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Diplomacia

Brasil convoca Argentina a recuperar "tempo perdido" com um novo pacto de integração regional

O chanceler Ernesto Araújo (à direita) falou sobre a nova política externa brasileira a uma plateia de diplomatas e acadêmicos, em Buenos Aires.
O chanceler Ernesto Araújo (à direita) falou sobre a nova política externa brasileira a uma plateia de diplomatas e acadêmicos, em Buenos Aires. Foto: RFI/marcio Resende

O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, faz nesta quarta-feira (10) seu segundo e último dia de visita a Buenos Aires. O chefe do Itamaraty tenta relançar a parceria estratégica entre os dois países e acerta a data de uma viagem do presidente Jair Bolsonaro à Argentina, antes de julho.

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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Araújo fez um apelo à Argentina para, junto com o Brasil, "recuperar o tempo perdido" na integração regional e na integração da região com o mundo. Por “tempo perdido”, o chanceler brasileiro referiu-se "ao período de 2003 a 2015", no qual Brasil e Argentina tiveram um "projeto suicida", como "um casal que quer se suicidar juntos", definiu o ministro.

"De 2003 a 2015, sobretudo no começo desse período, a parceria Brasil-Argentina foi concebida para nos isolar do mundo. Isolar-nos dos Estados Unidos e da Europa. Uma lógica de exclusão e de desenvolvimento autônomo que não deixa de ser um projeto de alguma maneira suicida", disse Araújo. "Não sei se foi o Brasil que tentou arrastar a Argentina por esse caminho ou se foi o contrário. Foi como num desses pactos de um casal que quer suicidar-se juntos", ilustrou.

O resultado desse "suicídio", segundo o chanceler brasileiro, foi uma "fracassada política externa que só gerou estagnação e atraso". "A nossa política exterior foi parte desse projeto de autonomia que gerou estagnação econômica, criminalidade crescente, corrupção e tantos outros problemas", afirmou. "Uma falsa concepção de integração", criticou.

As declarações do ministro ocorreram durante uma "palestra acadêmica" no prestigioso Conselho Argentino para as Relações Internacionais (Cari). No encontro, o ministro convidou a plateia de diplomatas e acadêmicos a repensar a América Latina.

"Uma das tarefas que temos é repensar a nossa ‘latino-americanidade’ e nisso, seguramente, Brasil e Argentina têm um papel central. Precisamos um do outro para seguir nessa missão de recuperar o tempo perdido a partir da nossa identidade", apontou.

A recuperação do “tempo perdido”, na avaliação de Araújo, inclui sair do confinamento comercial em quatro negociações avançadas com outros blocos comerciais e países.

"Temos uma missão que abrange coisas muito concretas. Por exemplo, o Mercosul pode, no curto prazo, fechar quatro grandes acordos: com União Europeia, Canadá, Coreia do Sul e com o EFTA (Suíça, Liechtenstein, Noruega e Islândia), mas unindo as vozes na defesa dos nossos valores", indicou.

Sobre o futuro do Mercosul, Araújo descartou recuar a uma zona de livre comércio e, pelo contrário, reforçou o caminho da união alfandegária.

"Não é preciso voltar a uma zona de livre comércio. É possível manter a união alfandegária com eficiência e um desses enfoques é a ideia de flexibilização em negociações com terceiros na qual estamos trabalhando", garantiu, dissipando temores de um retrocesso no processo de integração.

Plateia de diplomatas e acadêmicos que esteve no Conselho Argentino para as Relações Internacionais (Cari) para ouvir o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo.
Plateia de diplomatas e acadêmicos que esteve no Conselho Argentino para as Relações Internacionais (Cari) para ouvir o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo. Foto: RFI/ Márcio Resende

Visita oficial de Bolsonaro à Argentina

Na manhã desta quarta-feira, Ernesto Araújo tem reuniões bilaterais com o chanceler argentino, Jorge Faurie, e com o ministro da Produção, Dante Sica. Entre as duas reuniões, o ministro brasileiro será recebido pelo presidente Mauricio Macri na residência oficial de Olivos.

Para "acabar com as dúvidas" quanto "ao papel central" que a Argentina ocupa na estratégia da nova política externa brasileira, o ministro Araújo levará ao presidente Macri três alternativas de datas para uma visita do de Bolsonaro à Argentina antes da reunião de cúpula do Mercosul prevista em julho, que também acontecerá na Argentina.

"Nós temos a ideia de que seja logo (a visita). O presidente realmente quer vir à Argentina para continuar o diálogo e a cooperação que iniciamos em janeiro, quando o presidente Macri esteve no Brasil. Como a cúpula do Mercosul seguramente será em meados de julho, isso seria esperar muito. Nós realmente queremos que a visita tenha lugar antes. Que ninguém duvide: a relação com a Argentina é preferencial e especial", destacou.

Brasil aliado extra-OTAN

Como exemplo de integração, o ministro explicou ainda a estratégia brasileira de tornar-se um aliado extra-Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), um status que a Argentina possui desde 1997.

"Há uma declaração unilateral dos Estados Unidos de declarar o Brasil como um aliado ‘extra-OTAN’, mas, nas conversas, já surgiu o interesse da parte americana de avançar para fazer uma aproximação do Brasil com a OTAN", sinalizou.

"Seria uma mudança enorme para a região, se tivermos uma conexão com a OTAN em termos de estabilidade, de segurança e de tecnologia", projetou.

Para o ministro brasileiro, com uma eventual entrada do Brasil e da Argentina na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) da qual já fazem parte o Chile e a Colômbia, e com a definição do Brasil e da Argentina como aliados extra-OTAN, surge um novo eixo: o “triângulo ocidental”.

"Tanto com a OCDE quanto com a OTAN desvia-se o eixo de uma aliança atlântica entre o oeste e o leste (Estados Unidos-Europa) a um eixo Norte-Sul e se completa um triângulo ocidental Estados Unidos-Europa-América do Sul, com Brasil, Argentina, mas também Chile e Colômbia", analisou.

Venezuela

Às vésperas de uma nova reunião do Grupo de Lima, no dia 15 de abril em Santiago, no Chile, Araújo considera que "é importante que continue a mobilização da comunidade internacional para que não haja um cansaço negociador".

"Tenho certeza de que virá um momento em que o governo de Juan Guaidó se tornará efetivo e que isso levará a eleições legítimas e a uma redemocratização da Venezuela", apostou.

O ministro descartou uma intervenção militar contra o governo em Caracas: "Estamos convictos de que é possível chegar ao objetivo que é a instalação da democracia [na Venezuela], com o apoio da comunidade internacional, sem esse tipo de ação [militar]", concluiu.

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