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Argentina/Presidenciais

Eleições inauguram um novo ciclo político na Argentina

Pela primeira vez na história argentinos vão às urnas para escolher um presidente em um segundo turno.
Pela primeira vez na história argentinos vão às urnas para escolher um presidente em um segundo turno. REUTERS/Marcos Brindicci

Todos os analistas políticos e as pesquisas de intenção de voto coincidem: Mauricio Macri deve ser eleito neste domingo (22) presidente da Argentina, colocando um ponto final em 12 anos de sucessivos governos Kirchner. Mais de 30 milhões de eleitores foram convocados para participar do pleito, que pela primeira vez na história do país será decidido no segundo turno. O próximo governo deve assumir o poder em 10 de dezembro.

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Correspondente da RFI em Buenos Aires

A coligação de Macri, Cambiemos (Mudemos), propõe uma mudança sobre a continuidade que representa o candidato da presidente Cristina Kirchner, Daniel Scioli. Dependendo da sondagem, a vantagem de Macri varia entre 6 e 10 pontos. Essa diferença está ligada ao comportamento dos ainda indecisos, que representam entre 6 e 11% dos votos.

O consultor e analista político Raúl Aragón, por exemplo, aposta numa vitória da mudança: "Macri só não ganha se alguma coisa muito forte e muito estranha acontecer. A eleição está definida. O que não está definido é por quanto".

Em San Isidro, município de classe média e alta da região metropolitana de Buenos Aires, a eleitora Sandra Proietti, de 44 anos, não tem dúvidas: vota em Macri. Gerente de compras numa rede de supermercados, ela convive de perto com as fortes restrições comerciais e cambiais impostas pelo governo há quatro anos, quando Cristina Kirchner iniciou o seu segundo mandato. "Eu tenho a esperança de que alguma coisa vai mudar", confia, enquanto descreve que espera melhor educação, saúde, aposentadoria digna e mais segurança.

Sandra explica por que, na sua visão, Scioli não pode sustentar essas bandeiras. "Fazendo uma comparação entre os dois governos, Macri no Distrito Federal e Scioli na província de Buenos Aires, eu consigo ver mudanças no governo Macri, mas não vejo nada no governo Scioli", explica.

Demônio e diabos

O resultado do primeiro turno, em 25 de outubro, foi apertado a favor de Scioli, com apenas 3 pontos de vantagem sobre Macri. Os números, no entanto, também revelaram que enquanto a campanha de Macri ganhava voo, a de Scioli estava próxima do seu teto.

Scioli começou então com a chamada "campanha do medo". Incapaz de seduzir mais eleitores, ele procurou evitar que Macri os seduzisse, anunciando que o adversário de centro-direita ocultava "uma maxi desvalorização da moeda que representaria um selvagem ajuste nos salários".

No seu comício de final de campanha na quinta-feira (19), Scioli comparou Macri com o demônio e acusou o opositor de ter pactos com os diabos do capitalismo, uma alusão aos fundos especulativos e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Scioli deixou de falar sobre si mesmo para se dedicar unicamente ao adversário. "De um lado, uma opção liberal: a expressão desse demônio do capitalismo selvagem expressada pelo candidato Macri, esse pacto com os diabos; do outro lado, o que eu represento: a defesa do teu trabalho, do teu salário e da tua família", separou.

Primeiro turno mostrou vontade de mundança no país

Para a maioria dos analistas, a tática do medo foi um erro num país exausto de confronto. À medida em que Scioli intensificava a agressão a Macri, perdia um dos seus maiores capitais políticos: a moderação. Ficava assim cada dia mais parecido com o estilo da presidente Cristina Kirchner, de quem precisava se diferenciar para captar mais votos. O primeiro turno demonstrou que 60% dos eleitores votaram numa mudança.

Mauricio Macri aproveitou para se dirigir a essa maioria e pregou a união de uma sociedade polarizada ao longo de 12 anos de enfrentamentos. "Chegou a hora de construir pontes. Acabou a época de bandeiras que nos separam de um lado para o outro", indicou. "Mudemos", repetiu como últimas palavras no seu último comício. "Estamos prontos para uma fase maravilhosa da nossa história. A hora chegou. Mudemos, mudemos, mudemos Argentina".

No município de Martín Coronado, na periferia de Buenos Aires, a advogada Marianela Álvarez, de 26 anos, é eleitora de Cristina Kirchner. Ela defende o modelo econômico que Daniel Scioli promete manter e que, para ela, permitiu que "muitos passassem de não ter nada a um salário digno".

"O projeto baseia-se na intervenção do estado na economia e na regulação dos mercados e poder captar mais recursos para a inclusão social", explica, temendo que um governo do opositor seja o contrário: o Estado submetido ao mercado. "O meu temor é que Macri produza uma desvalorização da moeda com queda dos salários", inquieta-se.

Campanha do medo foi um erro

Marianela reconhece, no entanto, que a "campanha do medo" foi um erro porque transmitiu pânico e voltou-se contra Scioli. "Nós entramos em pânico e transmitimos esse medo. A campanha do medo foi um erro", desabafa.

Por isso, o fisioterapeuta Carlos Michel, de 49 anos, decidiu mudar de voto. Morador de Belgrano, bairro de classe média de Buenos Aires, ele votou pela continuidade no primeiro turno porque "está de acordo com as medidas políticas tomadas pelo governo como a maior inclusão social e a política de Direitos Humanos que julgou militares". Mas agora acha que a alternância no poder fará bem ao país. "Agora voto no Macri. Acho que o poder concentrado num mesmo grupo depois de 12 anos não é bom", justifica. "Sou consciente de que a política de Macri será de direita e de ajuste, mas é melhor uma mudança como a maioria já expressou", conclui.

Para o analista político Raúl Aragón, a vitória de Macri pode marcar o fim do chamado da era Kirchner. "O kirchnerismo nasce no poder e depende do dinheiro do poder. Agora eles perdem o poder e o dinheiro. O kirchnerismo vai desaparecer devagar, mas vai desaparecer", acredita. "Mas ainda vai incomodar por algum tempo", adverte.

A Argentina não cresce há quatro anos. O déficit fiscal é de 8%, a inflação anual, de 30% e o Banco Central está quebrado. O próximo governo que assumir em 10 de dezembro, seja quem for, está obrigado a um ajuste nas contas públicas.

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