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Carne bovina não ficará de fora de acordo comercial entre Mercosul e UE

Debate "Acordo Mercosul-União Europeia: Quais perspectivas econômicas?", realizado na embaixada brasileira, em Paris.
Debate "Acordo Mercosul-União Europeia: Quais perspectivas econômicas?", realizado na embaixada brasileira, em Paris.

A embaixada brasileira, em Paris, organizou, nesta segunda-feira (20), um debate sobre o tratado de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Negociadores sul-americanos, economistas e empresários franceses conversaram sobre as principais medidas, dificuldades e consequências do possível tratado. Segundo uma fonte ligada às negociações, não haverá acordo sem a inclusão da carne bovina sul-americana.

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Durante quase duas horas de discussão, o clima era de otimismo. Apesar da onda de protecionismo vivida na Europa com o Brexit - a saída do Reino Unido da UE - e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, os embaixadores e negociadores chefes do Brasil e da Argentina acreditam que as discussões possam, enfim, chegar a um consenso entre os dois blocos.

“Há 15 anos que eu estou envolvido nas negociações e eu nunca percebi um clima tão positivo e um empenho tão decidido dos dois lados para chegar a um resultado satisfatório”, afirmou o embaixador e negociador chefe do governo brasileiro, Ronaldo Costa Filho.

“Há alguns anos, no Brasil e em vários países do Mercosul, adotou-se um modelo de substituição das importações, com elevada proteção tarifária. Esse modelo privilegiava o mercado interno e regional. Porém, hoje, chegou-se a conclusão que está esgotado”, defendeu Costa Filho. “O Brasil só tem a ganhar com este acordo. Vai ter desafio, sim. O setor industrial vai sofrer concorrência muito acirrada da produção europeia que é mais desenvolvida, mas isso é um instrumento que favorece o aumento da competitividade, de investimento das indústrias no Brasil”.

Além da perspectiva econômica, o embaixador e negociador argentino, Daniel Raimondi, ressaltou o aspecto político das discussões. “Atualmente, existe vontade política dos dois lados para chegar a um acordo. Nós tentamos ser realistas e pragmáticos”.

“Não haverá acordo sem a inclusão da carne bovina sul-americana”

Um dos pontos mais sensíveis das discussões é o setor agrícola. Os pecuaristas europeus temem que, em decorrência do futuro acerto comercial, a carne brasileira e sul-americana entre no mercado europeu com preços muito mais competitivos.

Em maio de 2016, a Associação Francesa Interprofissional de Pecuária e Carnes (Interbev) havia comemorado a informação de que a Comissão Europeia teria retirado a carne bovina das negociações do acordo de livre comércio com o Mercosul.

Entretanto, uma fonte ligada às negociações garantiu à RFI que “não haverá acordo sem a inclusão da carne bovina sul-americana”.

Para o embaixador argentino, não se trata de apenas de um tratado agrícola de livre-comércio. “Não se pode querer buscar um equilíbrio em cada artigo, em cada setor. É preciso, sim, que haja um equilíbrio global no acordo”, advertiu Daniel Raimondi.

“O setor agrícola europeu também tem a ganhar nesse acordo”, acrescentou o embaixador brasileiro Ronaldo Costa Filho. “Há produtos processados de alta qualidade, reconhecidos mundialmente que tem mercado no Brasil e no Mercosul, como queijos, vinhos, massas, por exemplo, que certamente se beneficiarão da redução de tarifas e de melhores vendas nos países do Mercosul”, concluiu.

As primeiras discussões começaram há 22 anos

O tratado de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia começou a ser debatido em 1995, em Madrid, na Espanha. Porém, por questões políticas e conjunturas econômicas, as discussões ficaram paralisadas durante vários anos. O diálogo só foi retomado em 2010, em nova cúpula Mercosul – UE, na Espanha. Quatro anos depois, em Caracas, na Venezuela, o bloco sul-americano apresentou suas ofertas.

Foi, então, preciso esperar mais quase dois anos para que a União Europeia finalizasse o seu documento a ser colocado na mesa de negociação. As trocas de ofertas aconteceram, finalmente, em maio de 2016, quando cada lado entregou um documento com propostas de acesso ao mercado de bens de consumo, serviço e investimentos.

A próxima reunião do comité de negociação entre os dois blocos será em Buenos Aires, em março deste ano.

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