival político, Benny Gantz, que também se reuniu com o presidente americano na Casa Branca, nessa segunda-feira (27). Netanyahu e Gantz já confirmaram estar satisfeitos com a proposta. Segundo fontes que conhecem o texto, apesar de não ser o que a liderança palestina gostaria, ele também inclui alguns pontos positivos para os palestinos.

Projeto abrangente

O projeto de paz parece ser mais abrangente que qualquer outro já apresentado. Ele inclui propostas para solucionar questões de disputa de terra e administração de locais sagrados em Jerusalém. Seu ponto mais importante é o que oferece autonomia limitada aos palestinos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, que pode aumentar depois de um período de cerca de três anos. Para isso, os líderes palestinos devem pôr um fim à violência e tomar novas medidas políticas, particularmente nas suas negociações com Israel.

Algumas fontes dizem que apesar da soberania estar muito aquém da meta de um estado palestino separado e independente, o plano é realista. Ele leva em consideração a economia palestina que se encontra em apuros, além da expansão dos assentamentos israelenses. A proposta parte do princípio de que a situação, que já não está boa para os palestinos, só tende a piorar. De acordo com a visão da equipe de Kushner, os palestinos, que não podem mais perder tempo nem poder de barganha, só tem a ganhar com o acordo.

O texto também inclui um componente econômico que já foi em boa parte divulgado em uma cúpula realizada em junho passado, em Bahrein. No evento, Kushner falou na ideia de criar um fundo de US$ 50 bilhões para apoiar investimentos em infraestrutura, negócios e turismo, visando fortalecer a economia palestina e de outros países árabes da região. O evento foi boicotado pela Autoridade Palestina que acusou o projeto de ser uma conspiração para permitir a anexação israelense dos territórios palestinos.

Tom pouco promissor

Já há algum tempo, diplomatas palestinos, mesmo sem conhecer o conteúdo exato do projeto, dizem que ele não tem como dar certo. A liderança palestina tem se oposto às ações de Trump na região desde que o presidente americano mudou a embaixada dos EUA de Tel Aviv para Jerusalém, logo que tomou posse, em 2017. Depois disso, o presidente americano cortou o financiamento para a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) responsável pelos refugiados palestinos e declarou que não via mais os assentamentos israelenses na Cisjordânia como uma infração à legislação da comunidade internacional.

Na segunda (27), foi reportado por diversas fontes que o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, se recusou a receber uma ligação de Trump. No domingo (26), o secretário-geral da Organização para a Libertação da Palestina, Saed Erekat, acusou pelo Twitter que o presidente americano estaria tentando fazer uma aliança com Netanyahu e Gantz, para que os três ditassem um regime de apartheid contra o povo palestino.

Além disso, facções palestinas, incluindo a Fatah, estão incentivando a população a participar de protestos em massa durante esta semana. Os palestinos não tiveram nenhuma participação no desenvolvimento do plano. Apesar de sua própria liderança ter se recusado a dialogar com o governo americano na preparação da proposta, isso torna ainda mais difícil que o plano seja bem recebido pelos palestinos.

Posição dos países árabes

A Casa Branca espera que alguns países árabes chaves logo anunciem seu apoio à proposta de paz. É provável que isso de fato aconteça, pois o cenário da relações na região mudou consideravelmente nos últimos anos, especialmente com a aproximação de Israel à Arábia Saudita. Já há algum tempo tem se observado que a causa palestina – que já chegou a ter grande importância para os países árabes – perdeu força entre os líderes da região. Mas isso não quer necessariamente dizer que os cidadãos desses países apoiarão um plano tão favorável a Israel e que não contou com a participação palestina no seu desenvolvimento. Isso pode fazer com que os governantes árabes tenham de reagir e mostrar lealdade aos palestinos como uma prova de força às suas populações.

Apesar da Arábia Saudita, Egito, Jordânia e outros países árabes terem enviado delegações à conferência em Bahrein, seus líderes deixaram claro que eram a favor de uma solução de dois estados. Mas Kushner disse que sua proposta não incluiria o termo "solução de dois estados", pois, segundo ele, isso tem significado diferentes para israelenses e palestinos.

Anúncio pode favorecer Trump e Netanyahu

Segundo a Casa Branca, o plano só não foi anunciado antes porque o governo americano estava esperando que a crise na política em Israel fosse resolvida. Depois de ter uma vitória apertada nas urnas em abril passado, Netanyahu não conseguiu obter apoio parlamentar suficiente para formar um governo de coalizão. A segunda eleição, realizada setembro, também não possibilitou que Netanyahu nem Gantz formassem uma coalizão.

A próxima e inusitada eleição será realizada em 02 de março, ainda sem nenhuma garantia de que o primeiro-ministro ou seu oponente, consigam finalmente um mandato para governar. Mas é possível que o anúncio do plano de paz para Oriente Médio fortaleça Netanyahu, pois é prova de que ele consegue bons resultados com o presidente americano, que não disfarça sua simpatia pelo primeiro-ministro israelense.

Os dois chefes de estado estão vivendo momentos parecidos. Nesta terça (28), o parlamento israelense deve votar sobre a concessão de imunidade ao primeiro-ministro, que está sendo acusado de corrupção. Enquanto isso, o Senado americano está lidando com as audiências do julgamento do impeachment de Trump.

O presidente americano já declarou diversas vezes que gostaria de solucionar o conflito entre israelenses e palestinos, pois ele se considera um mestre da negociação e essa seria a “negociação do século”. O presidente americano está certo quanto a isso. Um acordo de repercussão internacional desse peso pode até conseguir tirar o impeachment dos noticiários e servir de propaganda para sua reeleição quando os americanos forem às urnas em novembro deste ano.

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