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Estados Unidos/Aborto

“Recuos sobre o aborto visam retorno de uma sociedade patriarcal e branca nos EUA”

Manifestação pelo direito ao aborto diante da Corte Suprema dos Estados Undios, em Washington, no dia 21 de maio de 2019.
Manifestação pelo direito ao aborto diante da Corte Suprema dos Estados Undios, em Washington, no dia 21 de maio de 2019. RFI/Anne Corpet

O direito ao aborto está ameaçado nos Estados Unidos? A pergunta ganha força nos útimos dias depois que vários estados americanos aprovaram leis contestando esse direito, garantido desde 1973 por uma decisão da Suprema Corte. A pesquisadora francesa Marie-Cécile Naves vê nesse retrocesso um desejo de se voltar a uma sociedade patriarcal, de maioria branca, sob a influência religiosa que ganhou força na era Trump.

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As decisões tomadas recentemente por vários estados americanos limitando drasticamente o direito ao aborto preocupam os defensores dos direitos das mulheres nos Estados Unidos. Desde o governo Reagan, os conservadores tentam questionar esse direito, mas nunca a influência da direita religiosa foi tão vitoriosa no país como no governo de Donald Trump.

Em entrevista à RFI, Marie-Cécile Naves, chefe do Observatório de Gênero e Geopolítica do Instituto de Relações Internacionais e Estratégia (IRIS), analisa que o objetivo dessa onda conservadora é duplo: “confortar uma sociedade patriarcal onde os homens controlariam o corpo das mulheres. Mas a vontade patriarcal, muito presente na cultura evangelista, não está presente somente na religião. Ela também é resultado do medo de uma mudança demográfica em marcha nos Estados Unidos”.

Nos próximos 25 anos, de acordo com a pesquisadora, a população americana não será mais majoritariamente branca de origem europeia. Marie-Cécile Naves, que também é autora do livro “Trump: a revanche do homem branco”, afirma que militantes conservadores “tentam evitar esta realidade com essas leis restritivas sobre o aborto para preservar uma América branca, como se isso pudesse impedir a mestiçagem ou a imigração.”

Dificultar o acesso ao aborto

Alabama, Geórgia, Mississippi, Missouri e Louisiana adotaram leis restritivas, que ainda não entraram em vigor. Elas provavelmente serão contestadas na Justiça por irem contra o direito de interrupção da gravidez até a 24ª semana, assegurado pela Suprema Corte do país.

Além disso, a última clínica que pratica o aborto no Missouri corre o risco de fechar nesta sexta-feira (31). Os médicos se negam a responder a um questionário administrativo sobre sua prática e as autoridades estaduais ameaçam não renovar a licença de funcionamento. Se a ameaça for efetivada, o estado passará a ser o primeiro dos Estados Unidos onde as mulheres não terão onde recorrer a essa prática desde 1973, ano da legalização do aborto no país.

A correspondente da RFI nos Estados Unidos ouviu a presidente da associação de planejamento familiar do Missouri, Leana Wen, administradora dessa clínica. Para ela, essa posição do governo do estado, comandado pelo republicano Mike Parson, é mais do que um alerta. “Isso representa uma verdadeira crise de saúde pública. Vai colocar em risco a saúde e a vida de 1,1 milhão de mulheres em idade reprodutiva do Missouri”, advertiu Leana Wen.

Interesse eleitoreiro

O objetivo do lobby conservador é forçar os juízes da Suprema Corte a reabrirem o debate sobre o aborto no país. Marie-Cécile Naves acredita que o presidente Trump “alimenta essa dinâmica, estimulando os estados a multiplicarem essas leis”.

O objetivo do republicano é “eleitoreiro”. A pesquisadora francesa diz que o presidente já está de olho nas eleições de 2020. “A estratégia de Trump é visar um público ultraconservador no ano que vem. Ele não pensa em alargar sua base eleitoral e precisa do eleitorado evangélico que já votou em 80% nele.”

O risco dessa estratégia é uma maior mobilização da militância feminina, que ganhou muito espaço desde o movimento #metoo, e um acirramento da disputa pelo direito ao aborto que pode se impor como o grande tema das presidenciais americanas de 2020.

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