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Brasil/Política

"Cassação de Cunha pode ser fim de um ciclo político", diz analista francês

Eduardo Cunha esgotou os recursos para adiar o início da votação da cassação de seu mandato pelo Congresso.
Eduardo Cunha esgotou os recursos para adiar o início da votação da cassação de seu mandato pelo Congresso. José Cruz/ Agência Brasil

Nesta segunda-feira (12), a Câmara dos Deputados do Brasil decide se o deputado afastado Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro, será cassado ou não. Como essa possível cassação pode impactar no governo atual, na opinião pública e na imagem do país no exterior? A RFI Brasil ouviu analistas estrangeiros sobre o tema.

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A causa do afastamento e da votação para a cassação do mandato de Eduardo Cunha é ter mentido sobre a existência de contas secretas no exterior em seu depoimento à CPI da Petrobras, no ano passado. Ele fez a  declaração alguns meses do Ministério Público da Suíça divulgar a existência de contas no nome dele no país. O processo disciplinar tramita há dez meses no Conselho de Ética.

Para o geógrafo Hervé Théry, diretor de pesquisas emérito do CNRS da França (Centro Nacional de Pesquisa Científica) e professor convidado da USP, a cassação de Cunha, que desencadeou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, faz a balança pesar a favor da ex-presidente: "Na verdade, o próprio Cunha declarou que se o cassarem, isso dá razão para o PT, pois o afastando reforçam a tese do PT de que houve golpe".

Mas, para o especialista, isso é um elemento a mais em uma discussão puramente histórica, ou seja, se foi ou não foi golpe, pois o fato está consumado: "Mas alimenta a tese do golpe se a pessoa que lançou o processo for cassada. De qualquer maneira, o fato histórico da Dilma ter sido afastada por um corrupto para ser substituída por outro corrupto, não é a melhor coisa do mundo para a democracia.

Enfocando a corrupção que reina no mundo político brasileiro, Théry reflete que roubalheira existe há muito tempo, "não começou nem hoje nem há 13 anos, mas tem na sociedade brasileira uma vontade de não tolerar mais. "O que era admitido, tolerado, hoje é inaceitável. E, tecnicamente, as medidas tomadas durante os anos do PT deixaram a justiça mais independente. Pode ser parte de um processo de rejeição e limpeza que não termina agora, mas mostra claramente que toda a política brasileira está alimentada por um Caixa 2, produto de propina e corrupção", observa, lembrando que para se financiar campanhas eleitorais, foi estabelecida a prática de se roubar para o bem do partido. "Estados Unidos, França, todas as democracias que têm sistemas para evitar a corrupção, tiveram corrupção. Tem um momento em que a opinião pública é mais exigente, é preciso passar por um processo doloroso de exposição, vai doer para muita gente", diz o analista, para quem é preciso "continuar a limpeza". "Hoje o Brasil tem desafios: restabelecer a imagem, a confiança dos consumidores... não sei se chegamos ao fundo do poço, mas temos que passar pelo pior para se chegar ao melhor", conclui Hervé Théry.

Cassação pode ser útil para a opinião pública

O cientista político Gaspard Estrada, especialista em América Latina, pensa que se Cunha for cassado vai ser o fim de um ciclo político.

"O próprio Eduardo Cunha se beneficiou muito do vácuo de poder que existiu no segundo mandato da presidente Dilma por causa da falta de habilidade política dela. De um certo jeito, ela contribuiu para dar mais força a Eduardo Cunha. Primeiro, cedendo a liderança em 2013 e, em segundo lugar, quando tentou barrar sua candidatura à presidência à Câmara em 2015, o que foi um erro político. A partir daí ele usou os recursos para atrapalhar o governo dela e quando viu que a sua situação estava cada vez mais complexa do ponto de vista jurídico, utilizou a presidência da Câmara para lançar o processo que acabou na destituição. Desse ponto de vista, é o fim deste ciclo político", afirma Estrada, ressaltando que hoje o próprio Michel Temer não quer estar vinculado à imagem do deputado afastado: "O fato dele ser cassado pode ser bom para o governo, que não quer estar vinculado a ele".

Mesmo com a cassação de Eduardo Cunha, o Brasil continua com um congresso endemicamente corrupto. E então? "O problema do impeachment não muda nem os problemas do Brasil nem a corrupção, mas a cassação pode ser útil para a classe política dar um sinal à opinião pública, pois estamos punindo os corruptos, simbolizados por Eduardo Cunha, mas isto não muda nada, pois há centenas deles esperando ser julgados na Operação Lava Jato. Eu sou pessimista, embora a cassação do Eduardo Cunha seja um bom sinal", observa.

Sobre o impacto da imagem internacional do Brasil, Gaspard Estrada acha que a cassação pode melhorar a opinião estrangeira, mas por apenas um dia. "A classe política continua a mesma, o Congresso continua o mesmo, acho que ainda há muita disputa política pela frente nos próximos meses entre as classes que governam o Brasil há décadas", conclui o especialista.

Cunha: unanimidade rara entre governo e oposição

"Eduardo Cunha ainda tem muito apoio na Câmara, foi um grande articulador, ajudou muitos deputados nas campanhas, ele ainda tem esse poder, mas acho importante para os dois lados do conflito sobre o impeachment da Dilma que Cunha saia. Para Michel Temer é importante para o seu governo não ser associado a ele, com as alegações de corrupção. Mas também para as pessoas contra o governo atual é mais do que importante, simbolicamente, tirar esse ex-presidente da Câmara que representa tanto os vícios da política brasileira". Esta é a opinião de Anthony Pereira, diretor do King's Brazil Institute, do King's College, de Londres.

O analista acredita que há um consenso grande de que Cunha é uma afronta às aspirações do povo brasileiro sobre o que a política deve ser em sua terra. "Eu vejo a cassação como um passo importante, mas não final, se Temer quiser mostrar que não está lá para barrar as investigações da Lava Jato".

Anthony Pereira também pensa que é muito importante para o Brasil que a autonomia e a abrangência dessa investigação seja vista fora do país como uma coisa ampla, que vá continuar. "Não é só o Cunha, mas sua figura, que é tão notória, que pode ajudar a mostrar que a luta contra a corrupção pode ser efetiva, acabar com um mandato e não acabar em 'pizza', como tantas vezes no passado", destaca o analista britânico. Para Anthony, preservar Cunha depois da destituição de uma presidente com muito menos evidência de corrupção pessoal seria uma desigualdade gritante.

A votação da cassação pela Câmara dos Deputados requer a presença de 420 do total de 513 deputados.

 

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