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Eleições/Argentina

Saiba o que as eleições presidenciais argentinas de 2015 e brasileiras de 2014 têm em comum

O candidato argentino à presidência, Daniel Scioli, ao lado da presidente Dilma Rousseff no último dia 13 de outubro.
O candidato argentino à presidência, Daniel Scioli, ao lado da presidente Dilma Rousseff no último dia 13 de outubro. REUTERS/Adriano Machado

Nos anos 80, o chamado "efeito Orloff", baseado na publicidade da vodka com slogan "eu sou você amanhã", marcou a relação Brasil-Argentina. Foi assim que o Plano Cruzado de José Sarney se baseou no Plano Austral de Raúl Alfonsín. Que o Plano Verão se baseou no Plano Primavera argentino. E até que o confisco das poupanças de Fernando Collor de Melo teve inspiração no confisco denominado Plano Bonex de Carlos Menem em 1989.

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

Assim como a presidente brasileira Dilma Rousseff enfrenta uma crise herdada de si mesma, o próximo presidente argentino enfrentará uma crise, mas herdada de Cristina Kirchner. Ao desgastar politicamente e condicionar economicamente o próximo presidente, Cristina Kirchner planeja voltar dentro de quatro anos.

O final de 12 anos do chamado "kirchnerismo" deixa um país exausto: déficit fiscal de 8% do PIB, inflação anual em torno de 30%, estagnação ou recessão econômica há quatro anos, um Banco Central praticamente quebrado, total escassez de dólares e barreiras cambiais e comerciais por todos os lados.

O candidato Sergio Massa gosta de repetir em privado: "eu sou Aécio, eu sou Aécio", em referência ao candidato brasileiro Aécio Neves, que chegou a estar em terceiro lugar nas sondagens da corrida eleitoral do ano passado no Brasil, mas que terminou disputando o segundo turno com Dilma Rousseff, assim como Massa espera disputar com Daniel Scioli, candidato de Cristina nas eleições do próximo domingo.

Sergio Massa é Marina Silva

"No segundo turno, o único que pode ganhar do oficialismo sou eu. É uma afirmação de todas as sondagens. Tento contar aos eleitores que, se querem terminar com o ciclo kirchnerista, precisam votar em nós no primeiro turno e não só no segundo", repete.

Mas, na verdade, Sergio Massa é Marina Silva. Assim como Marina foi referente no Partido dos Trabalhadores de Lula até romper por discordar do rumo, Massa rompeu com Cristina Kirchner em 2013, de quem foi nada menos do que chefe do gabinete de ministros.

Ao vencer com sua força política as eleições legislativas de 2013, Massa freou a tentativa de Cristina de obter uma maioria de 2/3 no Parlamento para modificar a Constituição e habilitar um terceiro mandato a Cristina Kirchner.

Mauricio Macri é Aécio Neves

Macri anuncia que serão necessárias medidas para corrigir a economia, assim como Aécio avisava sobre a necessidade de ajustes durante as eleições no Brasil. Durante esta campanha, Macri levantou bandeiras sociais para tentar ampliar a sua base eleitoral. O perfil executivo de Macri ficou parecido com o de Aécio Neves.

Daniel Scioli é Dilma Rousseff

Não só por ser a continuidade de Cristina Kirchner e não só porque tem recebido o apoio explícito da própria Dilma e também de Lula durante a campanha, mas porque Scioli nega a necessidade de um ajuste assim como a petista negava o que a realidade lhe impôs. Se ganhar as eleições, Scioli terá de aplicar um ajuste assim como Dilma aplica. "Não há nenhum problema nem com as reservas (do Banco Central) nem com nenhuma das variáveis econômicas. Serão abordadas gradualmente sem medida de choque ou de ajuste", garante.

Assim como o PT no Brasil amedrontava os beneficiários do Bolsa Família, o "kirchnerismo" tenta assustar a classe baixa, alegando que "se Macri ganhar, acabam-se os planos assistencialistas". Um argumento que condiciona o voto, já que 28,7% das famílias argentinas recebem algum tipo de bolsa.

"Eu sou você amanhã"

O real brasileiro desvalorizou-se drasticamente desde que Dilma Rousseff começou o seu segundo mandato. A desvalorização que se aproxima do peso argentino pode ter a mesma proporção a partir de 10 de dezembro, quando Cristina Kirchner deixar o poder. Antes disso, ela não aceitará pagar o custo político de uma desvalorização.

A Argentina não tem grau de investimento a perder. Já está em default. Para ter acesso a dólares, terá de enfrentar a realidade dos mercados para poder voltar ao crédito e receber investimentos diretos. São necessários dólares das exportações, dos investimentos e do endividamento. Para isso, será necessário eliminar restrições comerciais, barreiras cambiais e negociar um acordo com os fundos especulativos.

Os escândalos de corrupção são uma marca registrada dos governos Kirchner. Mas, à diferença do Brasil, a Justiça do vizinho é totalmente política. Terá coragem a Justiça argentina de perseguir as contas à medida que Cristina perder poder? Ou Scioli induzirá a Justiça a perseguir as contas de Cristina se essa o tentar disciplinar?

Menos de um ano depois das eleições em que Dilma Roussef ganhou, o Brasil parece dizer à Argentina: "eu sou você amanhã".

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