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Brasil

Parcialidade da grande imprensa ameaça democracia brasileira, dizem especialistas

Capa de alguns jornais brasileiros do dia 18 de abril, depois da aprovação da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados.
Capa de alguns jornais brasileiros do dia 18 de abril, depois da aprovação da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados. Miguel Schincariol / AFP

A controversa cobertura da crise política brasileira pelos maiores meios de comunicação do país está no alvo de críticas de especialistas e profissionais da mídia. Para os jornalistas ouvidos pela RFI, não há dúvidas sobre a parcialidade da cobertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff que, além de resultar na falta de credibilidade da informação, ameaça a própria democracia do Brasil.

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“Alguns órgãos de comunicação, como a revista Veja e a Rede Globo, demonstraram um engajamento claro na defesa do impeachment, o que, em alguns momentos, transformou o jornalismo destes grupos em verdadeiros panfletos”, avalia o professor Dennis de Oliveira, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA-USP).

Para ele, a visão "panfletária" da grande imprensa tem contribuído para se deslegitimar e acirrar ainda mais a opinião pública. "Nesse debate sobre a crise há ofensas, agressões, acusações, mas não verdadeiros argumentos. Então, a longo prazo, a credibilidade dos jornalistas pode, sim, ser afetada. Mas, o mais grave é a que a grande mídia prejudica, desta forma, a democracia brasileira”, analisa.

O país dos trinta Berlusconis

A parcialidade da grande mídia na cobertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff é algo que vem preocupando organizações que militam pela liberdade de imprensa, como a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Na edição deste ano de sua Classificação Mundial de Liberdade de Imprensa, o Brasil, que aparece em 104° lugar entre 180 países, é lembrado como a nação onde os maiores meios de comunicação seguem nas mãos de poderosas famílias próximas da classe política.

Em 2013, em um relatório sobre os desequilíbrios e obstáculos dos meios de comunicação brasileiros, a ONG descreveu o Brasil como “o país dos trinta Berlusconis” que “dominam as plataformas de comunicação de todo o território” e impedem que “os meios de comunicação sejam independentes dos centros de poder”.

Ao comentar a posição do Brasil no ranking de 2016, a ONG diz que o tratamento que os meios de comunicação deram à crise política no país mostra que “os principais meios convidaram sua audiência de maneira dissimulada a ajudar na queda da presidente Dilma Rousseff”.

“Percebemos uma clara distorção no tratamento da informação e uma falta de objetividade evidente que contribuíram para a polarização da sociedade”, diz o chefe do Departamento América Latina da RSF, Emmanuel Colombié. Para ele, é inegável que a cobertura da crise política pelas grande imprensa brasileira é direcionada à saída de Dilma Rousseff da presidência.

Para Colombié, isso vai até mesmo de encontro ao principal dever do jornalismo, que é informar. Ele lembra, por exemplo, que na semana que antecedeu a votação da abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, uma pesquisa do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP, revelou que três das cinco matérias mais compartilhadas por brasileiros no Facebook eram falsas. “Isso mostra a desinformação da própria população sobre o que acontece no Brasil, o que é um verdadeiro perigo para a democracia”, conclui.

Jornalismo pode ser imparcial?

Ao contrário de boa parte dos veículos internacionais, como os grandes jornais franceses Le Monde, Le Figaro e Libération, no Brasil, os grandes meios de comunicação ainda defendem a ideia de que fazem jornalismo imparcial. Um conceito inexistente, para o jornalista Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa. “Não existe isenção absoluta no jornalismo. Por outro lado, é possível fazer uma cobertura equilibrada”, defende.

Castilho acredita que seja difícil desconstruir esse antigo discurso do jornalismo, que data de antes do advento da internet, no qual ouvir “os dois lados” de cada história era suficiente para justificar a objetividade. “Mas hoje já não podemos fazer isso porque, em cada história, temos muitos lados. O que acontece é que o jornalismo ainda não se adaptou a essa nova realidade”, ressalta.

A falta de reflexão nas redações

Na semana passada, em editorial, o jornal francês Le Monde se questionou se sua cobertura sobre a crise na política brasileira estava apenas ecoando os principais jornais do Brasil. A dúvida surgiu depois que o diário recebeu dezenas de cartas de brasileiros e franceses vivendo na França e no Brasil, criticando a parcialidade da correspondente no país, Claire Gatinois.

Le Monde também reconheceu e lamentou que o editorial de 31 de março, intitulado "Brésil: ceci n'est pas un coup d'Etat" (Brasil: isto não é um golpe de Estado, em tradução livre), não tenha sido equilibrado, em especial por ter omitido que os apoiadores do impeachment são acusados de corrupção, a começar por Eduardo Cunha, presidente da Câmara, assim como por não ter considerado suficientemente a parcialidade da imprensa nacional.

No Brasil, essa reflexão dentro das redações está longe de acontecer. Os próprios jornalistas percebem que falta uma discussão mais aprofundada sobre o trabalho que desempenham. O sub-editor de Política de um dos principais sites de notícias do Brasil, que prefere não ser identificado, diz que “institucionalmente, as reflexões não têm sido críticas; poucos veículos têm abordado essa questão". Ele acrescenta que "alguns meios, mais ligados à esquerda, como a Carta Capital, fazem uma crítica maior em relação a esta cobertura, mas, obviamente, cada veículo segue o que estabelece sua linha editorial”.

Fora do espectro dos grandes grupos de comunicação, meios independentes parecem ser os únicos a marcarem sua posição, como explica a repórter Katia Passos, do Jornalistas Livres. “Eu diria que mais do que um apoio, as grandes mídias estão patrocinando um golpe de Estado no Brasil. Lutar contra isso e desconstruir o discurso delas é uma tarefa muito difícil. Mas o poder de alcance que têm é tão grande que encontramos muitas dificuldade para chegar ao mesmo patamar dessa mídia golpista”, diz.

A repórter ressalta a tradição dos brasileiros de se informar unicamente pela imprensa tradicional e a influência que a televisão ainda exerce no público. Além disso, ela nota a falta de reflexão da população sobre a informação que consome, independentemente da classe social à qual pertence. “Em qualquer matéria da revista Veja que fale sobre o processo de impeachment, por exemplo, as pessoas fazem comentários horrorosos, preconceituosos, sexistas. Isso acontece justamente porque as pessoas acreditam naquela informação sem raciocinar. E isso demonstra também uma falta de responsabilidade muito grave das grandes mídias, que incitam esse tipo de comportamento”, conclui Passos.

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