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RFI Convida

Psicanalista brasileira coordena seminários em Paris sobre angústia e distúrbios na aprendizagem

Áudio 06:54
Marília Arreguy
Marília Arreguy RFI

“O que a gente tem de fazer é investir na educação e escutar as crianças e os jovens”, diz a psicanalista Marília Arreguy, que coordena em Paris os seminários "Psicanálise e Educação - Angústia e Distúrbios de Aprendizagem", iniciativa da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Escola Doutoral de Pesquisa em Psicanálise da Universidade Paris-Diderot (Paris 7). A próxima sessão acontece no dia 18 de junho, das 18h às 20h.

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Além de tratar de temas de educação, a psicanalista e professora da UFF escreve sobre racismo no seu novo livro "Racismo, Capitalismo e Subjetividade - Leituras psicanalíticas e filosóficas", coorganizado com Marcelo Bafica, e sobre paixão em um capítulo do também recém-lançado livro "Passionnément, à la folie ?” (algo como “Louca Paixão”, em tradução livre), sobre a erotomania, uma psicopatologia que consiste na exageração, às vezes mórbida, dos sentimentos amorosos.

Confira o vídeo com a entrevista completa no final do texto.

RFI - Marília, gostaria que você explicasse esta série de seminários que você coordena aqui em Paris.

Marília Arreguy – Eu vim para Paris em 2017 para um pós-doutorado na Universidade Paris 8 e, paralelamente, nós iniciamos estes seminários sobre Psicanálise e Educação na Paris-Diderot (Paris 7). Fizemos um ano sobre a noção de autoridade e seus limites e agora estamos discutindo a questão da angústia e problemas da aprendizagem. São seminários mensais em que vários convidados vêm discutir os temas propostos, cada um dentro de uma linha da psicanálise e é um seminário aberto para professores, educadores, psicanalistas, estudantes, pesquisadores, doutorandos, mestrandos.

RFI - Vocês falam da angústia entre crianças e adolescentes? As realidades francesa e brasileira são abordadas? Há muitas diferenças?

MA - Nós fazemos alguns paralelos entre os dois países [França e Brasil] e, como é um seminário internacional, algumas vezes vêm pessoas de outros países que também trazem suas experiências. Justamente por ser um seminário, a gente sempre tem um espaço para as pessoas falarem e discutirem a realidade de cada país ou de cada contexto onde elas vivem.

No Brasil, nós vivemos problemas muito graves relacionados à educação por conta de cortes de verbas, principalmente atualmente. Em todos os níveis da educação, inclusive na educação superior. Nós vemos bastante as questões de infância e adolescência, mas também tratamos a questão da angústia na educação como um todo. O que é esta demanda por educação, esta exigência de adaptação, este modelo a seguir de sucesso.

Nós vemos por exemplo, o contexto japonês, que é tão distante da gente, mas que acaba se refletindo hoje em dia em adolescentes que se suicidam por falta de sucesso escolar. Esta questão do fracasso escolar é discutida a partir da ideia de que existe um contexto, uma estrutura e, para a criança e o adolescente serem bem-sucedidos, este contexto também precisa ser repensado e revisto.

Na França, existem hoje em dia muitos problemas por conta também de novas leis, reformas que são feitas muitas vezes sem considerar a realidade dos professores, dos educadores.

RFI - Quais as características do ambiente escolar que podem ser modificadas para que se diminuam os sintomas de angústia?

MA - Além desta exigência enorme de sucesso dentro de um mundo narcísico, espetacular, onde as pessoas têm que ter uma performance muito grande, a gente vê também o problema dos professores mal pagos, a falta de estrutura nas escolas no Brasil.

Aqui na França, tem muito esta comparação mesmo entre os alunos, os problemas de maus-tratos entre as crianças. A principal questão é que existe uma estrutura na escola. Muitas vezes não existem psicólogos, assistentes sociais, principalmente nas escolas públicas brasileiras.

Aqui na França a realidade é bem diferente e por isso a gente vem trocando essas experiências com os profissionais daqui. A gente tem ainda muito o que aprender com a França, principalmente na questão dos limites, da autoridade. Mas a angústia, ela faz parte da vida. A gente precisa essencialmente poder ouvir as crianças, ouvir os adolescentes, porque muitas vezes eles não têm voz no contexto escolar.

RFI - Além disso, você acaba de lançar no Brasil o livro "Racismo, Capitalismo e Subjetividade - Leituras psicanalíticas e filosóficas". Você poderia falar um pouco deste livro e da importância de se discutir o racismo no Brasil de hoje?

MA - Esta é uma das questões mais delicadas que a gente tem a discutir porque no Brasil se diz que não existe racismo, que existe muita cordialidade; isso não é verdade. Uma das questões que gera muita angústia são estas comparações: as diferenças que não são tratadas de um modo natural, elas são negadas. Elas precisam ser ditas e reconhecidas. Então a inclusão é fundamental, mas mais do que a inclusão, é a transformação da mentalidade. A mentalidade brasileira ainda é muito escravocrata, porém dissimulada. Muito já foi feito com o sistema de cotas, mas muita coisa precisa ainda ser feita. Uma das questões que é discutida neste livro por um professor da Universidade Paris 8 é a questão da “reformitis aguda”, como se a gente tivesse de fazer milhões de reformas na educação. Na verdade o que a gente tem de fazer é investir na educação e escutar as crianças e os jovens.

RFI - E o seu capítulo em um livro de psicanálise recém-lançado aqui na França, sobre a paixão, do que se trata?

MA - Este capítulo é sobre a erotomania. Eu procuro entender esta psicopatologia de um modo mais sutil e generalizado.

Existe um traço, que é um traço erotómano, em todas as relações, principalmente num mundo de performance, em que todos têm de ser belos e amados, num mundo narcísico, numa cultura narcísica, em que a gente espera do outro ser amado antes da capacidade de perceber a existência do outro e a diferença que esse outro representa na nossa vida. Então eu procuro tratar neste capítulo, a partir de um caso clínico, desta posição do sujeito em que ele tem que ser amado a qualquer preço.

 

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