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O Mundo Agora

Pressão econômica é poderosa arma de intimidação de Trump

Áudio 04:52
"Os EUA podem intimidar qualquer país, pequeno ou grande, não só por causa do poderio militar, mas também por que o consumo privado nos Estados Unidos representa por volta de 30% do consumo mundial. Quem não vende lá, está frito."
"Os EUA podem intimidar qualquer país, pequeno ou grande, não só por causa do poderio militar, mas também por que o consumo privado nos Estados Unidos representa por volta de 30% do consumo mundial. Quem não vende lá, está frito." REUTERS/Mohamed Abd El Ghany/File Photo

Pelo visto, Donald Trump está convencido de que os Estados Unidos podem intimidar qualquer outro país, pequeno ou grande. E não é só por causa do evidente poderio militar americano. Na nova geopolítica mundial, o principal arsenal da Casa Branca é a economia.

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Trump dobrou as apostas na partida de pôquer comercial com a China. Um clima de guerra econômica sem fim que poderia até descambar em enfrentamentos bélicos. Também ameaçou o México de aumentar brutalmente as tarifas de importação, se a passagem de imigrantes para os Estados Unidos não for interrompida. Até a Índia, aliada estratégica contra os chineses, foi intimada a abrir o seu mercado interno às empresas americanas sob pena de perder as vantagens comerciais do Sistema de Preferências Generalizadas.

A Europa – de longe o maior parceiro econômico dos Estados Unidos – continua intimidada pela possibilidade de tarifas contra as suas exportações de automóveis, e de perder acesso às tremendas bases de dados americanos, caso escolha a tecnologia chinesa para sua futura rede de comunicações em 5G.

Pitaco no Brexit

Pior ainda: Trump aconselha a Grã-Bretanha a largar a União Europeia sem acordo nenhum – e ainda por cima dando um calote – se a Europa não aceitar todas as condições de um novo governo britânico. Tudo isso sem falar do uso e abuso, justificados ou não, de embargos e sanções contra o Irã, a Venezuela, a Turquia, ou a Rússia.

O problema é que essa atitude de touro numa loja de porcelana tem sua razão de ser. Ninguém – nem a poderosa China – quer perder o mercado americano. O consumo privado nos Estados Unidos representa por volta de 30% do consumo mundial. Quem não vende lá, está frito.

O mercado de capitais americano é de longe o mais líquido, mais livre e mais importante do planeta. E o dólar continua sendo a moeda de troca incontornável de boa parte das transações econômicas globais. Além disso, o ecossistema de tecnologia avançada americano ainda está léguas na frente de todos os outros.

Até em matéria de energia os americanos são praticamente autossuficientes. Portanto, a Casa Branca tem argumentos pesados quando decide usar o martelo da pressão econômica. Resistir não é fácil.

Só que ninguém é uma ilha, isolada no mundo. Esse imenso poderio econômico foi construído, depois da Segunda Guerra Mundial, graças à internacionalização radical da produção e do consumo americanos. A chamada “globalização” é uma das consequências dessa expansão geográfica das cadeias produtivas e da integração do sistema financeiro planetário.

A riqueza dos Estados Unidos e a boa saúde de suas empresas e do mercado de trabalho ainda é extremamente dependente do resto do mundo. Embaralhar essas enormes redes de interdependência econômica só para tirar alguma vantagem geopolítica passageira, é atacar a confiança dos produtores, investidores e consumidores na previsibilidade da política econômica em Washington, e produzir mais caos e mais crises.

Consequências

Os arroubos de Donald Trump estão começando a custar caro também para os diversos atores econômicos americanos que começam a pagar o preço das tarifas de importações altas, do fechamento de partes dos mercados estrangeiros e da necessidade de reconstruir cadeias de produção inteiras.

Se os americanos começarem a sofrer demais, isso não é nada bom para a reeleição do lourão em 2020. Por enquanto, a estratégia agressiva de Trump é uma maneira de mostrar que ainda é o machão do “Make America Great Again”. A sua base eleitoral adora, mas muitos estão sentindo os problemas econômicos na pele.

As grandes associações empresariais e até políticos republicanos estão começando a chiar, com medo que tudo isso acabe em crise geral. Provável é que depois desse fogo de artifício de Super-Homem, o magnata da Casa Branca acabe negociando alguns acordos fajutos para cantar vitória, tirando uma pedra no caminho da campanha para a reeleição. É melhor ser otimista do que pessimista.

 

 

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