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A transformação radical de Washington: “renascença” ou “gentrificação”?

Em agosto passado, a construção do píer foi apresentada a convidados seletos, que viram a ponte Francis Case ser iluminada durante um jantar ao ar livre.
Em agosto passado, a construção do píer foi apresentada a convidados seletos, que viram a ponte Francis Case ser iluminada durante um jantar ao ar livre. Matthew Borkoski

Washington está passando por uma profunda transformação. E, por incrível que pareça, a chegada de Donald Trump à capital americana não tem nada a ver com isso. A transformação – gradual já há algumas décadas – acelerou-se nos últimos anos e atingiu hoje uma escala que não pode ser ignorada.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

“Estamos passando por uma verdadeira Renascença”, diz Brian Kenner, vice-prefeito de Planejamento e Desenvolvimento Econômico da cidade. Essa renascença pode ser traduzida como gentrificação [do inglês gentrification, fenômeno que afeta uma região ou bairro pela alteração de suas dinâmicas estruturais, que supervalorizam o local, descaracterizando-o de suas referências originais].

Vizinhanças que há poucas décadas tinham uma população majoritariamente negra e de baixa renda passaram a ser cobiçadas por jovens bem-sucedidos que queriam escapar dos subúrbios. Até a década de 1980, casas com arquitetura conformista e garagens espaçosas dominavam o estilo de vida do sonho americano.

Washington tem uma população de cerca de 700 mil habitantes e, recentemente, tem recebido anualmente mil novos moradores. Isso é animador para a prefeitura que, nos últimos anos, viu um aumento de US$ 1 bilhão em arrecadação de impostos. Mas um local cada vez mais popular é um local cada vez mais caro.

O preço médio de um imóvel residencial na capital americana é de US$ 550 mil, enquanto o valor do metro quadrado é de cerca de US$ 16 mil. Já quem vive de aluguel paga entre US$ 1,9 mil e US$ 4 mil por mês. “É preciso ter uma renda anual de mais de US$ 100 mil para viver confortavelmente em Washington”, diz Kenner.

Derek Hyra, professor de administração e política públicas da American University, alerta para os impactos negativos de uma gentrificação descontrolada. “Há uma relocação não apenas residencial, mas também política e cultural. Washington era conhecida como “cidade do chocolate”, mas hoje é a “cidade do cappuccino”, diz Hyra fazendo referência à diminuição da população negra na capital americana e à obsessão da geração do milênio por cafés sofisticados.

“Embranquecimento” da cidade

Em 1980, 70% da população da cidade era negra. Hoje, a população negra não passa de 50%. Pequenos negócios de famílias negras que por muitas gerações viviam em Washington foram trocados por lojas especializadas em vinhos finos. Parques onde a comunidade local jogava basquete e levava as crianças para brincar hoje são frequentados por cachorros paparicados e seus donos que se reúnem para beber vinho na Yappy Hour (trocadilho com Happy Hour; “yappy” se refere ao latido característico dos cãezinhos).

“Você olha para uma cidade que era historicamente negra e comandada por negros. Agora você olha para a população negra e as projeções são de que Washington vai parecer mais com a Califórnia daqui a 10 anos, onde haverá mais etnias [e]...será multirracial. Então acho que eles [a população negra nativa] pensam, “Meu deus, a gente costumava comandar a cidade”, diz Geovani, presidente da Associação da Vizinhança da Rua Bates, em depoimento a Hyra, no livro “Race, Class, and Politics in the Cappucino City” (Raça, Classe e Política na Cidade Cappucino, em tradução livre).

O professor acredita que o grande desafio é integrar pessoas de rendas tão díspares e resolver o dilema de como estimular um crescimento equitativo e inclusivo. “Há uma segregação de diversidade, em nível micro. Nas ruas se vê uma mistura de etnias, mas essas pessoas não frequentam os mesmos lugares”, diz Hyra.

Uma gentrificação “inclusiva”?

O ideal, segundo o professor, é aplicar políticas de gentrificação inclusiva, desenvolvendo locais que atraiam pessoas de background diferentes e, assim, promovendo a convivência em harmonia. “O impacto dessa gentrificação sobre a cidade ainda não pode ser compreendido. Estamos vendo uma quantidade de desenvolvimento extraordinária”, diz Steve Moore, diretor executivo do South West Business Improvement District, uma organização sem fins lucrativos que promove a gentrificação da pequena zona sudoeste da capital de 200 hectares, que aconteceu de modo mais evidente nos últimos 18 meses.

Uma das locomotivas da gentrificação da zona sudoeste é o The Wharf, um investimento de USD 2,3 bilhões e 300 mil m², que tem como objetivo reestabelecer Washington como uma cidade voltada para o rio Potomac. A área que abriga o histórico Fish Market, mercado de frutos do mar mais antigo do país em constante funcionamento, está sendo radicalmente transformada. Uma estrutura de 1,5 km e a apenas 20 m do Potomac oferece moradias convenientes para jovens que ocupam um dos muito bem pagos empregos em tecnologia que a capital oferece (Washington constantemente lidera os rankings de empregos no setor de tecnologia) e apartamentos luxuosos para aposentados que acumularam patrimônio e, em vez de mofar no subúrbio, preferem um ambiente vibrante e cosmopolita.

A ideia foi criar uma vizinhança animada, mas íntima, com construções de tamanho modesto em pequenas ruelas de pedra. Além de dezenas de restaurantes e lojas dos mais diversos estilos, o The Wharf oferecerá um rico ambiente musical. A âncora será The Anthem, um salão musical com capacidade para até seis mil pessoas, que foi projetado para ter um isolamento acústico superior, garantindo a tranquilidade dos moradores da vizinhança. Além disso, haverá diversos pequenos clubes musicais em homenagem aos antigos estabelecimentos de jazz e soul de Washington dos anos 1940.

“Acho estranho que não vejo ninguém como eu”

Nos arredores do píer, há quatro hectares com parques, campo de golfe e espaços abertos. Para receber os visitantes, o The Wharf oferece 550 espaços para barcos, 2,5 mil vagas para carros e 1.750 vagas para bicicletas. Além disso, o The Wharf pode ser facilmente acessado por metrô ou táxi aquático.

Até agora, cerca de 80% das moradias já foram vendidas. Visitantes de passagem e turistas podem se hospedar no Hyatt House, que oferece aluguel de curto prazo, ou nos hotéis Canopy by Hilton e Intercontinental. A nova vizinhança mais cobiçada da capital está abrigando uma comunidade que nada tem a ver com os seus originais moradores negros e de baixa renda. “Acho estranho que não vejo ninguém como eu”, diz Simon Ateba, jornalista negro, depois de uma apresentação do South West Business Improvement District sobre a nova cara da vizinhança. O diretor-executivo da organização não tem uma boa resposta para a observação de Ateba, mas diz que mesmo pessoas sem privilégio têm a ganhar com o projeto.

A organização emprega ex-presidiários e pacientes que passaram por tratamento contra o vício para limpar e embelezar a vizinhança. Essas pessoas recebem US$ 15 por hora, valor acima da remuneração mínima de cerca de US$ 10 por hora paga em Washington.

Em agosto, a construção do The Wharf foi apresentada ao público com um espetáculo de luzes que iluminavam a Francis Case Bridge. O espetáculo de US$ 2 milhões foi executado pela Citelum, empresa que ilumina a Torre Eiffel. Um grupo seleto de convidados foi convidado a ver as luzes se acenderem enquanto era oferecido jantar servido a mesas dispostas no local de construção do píer.

O The Wharf será aberto ao público em 12 de outubro, com um show da banda Foo Fighters no The Anthem. Todos os ingressos, que custavam entre US$ 100 a US$ 175, foram imediatamente esgotados na venda oficial. Ingressos ainda podem ser comprados em sites de ofertas individuais por cerca de US$ 1,5 mil.

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