Acessar o conteúdo principal
Brasil-África

Designer paulista desenvolve marca de roupas em Durban com mulheres em situação de vulnerabilidade

Áudio 03:46
Júlia Franco no seu ateliê da Shwe, onde a designer brasileira faz a diferença na moda na África do Sul.
Júlia Franco no seu ateliê da Shwe, onde a designer brasileira faz a diferença na moda na África do Sul. Arquivo pessoal

A designer de moda paulista Júlia Franco, 35 anos, trocou a capital da moda italiana, Milão, para se instalar em Durban, a segunda maior cidade da África do Sul. Sete anos depois, ela desenvolve a marca Shwe Wearable Library, que já produz em torno de 300 peças por mês, vendidas no mercado local e também exportadas para Brasil, Espanha, Estados Unidos e Itália. O diferencial do projeto de Júlia é que ela trabalha pela inclusão de mulheres em situação de vulnerabilidade.

Publicidade

Kinha Costa, correspondente na África do Sul

A designer paulista está mudando a vida de refugiadas, de um grupo de mulheres que sofreu violência doméstica e de idosas de um asilo municipal. A empresa é muito nova, mas já conta com mais de 60 funcionárias na folha de pagamento.

Júlia Franco trabalhava em Milão com o consagrado designer italiano Roberto Cavalli. Em 2012, ela visitou Durban e resolveu fixar residência na cidade. No entanto, continuou trabalhando como freelancer para agências de moda em Milão. Em 2015, descobriu o tecido sul-africano “shweshwe” e passou a buscar infraestrutura para criar roupas a partir do tecido.

{{ scope.counterText }}
{{ scope.legend }}© {{ scope.credits }}
{{ scope.counterText }}

{{ scope.legend }}

© {{ scope.credits }}

A paulista desejava trabalhar com mulheres carentes e aceitou o convite de um um amigo, sociólogo, para visitar algumas instituições que cuidavam de mulheres em situação de vulnerabilidade. Foi nas visitas a um centro de mulheres refugiadas, outro de mulheres vítimas de violência doméstica e uma casa de repouso para idosas que ela descobriu o potencial da mão de obra que tanto procurava. Júlia adotou os três grupos e passou a visitá-los semanalmente.

Como juntar três projetos distintos

O projeto das mulheres refugiadas funcionava em um terreno cedido pela mesquita do bairro. A Igreja Católica, do mesmo bairro, construiu o espaço físico e montou, no local, uma infraestrutura com clínica médica e facilidades para as refugiadas tirarem documentos. Esse foi o grupo mais difícil de solucionar, conta Júlia, porque era grande.

A empresa Shwe começou com 64 mulheres e o grupo de refugiadas tinha 40 mulheres. Sem condições de contratar tanta gente, Júlia pediu ajuda à Faculdade de Moda de Durban, que foi receptiva. “Eles, muito gentilmente, abriram as portas para todas nós", relata.

"Foi muito emocionante, porque muitas dessas mulheres nunca tinham ido à escola, muito menos a uma faculdade. O primeiro dia de aula foi incrível, porque a gente passava pelos corredores e elas se encostavam nas paredes. Vendo toda aquela emoção, todo mundo ficou muito tocado”, lembra Júlia.

O projeto que abrigava mulheres vítimas de violência era uma iniciativa privada e solitária de Pinky Cupido, que acolhia em sua casa vítimas de abuso sexual e violência doméstica. Pinky era uma excelente costureira. Ela foi contratada e passou a ensinar ao grupo os segredos do corte e da costura.

Foto de promoção da marca Shwe
Foto de promoção da marca Shwe Jacki Bruniquel

O projeto que mais demorou a encontrar um caminho foi o das idosas – senhoras com idades de 75 a 92 anos. Júlia levava fios para crochê e tricô em suas visitas semanais ao asilo, mas não sabia exatamente o que iria fazer. Depois de alguns meses, elas decidiram misturar o tecido "shweshwe" com crochê e tricô. “As senhoras do asilo municipal nos presenteiam com seus dons, adicionando crochê e tricô às peças mais exclusivas.”

A empresa Shwe não tem condições de contratar todas as pessoas, mas oferece infraestrutura para quem quer aprender a profissão. Mais de 100 mulheres passaram pela microempresa.

Faculdade de moda abraça o projeto

O projeto foi adotado pela Faculdade de Moda de Durban. O professor Khaya Mchunu começou a coletar a história de cada mulher e o resultado virou sua tese de mestrado. “Hoje, ingressam na universidade 28 mulheres, em média, por semestre, que aprendem corte, costura e a como abrir seus próprios negócios", explica. As roupas produzidas são vendidas no Brasil, nos Estados Unidos, na Itália, na Espanha e aqui na África do Sul. "As roupas carregam muito a história de garra e superação de todas essas mulheres", nota Mchunu, que afirma ter muito orgulho de participar do projeto.

O tecido "shweshwe"

"Shweshwe" é um tecido sul-africano fabricado em Durban e composto 100% de algodão. É um tecido de cores vibrantes e estampas encontradas somente na África do Sul. Mas é um tecido de difícil caimento, estreito, com apenas 90 centímetros de largura e ainda encolhe quase dez centímetros na lavagem. Para confeccionar um vestido curto são usados, pelo menos, três metros. É também um tecido caro, se comparado com tecidos tradicionais de 120 cm ou 140 cm de largura.

Júlia Franco nasceu em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, e cresceu em Arujá. Adolescente, ela fez o colegial nos Estados Unidos e se formou em Hotelaria em São Paulo, antes de seguir uma formação de marketing da moda no Instituto Europeu de Design, em Milão. Ela é casada com um sul-africano e divide seu tempo entre a marca que criou em Durban e as viagens que faz ao exterior para apresentar seus produtos, mostrando que é possível mudar destinos e fazer a diferença.

{{ scope.counterText }}
{{ scope.legend }}© {{ scope.credits }}
{{ scope.counterText }}

{{ scope.legend }}

© {{ scope.credits }}
Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.