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O Mundo Agora

Mundo torce por Hillary para evitar "Calígula" no poder

Áudio 04:52
Fotomontagem dos candidatos nos seus últimos comícios. Donald Trum em Pennsylvania e Hillary Clinton em New Hampshire. Pesquisa aponta Hillary com pequena vantagem sobre Trump6/11/16
Fotomontagem dos candidatos nos seus últimos comícios. Donald Trum em Pennsylvania e Hillary Clinton em New Hampshire. Pesquisa aponta Hillary com pequena vantagem sobre Trump6/11/16 REUTERS/Carlo Allegri/ Brian Snyder

Dizer que o resultado das eleições presidenciais americanas vai afetar diretamente o mundo inteiro é pouco. É claro que cada quatro anos, a escolha que fazem os eleitores americanos do comandante em chefe da nação mais poderosa do planeta sempre foi essencial para o resto dos mortais. A piada é velha: a verdadeira democracia seria que todos nós tivéssemos o direito de votar em quem vai comandar o nosso destino coletivo. Só que, desta vez, a primeira potência mundial pode se tornar completamente imprevisível.  

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Há mais de meio século, os Estados Unidos vêm garantindo, em última instância, um sistema internacional baseado numa lei internacional que deveria se impor a todos, e instituições internacionais, cujo o maior paradigma é a ONU e sua rede de agências e organismos. Durante a Guerra Fria havia um bloco de países comunistas aliados à União Soviética – ou à China de Mao – que tentavam destruir essas regras do jogo.

O mundo vivia na angústia de uma guerra atômica, deliberada ou por acidente. E na periferia dos dois grandes protagonistas do mundo bipolar, as guerras não tinham nada de conflitos “congelados”. No entanto, durante esse período, foi o poderio militar, econômico, científico e até cultural americano que manteve essa ideia de uma ordem mundial fundada nas liberdades fundamentais, nos direitos humanos e no reconhecimento de que todos os Estados, por menores que fossem deveriam ser tratados de igual para igual perante a lei.

Obviamente, o mundo é um poço de contradições. Tudo era sempre mais complicado e cínico. Valores são uma coisa, interesses outras. Nem os Estados Unidos, nem as outras potências democráticas do dito “Ocidente”, eram santinhos de presépio. Mas foi esse mundo ocidental imperfeito que manteve acesa a chama da democracia e das liberdades, constantemente ameaçadas pelos regimes totalitários do então “Bloco do Leste”. Mas a implosão da União Soviética e vitória das sociedades abertas e plurais só foi possível porque havia o poderio americano garantindo a segurança e, em boa medida, a prosperidade das outras democracias.

"Ninguém gosta de tamanha dependência"

Claro, ninguém gosta de tamanha dependência. Qualquer poder com um papel de comando tão avassalador suscita ódios, rancores e até vergonha por parte dos seus afiliados. Mas quando chegava a hora do “vamos-ver”, todos imploravam a intervenção da cavalaria americana. Aiô Rin-tin-tin! E quando essa cavalaria chegava era inevitavelmente denunciada como imperialista, mas quando não vinha era acusada de irresponsabilidade. A verdade é que apesar de todas as críticas, o dito “Mundo Livre”, estava bem contente que alguém assumisse os ônus da proteção de todos. E muitos dos povos submetidos a Moscou ou a Pequim sonhavam com fazer parte deste universo defendido pelos americanos.

Candidatura de Trump cria incerteza

Hoje, na véspera de mais uma eleição democrática nos Estados Unidos – e depois de uma campanha particularmente suja (mas que não é a primeira na história do país) – a candidatura de Donald Trump, com o seu populismo e incompetência irresponsável, criou uma imensa incerteza. Ninguém sabe o que magnata imobiliário com posições tão extremas e esdrúxulas fará de tanto poder acumulado, caso vença o pleito presidencial. Se o pilar central de um mundo organizado em volta de regras mínimas e previsíveis, passa a ser errático e imprevisível, tudo pode acontecer.

E em geral, a história mostra que o que acontece são gigantescas tragédias, econômicas, guerreiras e humanitárias. Sobretudo que não há ainda nenhum candidato no mundo com meios e disposição suficientes para assumir o papel de fiador em última instância da ideia de uma ordem feita de sociedades abertas, livres e prósperas contra os que querem voltar aos regimes autoritários, com suas populações condenadas à miséria e a insegurança. Não é por nada que no mundo inteiro, a grande maioria torce pela vitória de Hillary Clinton. Não por ela ser um génio – o que não é – mas simplesmente para não deixar a maior potência mundial cair nas mãos de um Calígula qualquer.

Alfredo Valladão, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de politica internacional às segundas-feiras para a RFI
 

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