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“Meu voto é o do ‘pagar para ver’”: apoio a Bolsonaro é forte entre brasileiros no Reino Unido

Eleitores de Bolsonaro manifestam no dia 7 de outubro de 2018
Eleitores de Bolsonaro manifestam no dia 7 de outubro de 2018 Vivan Oswald

Brasileiros enrolados na bandeira nacional, alguns carregando cartazes furiosos, ou vestindo camisetas com frases fortes anti-PT, podiam ser vistos à distância na longa fila de quase quatro horas enfrentada pelos eleitores que votaram para presidente na capital britânica no dia 7 de outubro. Enquanto deixavam as seções eleitorais no prédio da Embaixada do Brasil em Londres, aproveitavam para pedir votos para o candidato Jair Bolsonaro (PSL) aos que ainda esperavam a sua vez.

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Da correspondente da RFI em Londres, Vivian Oswald

“Olha lá, hein? Temos que tirar essa gente do poder”, dizia um. Do outro lado da rua, o grupo de bolsonaristas ia crescendo com o passar do tempo. Gritaram, cantaram e ainda ganharam um megafone para que a mensagem reverberasse mais alto a poucos passos de Trafalgar Square, um dos cartões postais da cidade. Abordavam carros de londrinos parados no trânsito provocado pela manifestação e tentavam explicar o que faziam ali.

Nem mesmo eles se imaginavam tão numerosos. De acordo com um jornalista que também votava naquele dia, “era como se tivessem saído do armário, quando encontraram os seus iguais”. Muitos faziam selfies ou vídeos ao vivo para mostrar que estavam ali pedindo votos para Bolsonaro.

Não é possível traçar um perfil linear dos eleitores que deram ao candidato do PSL 51,29% dos votos depositados nas 33 urnas do Reino Unido naquele dia. Seria vitória já no primeiro turno. Quem votou em 2014, viu um cenário bem diferente. Na eleição que levou Dilma Roussef ao Palácio do Planalto pela segunda vez, os petistas pareciam mais numerosos. Brasileiros carregavam santinhos com o nome da candidata do PT até mesmo nos tradicionais ônibus de dois andares da capital britânica e diziam-se otimistas. Desta vez, os eleitores do partido do ex-presidente Lula da Silva também foram vistos, menos entusiasmados, porém. O grupo que protestava contra Bolsonaro, não muito distante dos partidários do capitão do PSL, fazia menos barulho.

Entre os quase 10 mil eleitores que compareceram às urnas, o que se via era uma mistura de raiva e desânimo. Um discurso amargo. Não existe uma estatística precisa para o tamanho da comunidade brasileira no Reino Unido, estimada em 200 mil pessoas. O que se sabe com certeza é que há 25.885 eleitores inscritos em todo o país, que, além da Inglaterra, inclui Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. O quarto maior colégio eleitoral no exterior (fica atrás de Boston, Miami e Tóquio) e o maior da Europa, reúne profissionais liberais, executivos, estudantes, trabalhadores que deixaram o Brasil atrás de uma vida melhor. Imigrantes legais e irregulares. E em todos os grupos havia votos para Jair Bolsonaro.

Fé em mudança

Meu voto não é de raiva ou desânimo. É o do ‘pagar para ver’. É um voto num cara que não está na rede dos velhos conchavos da política”, declara a arquiteta Lilian Alves-Lowe, que vive há dois anos e meio em Londres. Ela votou em João Amoedo no primeiro turno. Diz que jamais votaria em Bolsonaro, mas não esconde a intenção de voto agora. Pelo contrário. “Estou votando nele pela ausência absoluta opção de partido que possa impedir que o PT prossiga no poder por mais 13 anos”, diz.

Segundo a arquiteta, infraestrutura e as indústrias brasileiras foram sucateadas nos últimos anos, e isso se encarregou de diminuir ainda mais as possiblidades de crescimento do país e de oferta de emprego. Ela e o marido inglês viram-se obrigados a se mudar para a Inglaterra. “Ele foi mais cedo, teve de vender seus negócios no Brasil e começar do zero aqui. Eu vim há dois anos e meio. Trabalhava no projeto de uma multinacional americana entre São Paulo e Londres, mas a situação não estava boa e não consegui ser transferida para cá”, conta.

“Só o Bolsonaro vai poder mudar o país agora. Ele não estava envolvido em nenhum desses escândalos de corrupção”, disse o chefe da limpeza de uma escola em Londres, Augusto Freitas. “Voto nele com convicção. Eu quero ver as coisas mudarem para melhor no Brasil”, destacou.

Filho de mãe brasileira, Daniel Hamilton é um jovem político da cena britânica criado no Reino Unido. Filiado aos conservadores, tentou uma vaga no parlamento em 2017. Não levou, mas tampouco desistiu. Trabalha com política já há alguns anos no país. Ele está entre os eleitores que notaram a diferença na atmosfera eleitoral brasileira. Votou em Amoedo no primeiro turno, mas tenta entender o voto de quem optou por Bolsonaro.

"Bolsonaro é visto como alternativa"

“O orgulho, a auto-confiança e as bandeiras brasileiras que vi em 2014 deram lugar a sombras e nuvens”, diz. Ele reconhece que muitos brasileiros vêm para a Inglaterra atrás de novas oportunidades. Muitos deixaram o país depois de sucessivas crises econômicas. Mas vêem um Brasil menos pujante, onde pessoas próximas perderam seus empregos, e onde o crime aumentou.

“Bolsonaro não é visto como um bom candidato, mas como uma alternativa. Ele representa uma parcela importante da população que está com raiva. Ele parece ter essa raiva. Não vou mais tolerar essa porcaria, é o que vejo os brasileiros dizerem, quando vão votar”, afirma Hamilton. Segundo ele, o otimismo de alguns anos atrás, virou uma espécie de depressão.

Os brasileiros que vivem em solo britânico voltarão às urnas neste domingo. E a expectativa é a de que dêem uma ampla vitória a Bolsonaro no segundo turno também. No primeiro turno, 9.715 pessoas votaram. Já estão previstos novos protestos em frente à Embaixada durante a votação. A convocação está sendo feita pelas mídias sociais.

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