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Linha Direta

Para democratas, depoimento de Cohen pode levar a impeachment de Trump

O ex-advogado de Trump, Michael Cohen, durante sua audiência no Congresso nesta quarta-feira (27)
O ex-advogado de Trump, Michael Cohen, durante sua audiência no Congresso nesta quarta-feira (27) REUTERS/Carlos Barria

Depois de chamar o presidente americano de bandido e racista em depoimento ao Congresso americano nessa quarta-feira, Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, vai novamente apresentar testemunho nesta quinta-feira (28), dessa vez para a Comissão de Inteligência da Câmara dos Deputados. Cohen deve revelar novos detalhes explosivos, que incluem a intenção de construir uma Trump Tower em Moscou.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Esta semana ilustra um exemplo perfeito de um fenômeno que faz parte da vida política dos americanos desde que Trump foi eleito e está sendo conhecido como fenômeno da “tela dividida”. Segundo o criador desse conceito, o cartunista criador de Dilbert e comentarista político, Scott Adams, a realidade atualmente pode ser vista de dois modos completamente diferentes, como se a tela de um cinema estivesse dividida em duas partes, com cada lado da audiência vendo um filme diferente.

Para os democratas, os depoimentos do ex-advogado de Trump têm o efeito de uma bomba e resultarão no impeachment do presidente, podendo até mesmo colocá-lo atrás das grades. Nas redes sociais, não faltam democratas celebrando a remoção de Trump da Casa Branca.

Os parlamentares acreditam que o depoimento de Cohen incrimina Trump gravemente e, dessa vez, ele não tem como escapar da Justiça. Para os republicanos, os depoimentos de Cohen não passam de um amontoado de histórias fabricadas que, mesmo se fossem verdade, apenas indicam indiscrições e comportamento duvidoso, estando longe de serem crimes.

Os democratas também dizem que a Casa Branca está tentando tirar a atenção sobre os escândalos ao promover notícias positivas sobre o encontro de Trump com Kim Jong-un, esta semana, no Vietnã. Já os republicanos acusam os democratas de terem criado um circo com a intenção de não permitir que o presidente seja visto sob uma boa luz ao estar negociando a desnuclearização da Coreia do Norte.

Mas, para o americano médio, que não está envolvido diretamente com política e que nem se interessa em comparecer às urnas, os dois lados estão exagerando e o Congresso está mais preocupado com partidarismo do que com o povo americano. No entanto, até agora, o testemunho de Cohen serviu para dar motivo suficiente para que republicanos e democratas continuem com suas narrativas, mas ainda não resultou em nova munição significativa para nenhum dos dois lados rivais.

Advogado diz que foi orientado a "cometer crime"

Cohen acusou diretamente Trump de tê-lo orientado a cometer um crime ao pedir que ele pagasse mulheres para que elas não falassem sobre os relacionamentos extraconjugais que tiveram com o então candidato a presidente. Na quarta, o advogado apresentou cópias de cheques que recebeu para fazer esses pagamentos, inclusive quando Trump já ocupava a Casa Branca. No passado, Trump declarou publicamente que nunca instruiu o advogado a fazer isso, e que Cohen agiu por conta própria.

O advogado também disse ao Congresso que, em 2016, Roger Stone, amigo e conselheiro de Trump, falou ao então candidato Trump que tinha sido informado por Julian Assange que e-mails de Hillary Clinton e prejudiciais para a imagem da candidata democrata seriam publicados pelo WikiLeaks.

No entanto, Assange, que é fundador do WikiLeaks, declarou pelo Twitter, nessa quarta-feira e logo após o testemunho de Cohen, que nunca se comunicou com Stone. Em janeiro, Stone foi preso pelo FBI por ter mentido ao Congresso e ter obstruído a investigação da Comissão de Inteligência da Câmara sobre interferência da Rússia nas eleições americanas de 2016.

Cohen também disse que achava que Donald Trump Jr. tinha informado o pai sobre a reunião que teria com a advogada russa que compartilharia informações incriminadoras sobre Hillary. Trump mantém que não tinha nenhum conhecimento sobre a reunião.

Cohen não tem credibilidade, dizem republicanos

Os republicanos dizem que Cohen não tem credibilidade alguma, pois já foi condenado por mentir ao Congresso e evasão fiscal. Além disso dizem que Cohen, ao ajudar os democratas a perseguir Trump, provavelmente está tentando conseguir diminuir sua pena que, em cerca de dois meses, começará a cumprir em prisão federal.

Mas, ao mesmo tempo em que alegam a falta de credibilidade do advogado, os defensores de Trump, em uma atitude contraditória, festejam que Cohen afirmou não ter provas de que a campanha de Trump tenha coordenado com a Rússia a fim de prejudicar Hillary e disse nunca ter sido instruído pelo presidente a mentir ao Congresso. Outra afirmação de Cohen que entusiasmou os republicanos foi a de que nunca foi à Praga, indicando que o dossiê Steele, que foi usado como justificativa principal para o FBI investigar a campanha de Trump, era falho.

Uma informação fornecida por Cohen, que já era conhecida, mas que serviu de lembrete para deixar os defensores de Trump preocupados e dar esperança aos seus opositores é que a Organização Trump está sendo investigada pelo tribunal federal do Distrito Sul de Nova York.

Detalhes explosivos

Os democratas, especialmente o deputado Adam Schiff, estão prometendo que Cohen, com seu depoimento à Comissão de Inteligência do Congresso, nesta quinta, vai oferecer novos detalhes explosivos sobre o interesse do então candidato Trump a construir uma Trump Tower em Moscou, além de mais indícios de tentativa de obstrução da justiça. Provavelmente, o novo testemunho vai ser o pano de fundo para muito ataques partidários e pouco conteúdo novo.

Como o impeachment é um processo de natureza política, a Câmara dos Deputados de maioria democrata deve ter base suficiente para dar início ao procedimento. Mas, se os democratas vão mesmo ir em frente com esse plano, depende do entusiasmo do seu eleitorado. Mas não há muito motivo para acreditar que os americanos fora dos círculos políticos estejam realmente interessados em ver o Congresso ocupar-se com um longo processo de impeachment.

Enquanto isso, nesta quinta, a Casa Branca deve continuar a fazer o possível para destacar a importância do encontro de Trump com Jong-un para o começo de um possível bom relacionamento entre as duas Coreias e o fim da ameaça nuclear por parte do ditador norte-coreano. Independentemente de possíveis consequências políticas, os depoimentos de Cohen servem como confirmação de que, no mínimo, Trump tem uma tendência a comportamento questionável e a estar cercado por personagens de conduta antiética.
 

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