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Crise na Bolívia

Analistas: saída de Morales não foi golpe e ex-presidente paga por erros políticos

Manifestantes atrás de uma barricada perto da praça Murillo, em 11 de novembro de 2019, em La Paz (Bolívia).
Manifestantes atrás de uma barricada perto da praça Murillo, em 11 de novembro de 2019, em La Paz (Bolívia). REUTERS/Marco Bello

As incertezas sobre o futuro da Bolívia permanecem: fracassou uma tentativa de reunião da Assembleia nesta segunda-feira (11), que poderia estabelecer o princípio da transição do poder no país. O ex-presidente Evo Morales, que renunciou no domingo (10) por pressão dos militares, viajou para o México, onde pediu asilo político.

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No entanto, desde a saída do poder do mais antigo dirigente no cargo na América Latina, as Forças Armadas não sinalizaram ter a intenção de ocupar a cadeira vazia no Palácio Presidencial em La Paz. Na visão de dois analistas ouvidos pela RFI, o fim antecipado do mandato de Morales não configura um golpe de Estado – ao contrário do que afirmam aliados do ex-presidente na região e no mundo.

Christine Delfour, especialista em Bolívia
Christine Delfour, especialista em Bolívia Captura de tela

“Se fosse golpe, o Exército estaria tomando conta do território. É uma insurreição popular porque Evo Morales fez manobras constitucionais ao realizar um referendo para poder disputar um quarto mandato”, resume Christine Delfour, professora de Civilização Latino-americana Contemporânea da Universidade Paris-Est Marne-La-Vallée, especialista na Bolívia.

Ela lembra que, desde a consulta popular de 2016, quando a maioria da população optou por não autorizar Morales a se candidatar pela quarta vez, até os movimentos sociais, maiores aliados do ex-presidente, passaram a abandoná-lo. “Outras lideranças sindicais e do Movimento pelo Socialismo poderiam ter emergido, mas Evo nunca deixou ninguém se destacar mais do que ele”, sublinha.

Legado abalado por apego ao poder

O sociólogo boliviano Hugo José Suárez, da Universidade Nacional Autônoma do México e pesquisador convidado do Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL) da Sorbonne Nouvelle, concorda. Para ele, Morales agora paga por vários erros políticos cometidos desde a proposta de referendo.

“Morales construiu coisas muito importantes e fundamentais na história da Bolívia, e teve a oportunidade de deixar o poder com este legado. Redistribuição de renda, economia e política estáveis, reformas de saúde e educação importantes. O processo de mudança e desenvolvimento do país estava funcionando muito bem”, ressalta o pesquisador. “Mas ele cometeu muitos erros políticos e está pagando pela desconfiança que gerou no povo, como o referendo de 2016. Depois, foi presidente e candidato ao mesmo tempo, usando toda a estrutura de Estado para a sua campanha”, explica o sociólogo boliviano.

Até agora, Exército cumpre papel constitucional

O clima político está acirrado. Os protestos continuam e apoiadores do ex-presidente são perseguidos em todo o país. Estes, por sua vez, exigem “a cabeça” de líderes opositores como Carlos Mesa, o candidato derrotado nas eleições de outubro, e Luís Fernando Camacho, que tentava forçar Morales a assinar uma carta de renúncia desde que a sua vitória foi anunciada, em outubro.

Sociólogo Hugo José Suárez, Universidade Nacional Autônoma do México e pesquisador convidado do Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL) da Sorbonne Nouvelle.
Sociólogo Hugo José Suárez, Universidade Nacional Autônoma do México e pesquisador convidado do Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL) da Sorbonne Nouvelle. Captura de vídeo

A pedido da polícia, as Forças Armadas foram enviadas às ruas para evitar confrontos e proteger instituições nacionais. “O Exército cumpre o seu papel constitucional, e é reconfortante que ele esteja fazendo isso. Não costuma ser o caso, na história da Bolívia”, sustenta Delfour, autora de “L'invention nationaliste en Bolivie : une culture politique complexe” (“Invenção nacionalista na Bolívia: uma cultura política complexa”, em tradução livre).

Calendário eleitoral

Agora, resta o desafio da transição democrática. Depois da renúncia de toda a cúpula política do país, a segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, é a primeira na linha de sucessão. Cabe a ela ocupar o poder e organizar a realização de novas eleições, prometidas para antes de 22 de janeiro de 2020, quando encerram os mandatos em curso.

"Vamos convocar eleições com personalidades comprovadas, que realizem um processo eleitoral que reflita o desejo e o sentimento de todos os bolivianos", disse a senadora à imprensa na entrada da Assembleia Legislativa de La Paz, nesta segunda-feira (11).

No entanto, na primeira reunião dos parlamentares após a saída de Evo, manifestantes que apoiam o ex-presidente atrapalharam a sessão e Áñez teve de ser retirada às pressas da Assembleia Nacional, que foi evacuada.

“A prioridade é a Assembleia funcionar corretamente agora, para que um processo eleitoral limpo seja realizado e a confiança das pessoas nas instituições democráticas seja recuperada”, frisa Suárez. “O procedimento precisa ser perfeitamente legítimo. O papel do Exército não é determinar quem deve ocupar o poder, mas sim respeitar a Constituição.”

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