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Linha Direta

Briga por processo de impeachment pode fortalecer a reeleição de Trump

Áudio 04:32
Presidente Donald Trump participa de cerimônia na Casa Branca, nesta terça-feira (8).
Presidente Donald Trump participa de cerimônia na Casa Branca, nesta terça-feira (8). REUTERS/Leah Millis

O governo de Donald Trump afirmou nesta terça-feira (8) que a Casa Branca não vai cooperar com a investigação iniciada após o pedido de impeachment feito pelos democratas, na Câmara de Representantes. Para lidar com a ameaça de destituição, a Casa Branca segue a estratégia costumeira de Donald Trump de revidar com força máxima a quem ataca o presidente americano.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Sem hesitar em elevar o tom da disputa e disposto a dificultar a investigação para o processo de destituição, comandado pelos democratas no Congresso americano, o governo impediu que o embaixador dos Estados Unidos na União Europeia, Gordon Sondland, prestasse um depoimento ao Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados, que deveria ter acontecido nessa terça-feira (8).

A estratégia da Casa Branca tem sido tentar descreditar o Comitê de Inteligência, que ativou a investigação. Mesmo sob a acusação de ter pressionado o governo ucraniano a investigar Joe Biden, na sexta passada (4), Trump pediu publicamente que a China também investigasse o pré-candidato democrata à presidência e vice de Barack Obama. O governo chinês, em plena guerra comercial contra os EUA, declarou nesta terça que não investigaria Biden. O presidente americano sinalizou que já esperava que essa seria a resposta de Pequim – ou seja, fez o pedido com a intenção de provocar mais manchetes e jogar lama sobre o nome do seu rival.

Ainda nessa terça, a Casa Branca enviou uma carta à líder da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, informando que não cooperaria com a investigação e chamando-a de “inválida”, já que, segundo os advogados da presidência, infringia o direito a um processo justo, conforme determinado pela Constituição.

Determinação dos democratas

Os republicanos continuam a desafiar os democratas a fazer uma votação para o processo de impeachment, ao que eles respondem que o voto não é necessário, embora seja uma tradição no Congresso americano. A líder da Câmara dos Deputados, que até recentemente evitava se posicionar quanto ao impeachment, agora parece estar determinada – talvez por se sentir pressionada pela ala progressista do Partido Democrata.

A deputada muçulmana Rashida Tlaib, do estado de Michigan, que faz parte deste grupo, que tem se fortalecido dentro do partido, tem a saída de Trump como prioridade. Um dos mais empolgados com o processo de impeachment é Adam Schiff, deputado pelo estado da Califórnia e presidente do Comitê de Inteligência da Câmara. Ele se empenha em afastar o presidente republicano da Casa Branca desde a sua posse, em janeiro de 2017. Apesar de não ter tido sucesso depois de dois anos da investigação da campanha de Trump por suspeita de envolvimento indevido com o governo russo, Schiff agora se concentra em apurar a suposta pressão sobre a Ucrânia.

Pressão sobre identidade de informante

Apesar de haver garantias legais de que informantes manterão seu anonimato, é pouco provável que, nesse caso, a identidade do ou da denunciante permaneça protegida, em um ambiente de constantes vazamentos e confrontações. Os democratas querem tomar medidas extraordinárias para impedir que o nome dele seja revelado pelos republicanos, e propõem que o testemunho do informante seja feito de um local desconhecido, sem a participação dos republicanos.

O senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, um dos mais fiéis defensores de Trump, advertiu que vai expor os denunciantes anônimos, caso os democratas insistam no impeachment. Já foi publicado pela imprensa que o informante é agente da CIA e eleitor registrado no Partido Democrata. Além disso, durante testemunho ao Congresso, na sexta passada (4), o inspetor-geral da comunidade de inteligência, Michael Atkinson, disse que a fonte das denúncias havia trabalhado com um dos pré-candidatos democratas à eleição presidencial de 2020. A informação está sendo explorada pelos republicanos, que acusam o agente de não ser imparcial.

Também foi revelado que, um dia depois do telefonema de Trump ao novo presidente ucraniano, o informante escreveu um memorando no qual relata que sua fonte na Casa Branca, que havia acompanhado a ligação de 25 de julho entre os dois chefes de Estado, considerou o teor da conversa “insano” e “assustador. Trump teria implicitamente condicionado a entrega de recursos para defesa militar ucraniana ao recebimento de informações comprometedoras contra seus inimigos políticos.

Além de pedir que Kiev investigasse Joe Biden e seu filho Hunter, o presidente americano solicitou que localizassem o servidor com e-mails perdidos de Hillary Clinton, na época em que ela era secretária de Estado de Obama, e que ele acreditava se encontrar na Ucrânia. Os democratas dizem que possivelmente também vão contar com o depoimento de um segundo informante, que teria informações de primeira mão sobre a conversa entre Trump e o presidente da Ucrânia, Volodymir Zelensky, e as medidas depois tomadas para esconder o diálogo.

Impacto nas eleições

Os democratas apostam que, por mais que o processo de impeachment não afaste Trump da Casa Branca, vai prejudicar a campanha para sua reeleição em 2020. A animosidade entre os dois partidos – Democrata e Republicano - é tão grande em Washington que, mesmo que um processo de impeachment apenas resulte em uma mancha no legado do presidente, isso já daria uma certa satisfação aos democratas, que não se conformam em ter perdido a Casa Branca, depois de oito anos do governo Obama.

Entretanto, essa é uma aposta arriscada: Trump gosta de uma briga e isso pode fazer com que seus eleitores fiquem mais empolgados no ano que vem. A campanha do republicano está recebendo contribuições recordes, com US$ 125 milhões só no terceiro trimestre deste ano. Nenhum dos pré-candidatos democratas chega perto disso. No entanto, segundo as pesquisas, a população está ficando mais favorável ao processo de impeachment.

O fato é que o clima atual não tem ajudado Biden, já que as constantes manchetes sobre impeachment acabam por chamar a atenção para o envolvimento do vice de Obama na demissão do promotor ucraniano que investigava a empresa de gás que tinha seu filho, Hunter Biden, na diretoria. Hunter chegou a receber um salário mensal de US$ 50 mil, apesar de não ter experiência alguma no setor energético.

Por enquanto, quem continua ganhando com todos esses escândalos é Elizabeth Warren, senadora de Massachusetts, que, no momento, é considerada a preferida para representar os democratas nas eleições de 2020. Mas, no momento, nada está definido: há boatos de que Hillary quer enfrentar Trump nas urnas novamente. Nessa terça (8), o presidente americano tuitou que a ex-secretária de Estado deveria tentar “roubar” a candidatura de Warren. Hillary retrucou com “não me tente”.

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