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Linha Direta

Discurso de Estado da União de Trump em tom de campanha ignora votação de impeachment

Áudio 06:03
Trump fez nessa terça-feira (4), no Congresso, o tradicional discurso de Estado da União.
Trump fez nessa terça-feira (4), no Congresso, o tradicional discurso de Estado da União. REUTERS/Joshua Roberts

O presidente americano fez nessa terça-feira (4) no Congresso o tradicional discurso de Estado da União. O clima de animosidade entre o presidente americano e seus rivais democratas que iniciaram o processo de impeachment superou as expectativas, na véspera de votação final no Senado sobre a destituição de Trump. A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, apresentou o Trump de modo brusco, dispensando as formalidades costumeiras. Trump imediatamente revidou, ignorando a mão que Pelosi lhe estendeu depois de ter recebido uma cópia do discurso das mãos do presidente americano. Em sua fala, Trump ignorou o processo de impeachment e fez um discurso de campanha visando sua reeleição em novembro.

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Correspondente da RFI em Washington

Durante o pronunciamento, as reações dos membros do Congresso foram, de modo geral, claramente partidárias, com apenas algumas exceções quando os democratas se uniram aos republicanos no aplauso. Isso aconteceu quando Trump homenageou o autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, o reconhecendo como presidente venezuelano e declarando o apoio americano na luta contra Nicolás Maduro. E, mais uma vez, quando o presidente americano falou sobre novo acordo comercial entre os Estados Unidos, México e Canadá (USMCA), que contou com o apoio de líderes de sindicatos.

Um dos raros momentos de cortesia mútua aconteceu quando Trump deu crédito à cooperação democrata com a reforma do sistema penitenciário dos EUA, fazendo com que a líder da Câmara até mesmo se levantasse para aplaudir. De modo geral, Trump não foi conciliador e, inclusive, aproveitou a oportunidade para atacar as políticas da oposição e especificamente do governo de Barack Obama. Ao final do pronunciamento, que durou pouco mais de 1 hora, a líder da Câmara fez questão de imediatamente rasgar sua cópia do discurso em frente às câmaras. Trump concluiu o pronunciamento sem se despedir de Pelosi, mas logo foi cercado de admiradores republicanos que o parabenizavam e pediam seu autógrafo.

Estado da União “sólido”

Trump declarou que o Estado da União está mais sólido do que nunca, descrevendo suas conquistas e promessas cumpridas. Ele deu especial destaque à economia americana, falando no desempenho recorde do mercado de ações e na atual taxa de desemprego, que é a mais baixa em 50 anos. Além disso, o presidente americano declarou que as minorias e os trabalhadores sem curso superior se beneficiaram com as políticas do seu governo que permitiram que eles entrassem no mercado de trabalho e conquistassem uma renda mais alta.

O fato de os EUA hoje serem autossuficientes em termos de energia também foi destacado por Trump. Criticando o Obamacare – reforma do sistema de assistência à saúde que é uma das assinaturas do legado de Obama - Trump afirmou que agora os americanos contam com um sistema de assistência à saúde melhor e mais barato. Além disso, o presidente americano garantiu que o setor de saúde dos EUA jamais seria controlado por políticas socialistas.

Repúdio ao socialismo

O repúdio ao socialismo foi um tema constante do pronunciamento de Trump sobre o Estado da União. É provável que isso tenha tido a finalidade de fazer uma crítica velada a Bernie Sanders, senador e pré-candidato democrata que tem avançado cada vez mais nas pesquisas e é simpático ao socialismo. Trump também dedicou alguns minutos a um dos seus alvos prediletos, criticando os democratas por prometerem assistência à saúde para imigrantes ilegais, além de protegê-los contra deportação. Ele também lembrou que um muro “longo, alto e poderoso” está sendo construído na fronteira com o México.

Tradicionalmente, o discurso de Estado da União é usado para pedir o apoio do Congresso e promover políticas bipartidárias. Mas nesse seu quarto pronunciamento diante do Congresso, Trump falou mais em tom de campanha. A ocasião teve alguns momentos tocantes, com Trump anunciando a chegada de um sargento que estava há meses no Afeganistão, surpreendendo a família do militar que estava presente. Além disso, Trump homenageou com uma Medalha Presidencial da Liberdade - a maior honra concedida a um civil - Rush Limbaugh, radialista que é considerado um dos grandes líderes do movimento conservador americano. No início desta semana, Limbaugh anunciou que está com câncer de pulmão em estágio avançado.

O estresse parece servir de tônico revigorante para Trump. Em meio ao julgamento do impeachment, o republicano parece confiante, e as pesquisas lhe dão motivo para isso. Segundo uma pesquisa da Gallup, ele atualmente goza do mais alto índice de aprovação de sua presidência. O atual índice de 49% indica um aumento de 10 pontos em relação ao índice de aprovação que o presidente americano tinha em outubro passado, antes do impeachment (39%). Além disso, cerca de 63% dos americanos dizem estar satisfeitos com a economia.

Dificuldades democratas

Já os democratas não estão vivendo seu melhor momento. O partido parece perdido no que diz respeito a definir um candidato que possa derrotar Trump nas eleições de novembro. Joe Biden, que foi vice de Obama e era para ser o candidato mais capaz de enfrentar Trump, ficou em quarto lugar nas eleições primárias de Iowa, realizadas nesta segunda (3). O problema técnico com a contagem de votos em Iowa, que causou um atraso na apuração dos resultados, pareceu refletir a atual falta de rumo firme dos Partido Democrata.

Mas a personalidade polêmica do presidente americano ainda tem efeito negativo sobre grande parte da população. Apesar da excelente economia e da falta de um líder forte na oposição, 56% dos eleitores democratas dizem que apoiarão qualquer candidato que possa derrotar Trump, até mesmo se não concordarem com a plataforma de tal candidato. Para esse grupo, se livrar de Trump é a maior prioridade – a qualquer custo.

Mas, no momento, o mais provável é que Trump terá mais quatro anos na Casa Branca. O impeachment, com que os democratas tanto sonhavam desde que o republicano tomou posse em janeiro de 2017, acabou sendo um caso de feitiço que vira contra o feiticeiro. Segundo a Gallup, há pouco mais de um ano, 41% dos americanos achavam que Trump merecia ser reeleito. Agora, 50% dos americanos acreditam que ele merece um segundo mandato.

Votação final impeachment

A remoção de Trump da Casa Branca não deve acontecer com o julgamento realizado nesta quarta-feira (5). Os republicanos controlam o Senado com 53 membros, enquanto que os democratas contam com 47. É preciso ter 67 votos pelo afastamento do presidente para que isso aconteça.

No máximo, um ou dois senadores republicanos devem votar pela remoção do presidente americano. E ainda é possível que, como no caso da votação pelo impeachment na Câmara, em dezembro passado, alguns democratas novamente votem em sintonia com os republicanos.

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