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Argentina

Presidencial argentina: Fernández teve atuação agressiva em debate contra Macri

O palco do primeiro dos dois debates previstos nas eleições presidenciais na Argentina.
O palco do primeiro dos dois debates previstos nas eleições presidenciais na Argentina. Presidencia Argentina

Quando se esperava um Alberto Fernández moderado e um Mauricio Macri no ataque, os papeis se inverteram. O primeiro debate presidencial da campanha eleitoral argentina de 2019 foi também o terceiro da história do país.

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Correspondente em Buenos Aires

Foi preciso tornar o debate obrigatório, por meio de uma lei aprovada em 2016, para que os candidatos aceitassem o exercício. Na Argentina, candidato favorito não aceita debater para não arriscar o seu cacife político. Por isso, este foi apenas o terceiro debate em toda a história argentina e o primeiro com a participação de um presidente no cargo.

Se a regra diz que um favorito nas pesquisas defende o seu programa enquanto os demais atacam-no na tentativa de roubar-lhe votos, o que se viu no primeiro debate da corrida eleitoral argentina foi o contrário. Eram seis candidatos no palco, mas dois protagonizaram um debate onde reinou a ausência de propostas.

Com uma vantagem estimada entre 15 e 20 pontos percentuais nas pesquisas, o candidato de Cristina Kirchner, Alberto Fernández, surpreendeu pelo tom agressivo que utilizou contra Mauricio Macri, candidato à reeleição, ao longo de duas horas de debate. Os analistas políticos esperavam de Fernández a moderação, para tentar seduzir o voto do centro, mas viram um candidato enérgico contra Macri. O presidente se viu na defensiva, quando todos esperavam que ele fosse aproveitar a ocasião para agitar a campanha e tentar, assim, recuperar protagonismo.

Logo de entrada, o ex-chefe do Gabinete de Ministros de Cristina Kirchner (2007-2015) levantou o dedo para chamar Macri de "mentiroso". Fernández reiterou a acusação em várias ocasiões, procurando desarticular os argumentos de Macri. O presidente argentino costuma dizer que a falta de transparência é uma marca do kirchnerismo, que manipulava os índices de inflação e ocultava o aumento da pobreza.

Venezuela

Essa estratégia de antecipação adotada por Fernández acabou deixando Macri sem reação. Surpreendentemente, o líder argentino não rebatia o adversário, mesmo quando tinha argumentos a favor, como no caso da Venezuela.

Na sexta-feira, o presidente argentino formalizou a ruptura diplomática com a Venezuela de Nicolás Maduro, dando plena representação à embaixadora do opositor Juan Guaidó, Elisa Trotta. Fernández acusou a manobra de ser um passo prévio a uma invasão militar na Venezuela.

"Presidente, espero que nenhum soldado argentino termine em terra venezuelana", advertiu Fernández, admitindo apenas que "a Venezuela tem problemas" e que "são os venezuelanos que devem resolver esses problemas".

Fernández se nega a classificar o regime de Maduro como uma ditadura, enquanto Macri foi o pioneiro na região a acusar o presidente venezuelano de ditador e a pedir a libertação dos presos políticos. Macri relembrou que "a ex-presidente Cristina Kirchner condecorou o ditador Maduro".

Macri só começou a reagir a partir da metade do debate. Quando entrou na briga, teve os seus melhores momentos.

Crise econômica

Fernández criticou o governo por ter destruído a economia, ponto mais fraco de Macri. "Fique sabendo, presidente, que quando terminar o mandato, terá deixado cinco milhões de novos pobres", disparou.

Macri recordou-lhe que, até pouco tempo atrás, Fernández criticava a sua ex-chefe, atual candidata a vice, Cristina Kirchner, por ter destruído a economia.

"Fico surpreso que o candidato fale sobre corrupção e que fui eu quem destruiu a economia, quando ele, até pouco tempo atrás, dizia que foi a presidente Kirchner quem destruiu a economia. Digamos a verdade às pessoas", retrucou Macri.

Fernández acusou Macri de elevar a dívida pública de 38% do PIB para 100%.

O presidente partiu para a única estratégia possível no campo econômico: a de compartilhar a responsabilidade pela crise com a herança recebida. "Dois de cada três pesos de dívida foram para pagar a dívida do governo anterior, e o peso restante foi para cobrir o déficit", disse.

"Sabemos que temos problemas, mas trazer os problemas do passado não nos ajudará. Temos outra cultura de poder e modernizamos a Argentina", defendeu-se Macri, apelando a outros aspectos em que pôde exibir triunfos, como o combate ao tráfico de drogas, o combate à corrupção e a inserção internacional da Argentina, antes isolada do mundo.

"Em sete semestres, não entrou nem um centavo dessas relações internacionais", devolveu Fernández. "Não adianta tirar fotos com líderes mundiais nem com (presidir) o G-20", desdenhou. O candidato da oposição voltou a questionar o acordo comercial assinado entre o Mercosul e a União Europeia e disse que não apoia esse tratado.

Dedo acusador

Outro estratégia de Fernández foi o deboche associado à ideia de que Macri está perdido no que faz. "Talvez o senhor não entenda, presidente", "talvez o senhor não saiba", "talvez não esteja sabendo", repetia, enquanto apontava o dedo indicador na direção de Macri.

No final, o presidente aproveitou o comportamento acusatório de Fernández para evocar a arrogância do candidato, em sintonia com a fama autoritária de Cristina Kirchner. E arrematou: "Infelizmente, vimos que voltou o dedinho acusador, o pedestal, o deboche. O kirchnerismo não mudou. Por mais que se esconda, é mais do mesmo", arrematou Macri.

Terminava assim o primeiro tempo de uma partida que terá um novo encontro dentro de uma semana, na reta final das eleições de 27 de outubro.

"Ao apontar o dedo em riste, Fernández tenta capitalizar toda a raiva popular contra o governo e joga a culpa em Macri. Fernández foi contundente e agressivo. A contundência soma votos, mas não sei se a agressividade soma", ponderou o cientista político Sergio Berensztein.

"Se perguntarmos aos eleitores de Macri quem ganhou o debate, a maioria vai dizer que o presidente ganhou. Se perguntarmos aos eleitores de Fernández quem ganhou, a resposta será Alberto. Não aconteceu nada de excepcional para marcar uma diferença entre um claro ganhador e um claro perdedor", concluiu o analista político Rosendo Fraga.

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