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Linha Direta

Congresso americano começa a votar trâmite de impeachment do presidente Donald Trump

Áudio 04:34
Trump pode ser primeiro presidente americano candidato à reeleição a sofrer impeachment em mais de 100 anos.
Trump pode ser primeiro presidente americano candidato à reeleição a sofrer impeachment em mais de 100 anos. REUTERS/Joshua Roberts

O processo de impeachment do presidente Donald Trump deve ter suas regras votadas em plenário nesta quinta-feira (31). O anúncio foi feito pela líder da Câmara americana, Nancy Pelosi, surpreendendo republicanos e agitando o clima do Congresso. A instauração do processo deve ter impactos diretos nas eleições primárias dos democratas e seu resultado pode ameaçar a maioria do partido na Câmara.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI de Washington

De acordo com uma pesquisa da Suffolk University/USA Today divulgada esta semana, 36% dos eleitores são a favor da instauração do impeachment, 22% acham que a Câmara apenas deve continuar com a investigação, 37% dizem que a Câmara deve desistir do processo, e 5% não se posicionaram.

Esta será a primeira vez em mais de 100 anos que um presidente americano que irá concorrer à reeleição passa por um processo como esse. Richard Nixon – que renunciou em 1974, antes de sofrer impeachment – e Bill Clinton – que sofreu impeachment em 1998, mas que não foi removido da Casa Branca pelo Senado – estavam no seu segundo mandato.

A decisão pela votação contraria a opinião republicana de que o impeachment seria apenas “uma farsa da oposição”. O partido alegava, desde que a investigação foi iniciada, há pouco mais de um mês, que o processo era injusto e ilegítimo, por não respeitar as convenções do Congresso, inclusive por ainda não ter sido submetido à votação. Mas, no início desta semana, Pelosi virou o jogo.

Mesmo assim, os adversários da deputada pela Califórnia ainda insistem que tudo não passa de uma encenação, sem nada de concreto, uma vez que a votação não é pelo impeachment de Trump, mas apenas pelas regras de um possível processo. Os defensores do presidente americano também alegavam que a investigação, liderada por Adam Schiff, deputado pelo estado da Califórnia que preside o Comitê de Inteligência da Câmara, lembra um processo da antiga União Soviética, pois seria realizado “em um porão e a portas fechadas”, sem representação do acusado.

As regras que começam a ser votadas nesta quinta-feira no plenário permitiriam, por exemplo, que os republicanos interrogassem as testemunhas implicadas no processo. Mas, para o desgosto da defesa de Trump, essa é uma questão que também passa pela aprovação de Schiff.

Esta semana, o líder do Senado americano, Mitch McConnell, chamou a votação de um “processo bizarro”, fazendo coro àqueles que a entendem como apenas uma ameaça. Além disso, mesmo que o impeachment seja aprovado pela Câmara, o Senado – de maioria republicana – ainda precisa votar pelo seu processo e pela remoção do presidente. Algo improvável de acontecer.

Opinião pública favorável ao impeachment

Este é um jogo arriscado para os dois lados. Apesar de liberais e conservadores afirmarem estar lutando pelos valores da nação, as atenções estão intensamente voltadas ao cálculo político. Provavelmente não faltarão campanhas acusando membros do Congresso de não se posicionarem contra Trump, assim como também não faltarão acusações de que o processo de impeachment foi uma tentativa de golpe por parte dos democratas.

Pelo menos seis deputados democratas não estão posicionados a favor do impeachment, pois estes vêm de distritos que elegeram Trump. Alguns deputados republicanos, que não concorrerão à reeleição em 2020, ainda não descartaram seu apoio à instauração do processo. Até pouco tempo, considerava-se praticamente impossível que o Senado, de maioria republicana, votasse pelo afastamento de Trump. Agora, isso passou a ser considerado apenas “improvável”, principalmente porque, pelo menos por enquanto, a opinião pública se mostra favorável ao impeachment. Além disso, há republicanos, como o senador e ex-candidato à presidência Mitt Romney, que são da turma do partido que não esconde que detesta o presidente.

Os democratas estão apostando que as audiências públicas de investigação na Câmara prejudicarão a imagem de Trump, impedindo sua reeleição. Mas esse plano pode dar errado. Os republicanos estão preparando munição para o contra-ataque. Eles inclusive já estão colocando em dúvida a imparcialidade e mesmo a relevância das acusações que justificariam o impeachment do presidente, feitas por um informante anônimo e pelo Coronel Alexander Vindman, que prestou depoimento ao Congresso esta semana.

Acusação contra Trump

Trump é acusado de ter condicionado ajuda para a defesa da Ucrânia na investigação do seu rival político Joe Biden, vice de Barack Obama, em conversa telefônica com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em julho passado.

Na última quarta-feira (30), a identidade do provável informante foi divulgada pelo site RealClearInvestigations, que acrescentou que a fonte em questão é democrata e já trabalhou para Biden. Já o testemunho de Vindman, ex-assessor da Casa Branca que estava presente durante a ligação, está sendo descartado, considerado irrelevante.

De acordo com os defensores de Trump, o testemunho apenas mostra que o coronel – que é registrado como democrata, nasceu na Ucrânia e imigrou para os EUA aos três anos de idade – discorda da política externa do presidente, e não oferece nenhuma prova de que a conduta de Trump justifique seu impeachment.

Mesmo com o fim da Guerra Fria, há um consenso em Washington de que a Rússia sempre deve ser contida e, portanto, a ajuda à capacidade militar da Ucrânia não deve ser contestada. O estilo de Trump pouco fiel a convenções certamente causa ansiedade ao establishment da capital americana, mas os defensores do presidente ressaltam que uma nova visão de política externa não deve ser necessariamente vista com desconfiança.

Os últimos acontecimentos indicam que os democratas vão tentar manter a sombra do impeachment sobre Trump pelo máximo de tempo possível, e isso pode afetar as campanhas dos pré-candidatos democratas. O processo ainda deve estar em andamento durante as eleições primárias do partido, que começam no início de fevereiro. Muitos dos pré-candidatos são membros do Congresso, sendo que dois dos preferidos nas pesquisas, Elizabeth Warren e Bernie Sanders, são senadores. Eles provavelmente não vão gostar de estarem presos no Congresso durante o procedimento de impeachment, em vez de estarem fazendo campanha em estados importantes, como Iowa, New Hampshire, Nevada e Carolina do Sul.

Assim, o campo ficará livre para Biden, que lidera as pesquisas, tornando o cenário difícil para os democratas. Apesar de Biden ser um personagem bem conhecido dos eleitores e talvez por isso mesmo se destacar nas pesquisas, sua campanha está perdendo contribuições financeiras em ritmo acelerado. Muitos dentro do partido temem que o candidato de 76 anos não possa vencer Trump, pois é pouco inovador, além de frequentemente fazer comentários inconvenientes ou mesmo sem sentido.

Além disso, Obama por enquanto evita sequer mencionar o candidato que foi seu vice por oito anos, o que não é um bom sinal para Biden. Com tudo isso, ainda não se pode saber qual lado vai ser mais prejudicado pelo processo de impeachment.

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