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Le Monde/Mariana

"Samarco deveria falar menos e agir mais", diz vítima de Mariana a jornal francês

Bento Rodrigues, Município de Mariana, Minas Gerais, alguns dias após rompimento da barragem da Mineradora Samarco 19/11/15
Bento Rodrigues, Município de Mariana, Minas Gerais, alguns dias após rompimento da barragem da Mineradora Samarco 19/11/15 Rogério Alves/TV Senado

Com muitos testemunhos locais e análises de especialistas, o jornal francês Le Monde revisita a região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, afetada há um ano pelo rompimento da barragem do Fundão, com dejetos da empresa mineira Samarco. A tragédia engoliu três vilarejos e matou 19 pessoas.

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 A correspondente Claire Gatinois abre a reportagem com o relato de José do Nascimento de Jesus, de 71 anos, que perdeu dois filhos na tragédia. Do seu vilarejo, Bento Rodrigues, de 600 habitantes, praticamente só restaram as paredes enlameadas de uma igreja do século 16, monumento histórico que arqueólogos tentam restaurar com muito cuidado.

Hoje José vive com a mulher temporariamente em Mariana, a uns 20km de Bento Rodrigues, à espera de que possam voltar. “Eles [Samarco] deviam falar menos e agir mais”, diz. “Tivemos que correr para não morrer”, diz sua mulher.

Lixo engole cidades e vidas

Em alguns minutos do dia 5 de novembro de 2015, 32 milhões de metros cúbicos de dejetos engoliram Bento Rodrigues, Gesteira e Paracatu de Baixo, além de atingir parte de Barra Longa. As águas do Rio Doce e seus afluentes foram poluídas por resíduos químicos perigosos. A Samarco, aliança das gigantes mineradoras Vale, do Brasil, e a anglo-australiana BHP Billiton foi responsabilizada por “crime ambiental”.

Entrevistado por Le Monde, o delegado regional da polícia civil Rodrigo Bustamente, responsável pelas investigações, lembra que desde 2008 a barragem já apresentava problemas, ignorados pela Samarco. Bustamente também cita um documento interno datado de abril de 2015, alertando sobre o risco de um rompimento que poderia causar até “20 mortos”. A isso, o delegado acrescenta os instrumentos de vigilância defeituosos e a ausência de alarmes.

A Samarco apresentou suas desculpas 17 dias depois do acidente. Agora, a empresa e seus acionários refutam as acusações e são reticentes a colaborar, apesar de um acordo assinado para liberar R$ 20 bilhões em 15 anos para recuperar o vale.

Campanha publicitária para mascarar crime

O jornal francês lembra também que três meses depois da tragédia, a Samarco lançou uma pesada campanha de publicidade na televisão para melhorar sua imagem. E às vésperas do aniversário fatídico, a empresa blindou seu setor de comunicação e adiantou indenizações.

Le Monde falou ainda com a professora de História Laura de Mello e Souza, especializada na história de Minas Gerais. Ela lembra que a destruição do meio ambiente na região é tão antiga quanto a atividade mineira, citando como exemplo o explorador e botânico francês Auguste de Saint-Hillaire, que em documentos de 1740 a 1760, falava sobre a maneira que os exploradores ocupavam o solo, com queimadas e desmatamentos.

Enquanto a Samarco aguarda com ansiedade a volta às atividades na região, no último dia 27 de outubro, o grupo Vale anunciou um lucro trimestral de US$ 575 milhões.

 

 

 

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