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Ao dar "bolo" em chanceler francês, Bolsonaro mostra que não tem postura de presidente, analisa cientista político

Áudio 05:22
O professor de Ciência Política da FGV, Francisco Fonseca.
O professor de Ciência Política da FGV, Francisco Fonseca. Foto: Capture YouTube

Em entrevista à RFI, o cientista político Francisco Fonseca, professor da Fundação Getúlio Vargas e da PUC-SP, analisou a postura do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de desmarcar um encontro previsto com o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian. Segundo ele, a atitude do líder brasileiro não é apenas um desrespeito, mas algo inaceitável para quem está no cargo que ocupa.

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Lucas Senra, em colaboração com a RFI

O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, desembarcou no Brasil desde o sábado (27), para uma visita de quatro dias, com o intuito de estreitar parcerias estratégicas entre os dois países, desenvolver acordos econômicos, educacionais e de defesa. O encontro que o chanceler teria com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro foi cancelado minutos antes da hora prevista.

Para o cientista político Francisco Fonseca, a postura do líder brasileiro não é condizente com seu cargo. “Desmarcar em cima da hora, com meia hora de antecedência, mentindo que haveria novas agendas importantes, quando na verdade foi cortar o cabelo, não apenas é uma mentira, um desrespeito e uma gafe, como é evidentemente algo inaceitável para quem está na presidência da República. Isso expressa um comportamento de quem efetivamente está desqualificado para estar no cargo”, avalia. O professor estima que Bolsonaro “não tem condição política, moral, nem ética”, e que o incidente representa uma grande “gafe internacional” e “um desrespeito às relações diplomáticas”.

O cientista político salienta que essa postura pode comprometer a relação entre os dois países, principalmente em razão da pauta de temas que estava prevista para a viagem. Dentre os assuntos que deveriam ser discutidos, estão inúmeras questões de ordem ambiental, como a Conferência de Santiago sobre mudanças climáticas (COP2019) que acontecerá no mês de dezembro, e a participação do Brasil no Acordo de Paris, texto firmado em 2015, que pretende diminuir a emissão dos gases que provocam o efeito estufa, e que é uma das prerrogativas para que o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul seja validado. Fonseca aponta que uma eventual saída do Brasil do Acordo de Paris significaria um “alinhamento à extrema direita internacional, com a figura do próprio Trump, dentre outros líderes internacionais de extrema direita que desdenham do meio ambiente”.

Possível alinhamento com os EUA

Fonseca não descarta a hipótese de uma mudança de planos das políticas econômicas brasileiras, e um possível alinhamento com os EUA, que já anunciaram a saída do Acordo de Paris. “Bolsonaro tem uma postura subserviente, antissoberana, de entrega das riquezas, das empresas, das potencialidades energéticas brasileiras para os EUA. É algo absolutamente vergonhoso o que está acontecendo”.

O professor ressalta que um tratado de livre comércio entre Brasil e Estados Unidos beneficiaria fundamentalmente as empresas norte-americanas. “É algo que está no radar de Bolsonaro que, muito claramente, desde que assumiu, tem uma postura inteiramente pró Estados Unidos, e que, portanto, não tem uma visão plural, uma visão estratégica de relações internacionais com a Europa, com a América Latina, com a Ásia, com a África. É uma figura soturna que não tem capacidade de entender que as relações internacionais são globais, e evidentemente, plurais”, reitera. 

O gesto de Bolsonaro foi considerado “no mínimo descortês”, disseram à imprensa diplomatas que preferiram manter o anonimato. Os jornais franceses repercutiram o ato do presidente brasileiro, visto por alguns veículos como uma “desfeita”.

A viagem que se encerrou na terça-feira (30), teve passagens por Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, visita à base naval de Itaguaí (RJ), onde é realizado um importante projeto de cooperação bilateral entre os dois países. Apesar do clima ruim, o chanceler brasileiro Ernesto Araújo deu indicações de que o acordo entre os dois países será firmado, dizendo que abrirá perspectivas “excelentes” para o setor privado, e permitirá às empresas dos países dos dois blocos “se posicionarem melhor nas cadeias globais de valor”.  O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, e o govenador João Dória, que estiveram com o chanceler francês, ressaltaram a importância de se cumprir os compromissos assinados em 2015 para minimizar as consequências do aquecimento global.

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