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Fernández não terá margem de manobra para política econômica de esquerda na Argentina

Alberto Fernández se reuniu com o presidente Mauricio Macri já nesta segunda-feira (28/10/2019), para preparar a trasição na Casa Rosada.
Alberto Fernández se reuniu com o presidente Mauricio Macri já nesta segunda-feira (28/10/2019), para preparar a trasição na Casa Rosada. REUTERS/Ricardo Moraes

A eleição do peronista Alberto Fernandez já no primeiro turno na Argentina deixou claro que os argentinos sancionaram o presidente liberal Mauricio Macri e desejam uma mudança de rumos na gestão da economia, que se encontra em frangalhos. No entanto, a margem de manobra do futuro líder vai ser limitadíssima: Fernandez tentará implementar receitas de centro-esquerda num país afundado em dívidas e com uma inflação acumulada que pode chegar a 60% no fim do ano.

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“Ele quer reorientar o modelo mais em direção à demanda, o mercado interno. Mas ele terá limitações muito fortes de orçamento. O problema do financiamento e dos investimentos externos permanece muito grande para conseguir controlar a inflação e poder imaginar medidas para diminuir a pobreza e aumentar o poder aquisitivo”, sublinha o pesquisador franco-argentino Dario Rodríguez, do Observatório Político da América Latina e do Caribe da Sciences Po, de Paris. Em setembro, a pobreza atingiu inéditos 35% da população.

Durante a campanha eleitoral, Fernández transmitiu um discurso apaziguador, orientado ao centro e insistindo sobre o projeto de renegociar os prazos e os juros da dívida astronômica com o Fundo Monetário Internacional (FMI), de US$ 56 bilhões, que sufoca os caixas do país.

No entanto, ninguém sabe até que ponto a ex-presidente Cristina Kirchner, eleita na chapa como vice-presidente, influenciará na nova gestão. O perfil intervencionista de Cristina é o maior pesadelo das instituições e credores internacionais.

“Não sei se Fernández tem muita opção, porque a inflação já é galopante, o mercado internacional não tem confiança na Argentina – e se a Cristina realmente mandar nos bastidores, vai confiar ainda menos. Para completar, a conjuntura internacional não ajuda nada atualmente”, observa o economista Gabriel Gimenez-Roche, professor da Neoma Business School, da capital francesa.

Sem maioria no Parlamento, Fernandez terá de negociar

O economista argentino Carlos Winograd, que dá aulas na Paris School of Economics (PSE), ressalta que, a despeito da ausência de um passado eleitoral - Fernández jamais passou pelo crivo das urnas -, o novo presidente é um grande articulador político. A experiência será crucial para um governo que não terá maioria parlamentar.

Ele também poderá se beneficiar de alguns ajustes iniciados por Macri, que baixou o déficit de conta corrente de 5 para 1,5% do PIB. A taxa de câmbio também se encontra em patamares mais competitivos, indica. “A macroeconomia teve um ajuste importante no último um ano e meio, e isso, hoje, pode ser um ativo para Fernández. Parte do ajuste fiscal para dar sustentabilidade à economia e reduzir a necessidade de endividamento já foi feita. Mas isso dá um grau de liberdade para uma política expansiva muito limitado", afirma Winograd.

“Outra frente que está aberta é a da negociação internacional. O FMI tem interesse em resolver essa situação: seria inteligente das duas partes promoverem uma negociação em especial para reestruturar os prazos de pagamento”, diz.

Mercosul ameaçado

A interação com o seu maior parceiro regional, o Brasil, também é uma incógnita. Fernandez e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, trocaram farpas antes e depois da eleição argentina. Brasília chegou a evocar a possibilidade de se retirar do Mercosul ou trabalhar para afastar Buenos Aires do bloco – medidas que seriam desastrosas para os dois lados, frisa Gabriel Gimenez-Roche.  

“Acredito que ele poderia adotar uma postura hostil à Argentina, sobretudo se a Cristina Kirchner realmente se mostrar como a verdadeira autoridade por trás do novo governo. O problema é que os dois países são muito dependentes um do outro: como país isolado, a Argentina é o maior mercado brasileiro, assim como a Argentina depende de muitos produtos brasileiros”, explica o economista da Neoma Business School. “Se o Mercosul cai, ambos começarão a adotar protecionismo e não vai ser bom para ninguém.”

Carlos Winograd acrescenta que, diante da conjuntura internacional desfavorável, a melhor estratégia é encontrar integrações inteligentes, “a começar pela própria casa” – que, para o Brasil e a Argentina, significa o Mercosul.

“Em algum momento, tem que primar os homens de Estado, e não os políticos em campanha. Os dois países têm muito a ganhar jogando juntos na cena internacional, ainda mais no cenário atual, com conflitos comerciais entre Estados Unidos e China e com a instabilidade financeira ligada à intensa globalização financeira”, pontua o professor da PSE. “A construção e o desenvolvimento do Mercosul é fundamental para o bem-estar desses países.”

Os analistas ouvidos pela RFI consideram precipitado associar a eleição de Fernandez na Argentina e os protestos contra as desigualdades sociais no Chile a uma mudança de rumos políticos e econômicos na América Latina. As realidades dos países, frisam, são profundamente distintas e não podem ser comparadas no momento atual.

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