Acessar o conteúdo principal
Chile/Protestos

Medidas anunciadas por Piñera não vão acalmar protestos no Chile, pensa escritor Luis Sepúlveda

Manifestação em Concepción, no Chile, nessa terça-feira 22 de outubro de 2019.
Manifestação em Concepción, no Chile, nessa terça-feira 22 de outubro de 2019. REUTERS/Juan Gonzalez

Novas mortes foram anunciadas nesta quarta-feira (23) no Chile, elevando para 18 o balanço de vítimas nos protestos que sacodem o país. Entre os mortos, um menino de 4 anos, vítima de um motorista bêbado que atropelou um grupo de manifestantes. Entrevistado pela RFI, o escritor chileno Luis Sepúlveda, um dos mais importantes do país, acredita que as medidas anunciadas pelo presidente conservador Sebastián Piñera não vão acalmar os protestos que continuam nesta quarta-feira, dia de greve geral no Chile.

Publicidade

Os principais sindicatos e movimentos sociais convocaram para esta quarta-feira e quinta-feira (24) uma greve geral que ameaça aprofundar os protestos que acontecem há seis dias. A paralisação foi convocada apesar do presidente Sebastián Piñera ter apresentado um pedido de desculpas e anunciado medidas para tentar conter o conflito social.

"Basta de aumentos e abusos!", tuítou a Central Unitária dos Trabalhadores (CUT), a mais influente do Chile. O movimento, apoiado por vários sindicatos de trabalhadores e estudantes, critica a decisão de Piñera de ter decretado estado de emergência e o toque de recolher. Eles também denunciam o emprego de militares para controlar as manifestações, incêndios e saques registrados em Santiago e outras cidades. Segundo novo balanço divulgado hoje pelo subsecretário do Interior, Rodrigo Ubilla, 18 pessoas já morreram, algumas delas a tiros disparados pelas forças de ordem. Esta é a mais grave onda de violência no Chile em três décadas.

"Pedimos que o governo restitua a institucionalidade democrática, que em primeiro lugar significa acabar com o estado de emergência e devolver os militares a seus quartéis", afirmou comunicado divulgado pelos movimentos sociais chilenos na terça-feira (22). Em Santiago, os sindicalistas pretendem se reunir na Praça Itália, epicentro dos protestos. Trabalhadores da área de saúde também devem se unir às manifestações, enquanto os funcionários dos portos pretendem paralisar as cidades costeiras do país.

Continuidade do sistema iniciado na Ditadura

O escritor Luis Sepúlveda, entrevistado pelo jornalista Orlando Torricelli, da redação latino-americana da RFI, critica as medidas adotadas pelo presidente Sebastián Piñera que provocaram os protestos, como o aumento das passagens, e vê na política adotada por esse governo uma continuidade da Ditadura Militar no país:

O escritor chileno Luis Sepúlveda.
O escritor chileno Luis Sepúlveda. DR

“O aumento das passagens de metrô e as reduções fiscais com que ele presenteou os empresários integram mais de 30 anos de abusos; abusos que começaram desde o início da ditadura. O golpe (de 1973) não aconteceu somente para derrubar o governo eleito democraticamente, mas para experimentar um novo sistema econômico neoliberal. O Chile foi o primeiro país a experimentá-lo”, esclarece Sepúlveda.

O escritor espera que a greve geral desta quarta-feira “seja um sucesso e termine bem, sem novos mortos”. Ele quer que os “49% dos idiotas que não votaram na presidencial participem da paralisação” e diz que se pudesse se dirigir diretamente ao presidente pediria que “ele peça demissão, que vá embora com suas riquezas para o inferno, sem passagem de volta”.

Descontentamento social

O Chile é um dos países mais desiguais do mundo. O estopim para os protestos foi o aumento - depois suspenso - de 3,75% do preço da passagem de metrô em Santiago. Como no Brasil em 2013, a medida provocou um movimento muito maior, que agregou outras demandas sociais, como o aumento das aposentadorias do sistema privado, que permanece como herança da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira pelo instituto Ipsos mostra que 67% dos entrevistados "se cansaram de suas condições de vida nas áreas econômica, de saúde e aposentadoria", que consideram "desiguais e injustas".

Abalado pela indignação popular, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, pediu desculpas na noite de terça-feira (22) por sua falta de visão para antecipar a crise que atinge seu governo e anunciou uma série de medidas sociais. "Reconheço essa falta de visão e peço desculpas aos meus compatriotas", disse o presidente em uma mensagem ao país no Palácio Presidencial de La Moneda. O pronunciamento foi uma virada radical no tom de confronto que o governo havia adotado com os manifestantes nos últimos dias e que havia elevado o clima de tensão nas ruas do país.

Concessões do governo

Entre as principais medidas, Piñera anunciou uma renda mínima garantida, com o Estado complementando em 15% os salários mais baixos, para elevá-los a CLP$ 350 mil (US$ 486 dólares) "para todos os trabalhadores com jornada completa (...)" quando o valor recebido for inferior. Ele também anunciou a criação de um mecanismo de estabilização dos preços da energia elétrica, que anulará a recente alta de 9,2% nas contas de luz, "retornando ao valor das tarifas elétricas ao nível do primeiro semestre deste ano".

O presidente propôs ainda um seguro para a compra de medicamentos, em um país onde os gastos com saúde das famílias se situam entre os mais altos dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE).

O papa Francisco expressou nesta quarta-feira sua preocupação com a situação no Chile e fez um apelo por diálogo, ao fim da audiência geral na Praça de São Pedro, em Roma.

(Com informações da AFP)

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.