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Brasil/Protestos

Para Le Monde, protestos revelam que “milagre econômico” do Brasil entrou em pane

Capa do jornal Le Monde desta terça-feira, 18 de junho.
Capa do jornal Le Monde desta terça-feira, 18 de junho. lemonde.fr

A onda de manifestações que se espalhou pelo Brasil na noite desta segunda-feira e a crise do modelo econômico do país ganharam a manchete do jornal vespertino francês. Ilustrada com uma foto de uma agência bancária completamente destruída no Rio de Janeiro, a reportagem de página inteira do Le Monde mostra como a contestação social contagiou os brasileiros e revela a indignação deles com a alta do custo de vida e a qualidade dos serviços públicos no país  enquanto se gasta uma verdadeira fortuna com os eventos esportivos que o Brasil vai sediar.

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O jornal se refere ao movimento como uma maré humana que varreu todo o Brasil. Nunca houve uma manifestação tão grande desde o final da ditadura em 1985 e contra a corrupção na época do impeachement do ex-presidente Fernando Collor, lembra o Le Monde.

Em quase todas as médias e grandes cidades brasileiras os manifestantes, na maioria jovens, se uniram para denunciar a alta de preços dos transportes públicos e as despesas colossais feitas com a organização do Mundial de 2014, escreve o jornal.

Os protestos, que fontes diversas disseram ter reunido cerca de 350 mil pessoas, foi crescendo durante a noite, escreveu o Le Monde. A polícia se manteve discreta e distante dos manifestantes, mas houve violência em vários locais, escreveu o jornal ao mencionar os ataques contra o Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, e contra a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.

Para o jornal, certamente um dos pontos altos dos protestos foi o momento em que um grupo de 200 jovens subiru no teto do Congresso Nacional sob o olhar incrédulo dos policiais. Foi “uma imagem forte e simbólica da noite de cólera, que ultrapassou o contexto do aumento dos preços do transporte público”, diz o jornal. Além das palavras de ordem contra os políticos e cantos de trechos do hino nacional, os cartazes com os dizeres “O Brasil acorda” chamou a atenção do enviado especial do vespertino à Brasília.

O jornal destaca uma frase de um estudante de 23 anos criticando os investimentos em eventos esportivos enquanto o país precisa melhorar os sistemas de saúde e educação.

Le Monde também reproduziu diversas declarações de políticos como o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que defendeu o preço das passagens por motivos técnicos, e do ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, criticando os manifestantes.

A afirmação do presidente da FIFA, Joseph Blatter, de que o futebol era mais forte do que a contestação das ruas provocou ainda mais revolta, avalia o jornal.

Frustração

Em sua análise, o correspondente do Le Monde no Brasil afirma que as despesas "suntuosas" com a Copa atraíram a frustração da população. O que se vê no país do futebol é que a cada dia aumenta o número de brasileiros que se irritam com as somas gigantescas investidas para organizar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, enquanto os serviços públicos se encontram num estado lamentável.

Segundo o artigo, os brasileiros acreditaram nos discursos de que os eventos iriam trazer desenvolvimento para o país, mas uma conjunção de fatores contribuiu para "destruir" essa expectativa e revelar as falhas das instituições e da infraestrutura do país.

O aumento de 20 centavos no preço da passagem de ônibus, seguida de uma repressão violenta da polícia nas manifestações, foi o estopim de um contexto explosivo, sugere o jornal ao lembrar que a economia do país entrou em uma espiral negativa, trazendo de volta até o fantasma da inflação.

As acusações das autoridades políticas e de alguns órgãos de imprensa de que os manifestantes era vândalos se somaram a uma revolta já em curso, o que fez o Le Monde evocar as semelhanças com a Turquia, país onde as autoridades denunciaram o vandalismo, o que desencadeou mais violência.

País protecionista

Em outro artigo, o Le Monde analisa a situação brasileira sob o ponto de vista econômico e começa dizendo que a presidente Dilma Rousseff não tem a habilidade que teve seu antecessor, o ex-presidente Lula. Basta olhar os números do crescimento, escreve o Le Monde ao lembrar os 7,5% de crescimento do PIB em 2010 e a queda para 0,9% no ano passado.

O jornal aponta como um dos erros graves do governo o aumento dos impostos sobre as importações, que fez o Brasil mostrar que é muito mais protecionista que a vizinha Argentina. Justamente no momento que o país precisa de dinheiro para realizar as obras necessárias para acolher a Copa de 2014 e as Olimpíadas, o Brasil vive o risco de uma fuga de capitais. Ao invés de dar sinais de abertura à sua economia para atrair investidores, o governo está fazendo o contrário, avalia o articulista Alain Fujas. Um economista citado no artigo afirma que o governo brasileiro deu “um tiro no pé”.
 

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