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Linha Direta

Em meio à onda militarista de Bolsonaro, Chile e Uruguai punem insubordinações de militares

Áudio 06:26
O candidato do PSL à presidência, Jair Bolsonaro, junto a militares em São Paulo em 3 de maio de 2018.
O candidato do PSL à presidência, Jair Bolsonaro, junto a militares em São Paulo em 3 de maio de 2018. Nelson ALMEIDA / AFP

Em um movimento contrário ao discurso pró-militar do candidato do PSL à presidência, Jair Bolsonaro, Chile e Uruguai impuseram punições às insubordinações de seus militares nas últimas semanas. Embora os casos sejam isolados até o momento, a reação das autoridades chilenas e uruguaias podem ser vistas como uma tentativa de demonstrar oposição à filosofia do governo do pesselista. 

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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Na semana passada, o presidente chileno, Sebastián Piñera, destituiu o diretor da Escola Militar, coronel Germán Villarroel. O militar havia rendido homenagem ao brigadeiro Miguel Krassnoff, sequestrador da ditadura no Chile e condenado a mais de 600 anos de prisão. O coronel Miguel Krassnoff Bassa, diretor de línguas da Escola Militar e filho do torturador homenageado também foi demitido. 

Essas punições provavelmente teriam acontecido porque o presidente chileno sempre valorizou as reformas econômicas liberais do ditador Augusto Pinochet, mas sempre criticou a ditadura pelas violações aos direitos humanos. Mas, paralelamente, Piñera estava sob fortes críticas no Chile por elogiar o candidato Jair Bolsonaro. O presidente chileno esclareceu que só havia enaltecido as reformas econômicas que o candidato propõe através do economista Paulo Guedes que, aliás, foi professor na Universidade do Chile durante a ditadura de Pinochet.

Embora Piñera tenha criticado o discurso de Bolsonaro em relação às minorias e às torturas, as críticas no Chile continuaram, mesmo após a tentativa de retratação. Por isso, para o cientista político chileno, Patricio Navia, a decisão de destituir o coronel, embora coerente com a filosofia de Piñera, foi conveniente para o governo chileno se diferenciar de Bolsonaro.

Efeito Bolsonaro no Chile

Na coligação governista de Sebastián Piñera, o partido mais à direita é a União Democrata Independente (UDI). Esse partido defende a linha ideológica de Augusto Pinochet. Dois dos seus senadores, inclusive a presidente da UDI, se encontraram com Jair Bolsonaro no Rio de Janeiro na semana passada, enquanto o coronel era destituído pelo presidente chileno. 

Sebastián Piñera lidera um processo de modernização da direita chilena, afastando-se do legado de Pinochet. Mas, segundo Patricio Navia, a popularidade de Bolsonaro no Brasil alimenta a nostalgia desses admiradores do passado ditatorial, criando um problema para o presidente chileno, já que empurra a coligação governista mais à direita. Além disso, assusta os eleitores chilenos com o autoritarismo e a dificuldade de renovação da direta. 

Punição de militares no Uruguai 

Em setembro, o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, puniu dois militares do mais alto comando do Exército. O general Guido Manini Ríos, comandante do Exército, recebeu 30 dias de detenção porque se opôs publicamente ao projeto de reforma da Previdência militar que está em debate no Congresso. Assim como no Brasil, os militares estão proibidos de se manifestarem sobre decisões de poderes do Estado.

Duas semanas depois da punição a Manini Ríos, o presidente Tabaré Vázquez puniu também o comandante do Exército que substituía Manini Ríos. O chefe do Estado Maior, Marcelo Montaner, teve pena de detenção por três dias por executar a marcha militar Tres Árboles numa cerimônia. A marcha está ligada ao Partido Nacional, oposição de direita à coalizão de esquerda que governa o Uruguai.

Por outro lado e em sintonia com o crescimento de Bolsonaro nas pesquisas, o presidente do Centro Militar, Carlos Silva Valiente, disse que, no Uruguai, não houve ditadura.

Casos isolados ou tendência?

Por enquanto, esses são casos isolados, mas a eventual volta de militares ao poder no mais importante país da América Latina pode injetar ânimo em outros movimentos pela vizinhança. 

O ex-presidente uruguaio, José Mujica, integrante da coalizão governista, declarou que uma vitória de Bolsonaro seria perigosa para a região. A sua esposa, a vice-presidente Lucía Topolansky, adverte que "no Brasil, há quase uma volta à ditadura". Essas opiniões foram criticadas pela oposição porque o governo uruguaio mantém silêncio sobre a Venezuela, ao contrário dos demais países governados pela direita na região.

Patricio Navia analisa que uma volta dos militares ao governo no Brasil com a justificativa do combate à insegurança é preocupante. Segundo ele, se Bolsonaro se eleger e puser o Exército nas ruas para controlar a violência, pode-se abrir uma janela para os militares se envolverem com política e a tendência se disseminar pela região. 
 

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