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Brasil é um possível laboratório do neoliberalismo autoritário, escreve filósofo brasileiro no Le Monde

Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro
Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro REUTERS/Adriano Machado

O jornal francês Le Monde publicou nesta segunda-feira (2) um artigo do filósofo brasileiro Vladimir Safatle, professor de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, os governos anteriores, paralisados por um sistema de alianças estapafúrdias, suscitaram esperanças que não podiam cumprir, deixando a extrema direita prosperar em meio à frustração social.

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“Todos os dias o Mundo fica consternado ao ver o Brasil - uma das dez maiores economias mundiais e o ator político mais importante da América Latina - sob o controle de um governo cujo militarismo, a brutalidade, a violência contra segmentos vulneráveis da população, o desprezo pelo meio ambiente, nos remetem a algumas das principais características dos regimes fascistas”, escreve Safatle.

Segundo o professor, todos nós sabemos que o consenso sobre o modelo de democracia liberal no Brasil não existe mais, mas ainda não se sabe até onde seu desaparecimento pode levar o país. “Nesse sentido, é possível que o Brasil seja hoje um laboratório global no qual estejam sendo testadas novas configurações do neoliberalismo autoritário, onde a democracia liberal se veja reduzida a mera aparência", diz ele.

“Uma das consequências mais visíveis desse neoliberalismo autoritário é a submissão de qualquer política ambiental aos interesses imediatos da indústria agroalimentar, um dos setores chave de apoio a Jair Bolsonaro. Nenhum protesto da sociedade tem verdadeiramente peso contra essa lógica baseada no desrespeito colonial secular pelos povos indígenas, no nacionalismo paranoico e na reedição de processos antigos de conquista de terras”, afirma Safatle.

O filósofo explica que muitos se perguntam como o Brasil chegou a esse ponto tão rapidamente. Aparentemente, o país tinha conseguido construir uma democracia consolidada, se aproximando de um lugar cada vez mais certo dentro do novo cenário econômico internacional. “Muitos observadores se lançam em vastas explicações históricas que não levam em conta as contradições imediatas. Porque a questão central é: qual foi, nos últimos quinze anos, a fragilidade do Brasil capaz de levá-lo a tal degradação? ”, pergunta o professor.

Frustração difícil de gerenciar

“Nesse sentido, seria conveniente assumirmos, como ponto de partida, que a experiência brasileira foi uma das tentativas mais óbvias de estabelecer um governo populista de esquerda. É assim que devemos analisar os governos de Luiz Inácio Lula da Silva, depois de Dilma Rousseff, e seus limites. O surgimento de Jair Bolsonaro pode ser interpretado como um sintoma das contradições inerentes a um projeto desse tipo”, analisa Safatle. Ele acredita que se pode falar em “populismo” devido à natureza fragmentada e heterogênea dos setores da sociedade que se uniram para garantir a hegemonia política a esses governos.

“De fato, dentro da coalizão governamental de Lula, tanto se expressavam reivindicações de atores das camadas populares, como das oligarquias descontentes, numa configuração que remetia à do peronismo argentino. O ‘povo’ produzido por essa conjunção era um corpo estranho no qual era possível encontrar índios e grandes fazendeiros, negros e banqueiros, trabalhadores e rentistas”, escreve Safatle.

Explosão dos preços nas principais cidades brasileiras

Em seu artigo, o professor lembra que no início, essas expectativas conjuntas levaram a um movimento de transformação social que parecia sem risco e irreversível. “Não só as camadas mais pobres da população viram sua renda aumentar, como também a da elite rentista. No entanto, essa evolução rapidamente chegou a um ponto de bloqueio. Houve uma data de validade”, afirma.

“Como não se tratava de uma verdadeira ruptura com o modelo econômico vigente, o processo de concentração da renda praticamente não foi afetado”, acredita Safatle. Desse ponto de vista, tudo o que o Brasil conseguiu fazer durante esses treze anos foi, de fato, retornar ao mesmo nível de concentração de renda do início dos anos 1960.

Essa situação, na qual o crescimento econômico foi produzido sem grandes mudanças na distribuição da renda, levou a uma explosão dos preços nas principais cidades brasileiras. “No início de 2010, São Paulo e Rio de Janeiro tornaram-se duas das cidades mais caras no mundo. Isso coibiu a ascensão social dos mais pobres, criando uma frustração muito difícil de gerenciar”, lembra.

Extrema direita conseguiu usar o discurso da ruptura

“Quando essa frustração tomou as ruas, a extrema direita conseguiu usar o discurso da ruptura assumindo o ódio contra as instituições que anima uma parte da população. Enquanto a esquerda era forçada a administrar coalizões que se tornaram a expressão social da inércia, a extrema direita estava livre para promover sua própria concepção da ‘revolução’”, afirma Safatle. “Foi, portanto, com um discurso revolucionário que Bolsonaro venceu as eleições. É com tal discurso que ele reina e que se dá o direito de romper com todos os consensos, até mesmo aquele crucial, sobre o futuro da floresta amazônica”, diz.

Vladimir Safatle conclui seu artigo lembrando que “os governos populistas de esquerda, seja no Brasil ou na Grécia, por estarem vinculados a um sistema de coalizões e alianças contraditórias que rapidamente levam à paralisia, despertam esperanças de uma ruptura que não podem realizar”. “A extrema direita sabe como ocupar o espaço vazio gerado pela frustração. Realiza, com sinais invertidos, a revolução que outros prometeram sem poder cumprir. Se a oposição brasileira realmente quer existir, deve saber absorver pelo menos parte do ódio contra as instituições existente, acenando com a possibilidade de uma outra forma de ruptura real”, finaliza.

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