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O Mundo Agora

Onda de protecionismo na Europa e EUA gera incerteza global

Áudio 04:54
Os países da região Ásia-Pacífico se despediram com pesar do presidente americano Barack Obama neste domingo em Lima e advertiram seu sucessor Donald Trump, prometendo lutar contra o protecionismo.
Os países da região Ásia-Pacífico se despediram com pesar do presidente americano Barack Obama neste domingo em Lima e advertiram seu sucessor Donald Trump, prometendo lutar contra o protecionismo. REUTERS/Mariana Bazo

A vida e a História estão cheias de surpresas. O Ocidente rico era campeão do livre-comércio. Mas depois do Brexit e da eleição de Donald Trump, o vento frio do protecionismo vem soprando na Europa e na América. Agora, são os países emergentes e em desenvolvimento que defendem a globalização e as aberturas comerciais. Os mesmos que sempre denunciaram um comércio sempre desequilibrado a favor das economias mais desenvolvidas.

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A Cúpula da APEC, reunindo 21 países da Ásia-Pacífico em Lima (incluindo pesos pesados como os Estados Unidos, a China e o Japão) foi o palco privilegiado dessa reviravolta histórica. Com Obama de saída, o presidente chinês deitou e rolou. Xi Jinping, bombástico, anunciou: “Nós não vamos nos fechar, vamos abrir mais ainda”. E voltou à carga com o seu projeto de zona de livre comércio regional excluindo os americanos. Uma maneira de aproveitar a hostilidade de Donald Trump ao tratado de Parceria Transpacífico que deixa a China de lado.

A bravata otimista agradou os demais participantes. O clima da Cúpula foi de ameaça velada: se Washington decidir se fechar, os outros continuarão sem os Estados Unidos. O problema é que o medo do “efeito Trump” alimenta muita boca para fora. Um acordo comercial sem os Estados Unidos colocaria a China numa posição hegemônica. Pouquíssimos são os países asiáticos dispostos a virar estados tributários de um novo império econômico chinês.

E Pequim não está com essa bola toda. O mercado interno americano representa mais de 30% do consumo privado mundial. O da China é só 6%, muito longe de poder absorver a capacidade exportadora dos vizinhos, sobretudo se Trump – e possivelmente os europeus – também limitarem as importações vindas da China.

Dilema chinês

Há anos que Xi Jinping vem anunciando que a solução para a freada econômica do país tem que ser o desenvolvimento do imenso potencial do consumo interno. Impossível sem reformas radicais que ameaçam diretamente o monopólio político do Partido Comunista. Sem liberalização do crédito, não pode haver aumento significativo do poder de compra do cidadão. Mas com a liberalização, o partido perderia a sua principal ferramenta de poder: a capacidade de distribuir crédito para amigos, apaniguados, responsáveis regionais, e tutti quanti.

Uma China crescendo bem mais devagar não é uma alternativa ao enorme mercado americano, cada dia mais dinâmico graças às novas tecnologias e à nova revolução industrial. Os países que aceitassem a hegemonia chinesa estariam condenados a permanecer simples exportadores de matérias primas a preço de banana, ou amargar uma queda constante de suas principais exportações industriais de partes e componentes. Apesar das grandes declarações de independência, ninguém está a fim de desafiar Trump seriamente.

Todos, inclusive os chineses, esperam que o magnata demagogo acabe aceitando as realidades da economia global. Uma posição que também existe na Europa no campo da segurança. Trump andou proclamando que os Estados Unidos não defenderiam mais os europeus se estes não pagassem pelo custo.

Divisão de responsabilidades

Os líderes do Velho Continente se reuniram para lançar, mais uma enésima vez, a construção de uma defesa comum mais independente de Washington. Pequeno problema porém: não há visão de segurança comum entre os países europeus e ninguém tem condições – nem força política – para assumir o papel de guarda-chuva militar da Europa – como fazem os americanos desde 1945.

E aí está a questão central: durante décadas, o mínimo de ordem mundial simbolizado pelas grandes instituições internacionais criadas depois da Segunda Guerra mundial, foi garantido, em última instância, pelos Estados Unidos.

Se o novo presidente americano decidir tirar o corpo fora, nem que seja só um pouco, o resto do mundo vai ter que assumir militar, econômica e politicamente essa responsabilidade de “pai do planeta”. Mas por enquanto, não há nenhum candidato – nem a China, nem a Rússia, nem a Europa – disposto a carregar nas costas esse peso ingrato. Só que, sem isso, a alternativa é o caos generalizado. Apertar os cintos, que Trump vem aí!
 

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