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Brasil-América Latina

Argentina busca atrair investimentos do Brasil apesar da crise política no país

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Presidente Mauricio Macri durante o Foro de Investimentos e Negócios, evento que reuniu 1700 companhias de 68 países
Presidente Mauricio Macri durante o Foro de Investimentos e Negócios, evento que reuniu 1700 companhias de 68 países Presidência Argentina

A Argentina precisa urgentemente de investimentos estrangeiros para voltar a crescer depois de cinco anos. O sucesso da economia argentina é determinante para o futuro do novo ciclo político de centro-direita que já chegou a vários países da América do Sul, mas também é condição para a governabilidade do presidente Mauricio Macri. E quando a Argentina pensa em investimentos estrangeiros, pensa nos brasileiros. Mas onde está o Brasil no novo ciclo argentino?

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Correspondente da RFI em Buenos Aires

Dos cerca de US$ 35 bilhões em investimentos externos diretos anunciados nos primeiros oito meses de governo Macri, o Brasil participa apenas com 6%. Segundo o presidente do Banco BTG Pactual e ex-presidente do Banco Central, Pérsio Arida, depois de dois anos de forte recessão no Brasil (queda acumulada de 7% do PIB), a prioridade dos empresários brasileiros é administrar seus próprios problemas.

"Hoje, está todo mundo voltado para si mesmo, para se estabilizar. O Brasil vai voltar a olhar ativamente para a Argentina, do ponto de vista de investimentos, no ano que vem. Tão logo as finanças domésticas estejam em ordem, as companhias vão voltar a olhar a Argentina", acredita.

Em relação aos montantes de investimentos brasileiros, posteriores à crise argentina de 2001/2002, o economista vê, neste período, uma menor projeção do Brasil em comparação com outros países. "A importância do investimento brasileiro na Argentina naquele momento foi maior do que está sendo neste momento atual. Comparado com os brasileiros, vai ter mais investimentos estrangeiros agora do que naquele momento", prevê.

Ascensão e queda do gigante

O maior investimento brasileiro na Argentina foi o da Petrobrás, a partir de 2002. A companhia é também o melhor retrato da ascensão e queda do império econômico brasileiro na Argentina. Depois do auge, foi vendida no ano passado, embora não desse prejuízo. Por 10 anos, entre 2003 e 2013, a força da economia brasileira permitiu que diversas empresas nacionais se espalhassem pelos países da região e gerassem riqueza na vizinhança.

Só na Argentina, os investimentos brasileiros chegaram a US$ 7,87 bilhões entre 2005 e 2013, segundo a consultoria em economia e negócios ABECEB, a de maior projeção na América Latina e referência para os investidores brasileiros. Nesse período, o Brasil foi o quarto maior investidor no país vizinho, com 10% do total, atrás dos Estados Unidos, Espanha e Holanda respectivamente. O estoque de investimentos brasileiros acumulados hoje na Argentina chega a US$ 5,5 bilhões.

Em entrevista à RFI Brasil, Alexandre Bettamio, presidente para a América Latina do Bank of America, com sede em Nova Iorque, com uma situação desfavorável no mundo (juros negativos e pouco crescimento), o dinheiro externo está pronto para entrar na região. "Na América Latina, temos dois países importantes que estão hoje com uma política econômica diferente, Brasil e Argentina, e que ainda têm, comparado com qualquer outro país, duas questões que são relevantes para o investidor: crescimento e juros atraentes. Para ambos, esperam-se crescimentos para 2017 (3,5% Argentina; 1,6% Brasil) em relação a 2016. Nem todos os países estão nessa situação", compara Bettamio.

No entanto, para o salvador investimento produtivo, pelo qual a Argentina ansia, há ainda dois obstáculos, indica Bettamio. "Existe interesse, por parte dos investidores de longo prazo, a aportarem o seu capital. A pergunta é como que eles vão aportar esse capital, em quais empresas, em quais setores? O desafio não é encontrar as empresas argentinas em condições de receber esse aporte. E aí vem uma pergunta mais macro: será que o governo Macri vai continuar progredindo como progrediu até agora ou ele terá alguma rejeição mais pra frente? Essa é a dúvida", analisa. "Mas eu diria que, no momento, existe uma grande credibilidade", observa.

Desafios para Macri e Temer

Os desafios tanto do governo de Mauricio Macri quanto do de Michel Temer não passam tanto pela credibilidade, mas pela força política para imporem reformas que reduzam déficits e superarem os horizontes eleitorais. "O governo Macri e o governo Temer são muito parecidos na sua composição de visão de agenda macro-econômica. O Brasil e a Argentina precisam do capital externo. O investidor vai ter sempre uma visão de curto, médio e longo prazos. E vai colocando mais dinheiro à medida que se sentir mais confortável com tudo isso. Quando nós víamos a entrada do governo Macri e a entrada do governo Temer, a primeira reação que o mercado teve foi justamente apostar nesses países. É a consequência da credibilidade. Não vimos as transformações, mas nós estamos vendo a intenção. E essa intenção já é um agente transformador", ensina Bettamio.

Para Pérsio Arida, governos mais voltados ao mercado vieram para ficar. "As histórias de Brasil e Argentina meio que se espelham. Esses movimentos que estão acontecendo nos dois países não são à toa. Você teve um período longo de um governo de esquerda no Brasil e um período longo peronista na Argentina. E agora virou. Cada um tem as suas características, é claro, mas eu acho que haverá um período longo de governos mais voltados ao mercado, à estabilidade macro-econômica e com responsabilidade fiscal", projeta.

Tanto Pérsio Arida como Alexandre Bettamio participaram, na semana passada, em Buenos Aires, do primeiro Foro de Investimentos e Negócios que buscou reinstalar a Argentina no mapa de investimentos globais. Comprador de 40% de tudo o que a Argentina exporta, a recuperação do Brasil determina a velocidade da recuperação argentina. "O Brasil é o nosso principal sócio comercial. Qualquer coisa que acontece no Brasil nos impacta e nos afeta. Precisamos de um Brasil forte", admite a chanceler argentina Susana Malcorra. "Temos a convicção de que a institucionalidade do Brasil vai permitir uma superação da crise", confia.

Giro de 180 graus

"Depois de 10 anos de uma economia fechada, subsidiada, discricionária e com muita intervenção, transitamos a uma economia aberta, transparente e competitiva. Os processo de investimento requer a construção de confiança, ainda mais em um país como a Argentina, que foi sempre tão volátil em matéria de política econômica", explica Dante Sica, diretor da ABECEB e ex-secretário da Indústria e Comércio. "Na Argentina, não se discute se haverá recuperação. Discute-se a velocidade da recuperação", destaca.

"A região entrou numa fase de maior tensão econômica e social. Por um lado, a queda no valor das commodities reduziu o dinheiro. Por outro, a década anterior, com tendência ao populismo devido aos altos preços internacionais, gerou muitas melhoras sociais. Com isso, hoje a sociedade tem demandas qualitativamente diferentes. Já não se pede geladeira com comida. Pede-se mais educação e mais saúde, porém os Estados terão menos dinheiro. Será preciso melhorar a gestão", analisa Dante Sica.

"Por isso, a mudança na região é quase uma mudança obrigatória. Não é só por uma questão ideológica. Os populismos desaparecem com a queda dos preços. Vamos a governos mais pró-mercado que vão procurar captar mais investimentos e crescimento por exportações porque precisam de novas fontes de expansão e de renda", conclui.

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