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Linha Direta

Peña Nieto ameaça cancelar viagem à Washington após decreto de Trump

Áudio 04:32
Parte de um muro recentemente construído na fronteira entre EUA-México que separa a cidade americana de Sunland Park, à cidade mexicana Juarez. 25/01/17
Parte de um muro recentemente construído na fronteira entre EUA-México que separa a cidade americana de Sunland Park, à cidade mexicana Juarez. 25/01/17 REUTERS/Jose Luis Gonzalez

Donald Trump assinou nesta quarta-feira (25) um ato executivo que tornou realidade uma de suas mais polêmicas promessas de campanha: a construção de um muro de 3,2 mil km, cuja extensão cobrirá toda a imensa fronteira entre os EUA e o México.

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Eduardo Graça, correspondente da RFI em Nova York

Provavelmente o dia mais consequente do governo republicano, a quarta-feira (25) foi marcada ainda por declarações de guerra do novo governo aos defensores de direitos humanos aos imigrantes indocumentados e às chamadas cidades-santuário, de maioria liberal, cujos governantes se negam a dar informações sobre cidadãos sem visto de permanência no país, como Nova York, Chicago, Los Angeles e a própria capital, Washington.

Estes centros urbanos, que votaram em novembro em Hillary Clinton, com margens de até 80% a 20% para a democrata, também foram vítimas do ataque de Trump, no que ele chamou de “fraude eleitoral”. O presidente anunciou que iniciará uma investigação federal sobre o processo eleitoral em estados como Nova York e Califórnia. Segundo ele, imigrantes não-documentados e até mortos e menores de idade votaram ilegalmente nas eleições, causando sua derrota no voto popular para Hillary.

Medidas xenófobas e rupturas diplomáticas

Ainda na quarta-feira (25), Trump assinou dois atos executivos que deixaram os liberais de cabelo em pé e tornaram realidade a retórica xenófoba, anti-islâmica e anti-latina de sua campanha. O primeiro é o da construção do muro na fronteira com o México. Ao contrário do que ele dizia na campanha, o presidente agora afirma que o custo do muro sairá do bolso do contribuinte americano, mas que “o México, de uma maneira ou de outra, irá pagar a conta”. Afirmação que fez o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, anunciar no fim do dia que pode cancelar sua visita oficial a Washington, programada para a semana que vem.

Em um segundo ato polêmico, Trump decidiu cortar verbas federais para cidades que comprovadamente servirem como escudos de proteção para imigrantes não-documentados. Hoje há cerca de 11 milhões de imigrantes que permanecem nos EUA de maneira ilegal e que, na prática, a partir de agora, passam a ser considerados pelo governo ameaças à segurança do país. Entre as chamadas cidades-santuário, estão Nova York, Boston e Newark, todas com significativa população de origem brasileira, além de Los Angeles, Chicago e Austin, localidades em que Trump perdeu por larga margem em novembro.

A nova administração partiu decisivamente para o ataque. nesta quinta-feira (26) o presidente Trump viaja para a Filadélfia para uma reunião com a cúpula do Partido Republicano e deve anunciar mais medidas linha-dura na área de segurança nacional, como a proibição da imigração de cidadãos, incluindo refugiados, oriundos de países com grande presença de muçulmanos como Síria, Irã, Somália, Iêmen e Sudão.

Em sua primeira entrevista exclusiva, dada à rede ABC, Trump também disse acreditar que a prática de tortura funciona em interrogatórios de presos acusados de terrorismo contra os EUA, levando a reações duras até de senadores da base republicana, como Rand Paul e John McCain. Este último, que durante anos foi prisioneiro de guerra no Vietnã, disse que “o presidente pode dizer o que quiser, mas a prática de tortura seguirá ilegal neste país”.

"Fraudes eleitorais"

Trump diz que de três a cinco milhões de pessoas votaram ilegalmente em novembro, razão pela qual perdeu para Hillary Clinton no voto popular em novembro. Nos EUA não há, como no Brasil, Justiça Eleitoral, e as eleições ficam a cargo dos estados da federação. Estes, sejam os comandados por democratas ou republicanos, negam a existência de fraude em massa, apontando casos isolados. O que se descobriu, curiosamente, é que uma das filhas de Trump e dois de seus auxiliares mais próximos, estavam registrados em dois estados para votar em novembro. Eles afirmam só terem votado uma vez. Mas o que Trump faz ao tratar de um problema inexistente é tirar a atenção para o que de fato ameaça a democracia americana em seu momento mais importante, a hora de ir às urnas: a supressão do direito de voto de milhares de cidadãos de classe baixa em estados comandados pelos conservadores.

Durante a era Obama, estados do sul e do meio-oeste passaram a exigir a apresentação de uma série de documentos e de reduzir a possibilidade de voto antecipado, o que diminuiu drasticamente a possibilidade de trabalhadores mais pobres de irem às sessões eleitorais. O voto nos EUA não é obrigatório e o dia das eleições não cai nem em um fim de semana nem em um feriado nacional. Ao acusar os adversários de fraude eleitoral Trump também tenta eliminar o principal obstáculo à narrativa conservadora de que ele recebeu um mandato popular claro para mudar o país de forma decisiva: o fato concreto de que Hillary teve quase três milhões de votos a mais do que ele em novembro.

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