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O Mundo Agora

A pergunta do momento em Washington: quando será que Trump vai amadurecer?

Áudio 04:54
Donald Trump insistiu em sua vontade de se aproximar da Rússia, mas, ao mesmo tempo, designou como novo diretor de Inteligência um ex-senador que sofre sanções de Moscou.
Donald Trump insistiu em sua vontade de se aproximar da Rússia, mas, ao mesmo tempo, designou como novo diretor de Inteligência um ex-senador que sofre sanções de Moscou. REUTERS/Shannon Stapleton

Desta vez vai ser difícil negar. O serviços de inteligência americanos confirmaram publicamente que o governo russo “hackeou” os e-mails do Partido Democrata e do Partido Republicano. A intenção era favorecer Donald Trump e complicar a vida de Hillary Clinton.

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Pela primeira vez, as agências de espionagem americanas – que vivem travando guerras burocráticas entre si – foram unânimes e taxativas. Não somente entraram nos detalhes do ciberataque russo, mas acusaram formalmente o presidente Vladimir Putin de ter ordenado, pessoalmente, a operação. “Um ato de guerra”, declarou John McCain, presidente, republicano, da Comissão das Forças Armadas do Senado.

A unanimidade da comunidade de inteligência colocou Donald Trump numa saia justa. O presidente-eleito passou semanas desprezando e gozando os serviços de espionagem, negando qualquer interferência russa e elogiando Putin. Agora, ele foi obrigado a engolir os tuites e aceitar que houve, sim, interferência do Kremlin na eleição americana. E exigiu rapidamente um plano de retaliação e combate aos ataques cibernéticos de potências estrangeiras. Acabou até tendo que concordar em nomear para a diretoria da Inteligência Nacional o senador Dan Coates, adversário e crítico declarado da política externa agressiva do Kremlin. Sem dúvida, trata-se da primeira pedra no caminho da presidência Trump.

Legitimidade "arranhada"

Mesmo se o relatório das agências certifica que não houve invasão dos computadores eleitorais, a legitimidade do presidente-eleito já começa arranhada. Não é por nada que Trump sempre tentou desacreditar qualquer ideia de intrusão russa.

Nos Estados Unidos, nunca é bom ter fama de ser o “candidato do Kremlin”. Além do mais, a confirmação do ciberataque restabeleceu um consenso entre as lideranças republicanas da Câmara e do Senado contra o namoro com Putin proclamado pelo futuro presidente. Má notícia para o magnata cafona que antes mesmo de assumir o posto já tem que enfrentar um Congresso reticente: muitos líderes da maioria republicana não estão nada afinados com partes da agenda doméstica ou com as opções de política externa do novo presidente. Nessas condições, pode não ser impossível, mas não vai ser nada fácil estabelecer um diálogo relevante com a Rússia.

O problema é que o pouco que sabemos das intenções de Trump em matéria de política externa, passa por relações estreitas com o que sobrou da antiga União Soviética. O novo presidente vem apontando a China como inimigo principal, sobretudo no campo econômico e comercial, mas também na questão da guerra cibernética. Mas para poder ter uma atitude mais agressiva com Pequim, a nova Casa Branca acha que precisa de uma verdadeira aliança com Moscou para – tuitou Trump – “resolver, juntos, os problemas do mundo”.

Quando é que o "bilionário do topete dourado" vai "amadurecer"?

Mas como convencer os seus aliados republicanos no Congresso que decidem e aprovam o orçamento e os gastos federais? Por enquanto, os dirigentes republicanos, os serviços de inteligência e até o próprio Pentágono não estão a fim de engolir a anexação da Crimeia pela Rússia, as provocações de Moscou contra países da Europa do Leste e as interferências russas nos processos eleitorais da Europa ocidental, financiando e ajudando partidos populistas nacionalistas e xenófobos. Apesar do desprezo declarado de Trump pela OTAN, as Forças Armadas americanas acabam de lançar as maiores manobras militares das últimas décadas nos países da Europa oriental com o objetivo oficial de “dissuadir uma agressão russa”.

Na verdade, o bilionário do topete dourado vai ter que aprender que a Casa Branca tem muito poder, mas não todo o poder. Os governadores e poderes legislativos dos Estados da federação, as prerrogativas da minoria democrata no Congresso e as posições dos líderes republicanos tradicionais, podem empacar qualquer agenda presidencial. Obama que o diga. A pergunta do momento em Washington é: quando é que Trump vai amadurecer? Tem que ser rapidinho senão a nova presidência não terá futuro.

*Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI

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