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Eleição presidencial

Opositor surpreende e Argentina terá segundo turno pela primeira vez

Mauricio Macri (esq), que lidera oposição à frente do partido Cambiemos, e Daniel Scioli (dir), do partido governista, na reta final da eleição presidencial na Argentina, em 25 de outubro de 2015.
Mauricio Macri (esq), que lidera oposição à frente do partido Cambiemos, e Daniel Scioli (dir), do partido governista, na reta final da eleição presidencial na Argentina, em 25 de outubro de 2015. Reuters/Agustin Marcarian/Martin Acosta

O conservador Mauricio Macri surpreendeu na eleição presidencial de domingo (25) na Argentina ao obter um empate com o favorito Daniel Scioli, candidato apoiado pela presidente Cristina Kirchner. Os dois disputarão o segundo turno no dia 22 de novembro, algo inédito na política do país.

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Marcio Resende, correspondente em Buenos Aires

Ao longo da madrugada, a apuração dos votos revelou uma paridade que nenhuma sondagem previu e da qual nem mesmo os candidatos suspeitaram. Nenhum candidato conseguiu 45% dos votos ou 40% com uma vantagem de 10 pontos sobre o segundo colocado, possibilidades que garantiriam a vitória no primeiro turno.

Com 96% dos votos apurados, Scioli tem uma leve vantagem (36,7%) sobre Macri (34,4%). Os números representam uma grande surpresa para os analistas. Se antes a tendência era de vitória para o candidato da situação, agora a tendência está do outro lado. Macri ficou dois pontos atrás, mas o efeito político é o de uma vitória. "O que aconteceu hoje mudou a política do país", disse eufórico Macri, de 56 anos, o empresário de direita que é prefeito de Buenos Aires há oito anos.

Outra grande surpresa foi o triunfo histórico da candidata de Macri ao governo da província de Buenos Aires. Maria Eugenia Vidal será a governadora da província mais importante do país, dirigida nos últimos oito anos por Scioli. Vidal derrotou o candidato de Kirchner, Aníbal Fernández. Desde 1987, o peronismo não perdia na província de Buenos Aires. Entre continuidade e mudança, os argentinos estão dizendo "mudança", pelo menos até agora.

Reação agressiva

O resultado do primeiro turno abre uma crise política. Os primeiros números oficiais só foram divulgados seis horas depois de encerrada a votação, quando já passava da meia-noite, uma da manhã em Brasília. Esse atraso revelou a desorientação do governo em como administrar a derrota.

Scioli, de 58 anos, reagiu com um discurso agressivo, que não é a sua característica. Demonstrou ter sentido o golpe e partiu para o ataque direto, criando medo nos argentinos. Ele disse que, se dependesse de Macri, na Argentina não existiria uma série de coisas como estatizações e planos sociais. O candidato afirmou que representa os humildes e os trabalhadores e que, com Macri, candidato da elite, virá o ajuste e a desvalorização da moeda.

No comitê de campanha de Scioli, havia desolação. Estava prevista uma festa num pequeno estádio para milhares de pessoas, mas o local ficou um deserto. A festa aconteceu mesmo no comitê de Macri. Militantes fizeram discursos eufóricos, demonstrando muito entusiasmo durante a madrugada.

A partir de agora, a batalha mais importante será por conseguir os votos do terceiro candidato mais votado, Sergio Massa. Ex-chefe de gabinete da atual presidente e deputado peronista que passou à oposição, Massa obteve 21% dos votos, o mesmo nível que as sondagens previam.

Os votos que Macri conseguiu além do previsto pelas sondagens saíram do próprio Scioli e não do terceiro colocado. Segundo analistas, é mais provável que os votos de Massa migrem para Macri do que para Scioli. A tendência é de uma disputa acirrada até o final, mas com vantagem para Macri.

Fim da era Kirchner

Outra prova do impacto político inesperado dessa votação foi o sumiço da presidente argentina. Essa retirada estratégica do cenário é outra indicação de um final de ciclo para o kirchnerismo.

No Parlamento, o desempenho não foi tão ruim. Os legisladores de Cristina Kirchner, se permanecerem unidos, serão a primeira minoria na Câmara de Deputados. Serão 117 deputados, dos 257 totais. Mas se a oposição se unir, terá maioria. No Senado, o kirchnerismo será maioria: 42 senadores contra 30 da oposição.

A eleição encerra 12 anos de governos do casal Kirchner. Mas a família segue na política. A cunhada da presidente, Alicia Kirchner, foi eleita governadora da província de Santa Cruz. O filho de Cristina, Máximo Kirchner, foi eleito deputado. O kirchnerismo quer fazer dele, no futuro, o herdeiro do legado dos pais. Ter sido eleito legislador também lhe permite ter imunidade parlamentar diante das investigações judiciais sobre lavagem de dinheiro que complicam a família Kirchner.

Com uma inflação extraoficial de 20% a 30%, o país parou de crescer a taxas de 8% como no melhor período dos governos do casal Kirchner. O consumo permanece alto, mas o nível real da pobreza no país é motivo de polêmica com a oposição.

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