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O Mundo Agora

Trump não é o palhaço sem futuro que todos pensavam

Áudio 04:49
O candidato republicano Donald Trump durante comício de campanha eleitoral em Fountain Hills, Arizona, no dia 19 de março de 2016.
O candidato republicano Donald Trump durante comício de campanha eleitoral em Fountain Hills, Arizona, no dia 19 de março de 2016. REUTERS/Mario Anzuoni

Nos Estados Unidos – e no resto do mundo – a ficha caiu. O magnata Donald Trump virou favorito para ganhar a “nomination” do Partido Republicano, ele também tem alguma chance de ser eleito nas eleições presidenciais de novembro.

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A perspectiva de um presidente Trump está provocando uma onda de desespero, misturado com incredulidade, no país e no mundo. Será que a maior potência mundial, e o botão nuclear, vão cair nas mãos de um sujeito que até dirigentes republicanos tradicionais já estão chamando de Mussolini?

Donald Trump não para de vociferar coisas que já deveriam ter acabado completamente com a sua campanha. Prender e deportar os 11 milhões de imigrantes ilegais. Proibir a entrada de qualquer muçulmano nos Estados Unidos mesmo com a nacionalidade americana. Construir um muro na fronteira pago pelo governo mexicano. Lançar uma guerra comercial com a China e obrigar as empresas americanas e repatriar suas fábricas. Achar que Vladimir Putin é um grande sujeito. Insultar publicamente o senador John McCain, ex-candidato presidencial do Partido Republicano e autêntico herói de guerra porque foi “capturado”, e para Trump soldado capturado não merece respeito. Pedir aos seus seguidores de saudá-lo com o braço estendido no estilo fascista ou nazista. Ameaçar recorrer à violência se lhe negarem a “nomination”. E por aí vai... Só que ele sobe nas sondagens cada vez que trombeteia esses impropérios. E fãs explicam que ele fala alto o que eles pensam baixinho.

Eleitorado de Trump foi arrasado pela revolução tecnológica

Na verdade, existe uma parte do eleitorado americano – ainda minoritária mas crescente – que sente um ódio visceral do governo federal e de toda a classe política. Uma população de operários e empregados industriais brancos que moram em pequenas ou médias cidades arrasadas pela crise econômica e a revolução tecnológica globalizada. Gente que sente na pele a queda brutal do seu nível de vida, e a transformação dos Estados Unidos numa sociedade cada vez mais latina, negra ou asiática, dominada pelas grandes metrópoles cosmopolitas, onde os brancos vão perder a maioria. Um pessoal sem futuro, apavorado, pronto para se atirar nos braços de um perigoso demagogo.

Nada disso é muita novidade para os europeus. Durante todo o século 20 – e até hoje – cada vez que a Europa enfrentava uma crise, o povão saia atrás de líderes autoritários, violentos, com ideias simples e ambições mortíferas. Todo mundo sabe no Velho Continente que o Mal existe e que tensões sociais fortes fazem surgir os piores instintos humanos. Só que os americanos sempre confiaram no seu admirável sistema democrático e sempre acreditaram que a imensa maioria da população americana estava enquadrada e vacinada contra formas extremas de ódio coletivo. Donald Trump está provando que nem os Estados Unidos são imunes. Agora os políticos tradicionais, os analistas e a mídia em geral tentam desesperadamente entender o que está acontecendo. Trump representa o fim da inocência americana quanto à resiliência democrática do país.

Democracia americana deve resistir a populismo

Mas apesar do perigo iminente, não dá para enterrar desde já a democracia americana. Por enquanto, o bilionário demagogo conseguiu convencer só uma parte dos eleitores republicanos que participam nas eleições primárias. Não é possível asseverar nem que ele vai ser o candidato do partido, nem que consiga ganhar a eleição geral contra alguém como Hillary Clinton. Sobretudo que os líderes republicanos e os militantes conservadores tradicionais decidiram se organizar – um pouco tarde é verdade – para impedir que Trump seja escolhido na convenção do partido.

Muitos caciques republicanos já declararam que não votariam no magnata em hipótese alguma. E que estariam dispostos até a lançar outro candidato conservador na eleição geral, mesmo se isso significa entregar a Casa Branca para o Partido Democrata. A boa notícia é que a democracia americana ainda não parece prestes a aceitar um Mussolini qualquer. A má notícia é que Donald Trump não é aquele palhaço sem futuro que todo mundo pensou que ele era.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica semanal às segundas-feiras para a RFI

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