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Médica brasileira da MSF relata drama da maior tribo indígena americana na luta contra o coronavírus

Uma mulher da tribo Navajo recebe água em sua comunidade de Thoreau (Novo México), em 6 de junho de  2019.
Uma mulher da tribo Navajo recebe água em sua comunidade de Thoreau (Novo México), em 6 de junho de 2019. SPENCER PLATT / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

Desde meados de março, mais de 3.600 casos de Covid-19 e mais de 100 mortes foram registrados no maior território indígena do país. É a segunda maior taxa de infecção nos Estados Unidos, logo após Nova York, e a tendência é de aumento, de acordo com a ONG Médicos Sem Fronteiras.

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Por que a comunidade indígena é particularmente vulnerável à Covid-19? Para treinar médicos locais sobre ações e medidas de proteção, e fornecer apoio logístico à reserva Navajo, a ONG Médicos Sem Fronteiras acaba de implantar uma equipe no local.

"Essa é uma população cujo habitat é verdadeiramente multigeracional », explica Carolina Batista, a médica responsável por essa equipe de MSF, em entrevista à jornalista Marie Normand, do serviço internacional da RFI. 

"Ou seja, existem duas, três, às vezes quatro gerações que vivem sob o mesmo teto, em um pequeno alojamento. Então, se alguém volta da cidade, está infectado, é assintomático, ele transmite a doença a uma pessoa idosa", explica Carolina.

Fundada em 1868, a Nação Navajo tem 175.000 habitantes espalhados por um território grande quanto a Escócia, abrangendo três estados do sudoeste americano. 

O primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no dia 17 de março. Desde então, o número explodiu para mais de 3.600 casos: uma taxa de infecção atrás da de Nova York, o epicentro da epidemia nos Estados Unidos. O número de mortos, acima de 100 é proporcionalmente mais moderado. Mas os habitantes locais esperam que aumente quando a doença atingir os pacientes em estado mais crítico.

Condições precárias ligadas à pobreza

O alto número de casos entre os navajos também é explicado por condições consideradas crônicas. Segundo Carolina Batista, eles “também têm comorbidades muito graves. Taxas significativas de diabetes, doenças cardíacas, hipertensão e obesidade."

Soma-se a isso a própria precariedade dessa população que vive em condições de higiene muitas vezes extremas. "Entre 30 e 40% das casas da Nação Navajo não têm água corrente", lamenta a responsável pela MSF. "Então, como dizer para eles lavarem as mãos frequentemente com sabão? Os desafios são imensos. E ainda, o acesso ao sistema de básico de saúde já é difícil porque são pessoas que moram longe dos centros de saúde. Já é uma população excluída e vulnerável", acrescenta Carolina.

Falta de infraestrutura

A crise revelou, no entanto, com muita evidência, as disparidades econômicas e sociais que historicamente afetam os povos nativos americanos. 

Como outras tribos, os Navajos abandonaram territórios gigantescos em troca de uma promessa de que o governo federal forneceria educação e assistência gratuitas, para sempre. Mas a promessa nunca foi totalmente cumprida. Dos 71.000 quilômetros quadrados da reserva, existem apenas 12 unidades de saúde.

O atraso na infraestrutura não diz respeito apenas às clínicas. A construção de redes de abastecimento de água ignorou em grande parte os territórios indígenas há um século, de acordo com um relatório da ONG DigDeep. A falta de internet banda larga contribui para a falta de informação e impede que os alunos façam cursos a distância.

Maior mortalidade durante epidemias

A história se repete para os povos primitivos dos Estados Unidos. A mortalidade pela pandemia do H1N1, em 2009, foi quatro vezes maior entre os nativos americanos do que qualquer outra minoria no país. E tribos inteiras provavelmente foram exterminadas pela gripe espanhola de 1918.

Em Washington, o Congresso aprovou um orçamento de US$ 8 bilhões especificamente para as tribos afetadas pela pandemia. Mas o desafio agora será poder usar esses recursos diante da escassez global de equipamentos e pessoal.

(Com informações da AFP)

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