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Religião/Política

“Prefiro perder minha casa do que meu filho virar viado”: pesquisador investiga origem do voto religioso que elegeu Bolsonaro

Cultos evangélicos vêm ganhando espaço na França, apesar da resistência francesa à "seitas", segundo o jornal Le Monde.
Cultos evangélicos vêm ganhando espaço na França, apesar da resistência francesa à "seitas", segundo o jornal Le Monde. Reprodução Twitter

Em julho de 2019, o jornalista britânico e pesquisador do The Royal Institute of International Affairs, Richard Lapper, percorreu uma série de cidades brasileiras realizando entrevistas para seu novo livro. Após 25 anos à frente da editoria de América Latina do Financial Times, ele procura investigar como os movimentos radicais cristãos, sobretudo os evangélicos neopentecostais, estariam na base da mudança populista e conservadora no Brasil. O teor ultrarreligioso e conservador do discurso brasileiro, em regiões periféricas ou grandes cidades, impressionou Lapper, entrevistado pela RFI. Um fenômeno que não seria uma prerrogativa brasileira, mas parte de um cenário mundial.

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Uma das cidades escolhidas pelo jornalista e pesquisador Richard Lapper para visitar durante seu périplo brasileiro foi Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a segunda maior cidade do estado de Minas Gerais. “Estava acompanhado de um membro do Partido dos Trabalhadores, que advoga para os sem-teto”, diz. “Uberlândia teve um grande fluxo migratório nos últimos 10 anos, especialmente do Norte de Minas, porque é um polo que vem crescendo por razões diferentes. Esses sem-teto são pessoas que vivem em acampamentos informais, que visitei. Estamos falando de cerca de 10 mil pessoas na periferia de Uberlândia e o advogado que me acompanhava me disse que era difícil acreditar que 60% daquelas pessoas, que teriam perdido sua casa se não fossem os movimentos sociais, tivessem votado em Bolsonaro”, relata Lapper.

A resposta sobre as razões que motivaram o voto conservador veio um pouco mais tarde naquele dia, quando uma mulher, moradora de um dos acampamentos dos sem-teto, afirmou que seria “melhor perder a minha casa do que meu filho virar viado”. São casos e relatos como o dessa sem-teto em Uberlândia que povoam o novo livro de Richard Lapper, que será publicado pela Manchester University.

A resposta da moradora que prefere perder até o que não tem, para que o filho não se torne homossexual, é sintomática de um Brasil onde internautas publicam fotos com a Bíblia em suas redes sociais, clamando ser a nova “Constituição” e onde vídeos do Youtube proliferam em tags e hashtags como “Exército de Deus”. O discurso de hipervalorização da Bíblia enquanto narrativa parece ser, segundo especialistas, uma das características do discurso religioso professado em Israel, quando o governo conservador justifica a política agressiva de assentamentos na Cisjordânia palestina de Benjamin Netanyahou, um dos raros apoios do presidente Jair Bolsonaro na cena internacional.

“Populismo nacionalista”

Segundo Lapper, “não importa se são neopentecostais, ou se são mais moderados como os luteranos e batistas, a pauta que os une, todos possuem opiniões ultraconservadoras sobre assuntos relativos a sexo e gênero”. Lapper se refere ao fenômeno como “populismo nacionalista”. “Existem algumas características que são comuns a todos eles, em diferentes lugares do mundo, seja Trump, Brexit, Orbán na Hungria, Salvini na Itália, Duterte nas Filipinas ou Bolsonaro no Brasil.  Eles não gostam do liberalismo. É claro que discordam sobre outros temas, como imigração, mas estão unidos nessa pauta. Como o apoio do [ex-conselheiro de Trump, Steven]Bannon nos Estados Unidos”, lembra.

A situação de Uberlândia encontra ecos em outras cidades brasileiras visitadas pelo experiente jornalista britânico, como Diadema, no ABC paulista. “Em 2006, visitei essa cidade, no sul de São Paulo, onde conversei com pessoas de um projeto educacional que focava em melhoras no ensino. A prefeitura de Diadema [o prefeito José de Fillipi Jr (PT), em seu terceiro mandato] estava melhorando os serviços em Educação, multiplicando bibliotecas, espaços para crianças”, lembra. “Conversei com essas mesmas pessoas há dois meses apenas, que me disseram: ‘Richard, duas coisas mudaram desde que você esteve aqui. Todo mundo agora aqui é empreendedor e o número de igrejas evangélicas explodiu massivamente’”, diz o pesquisador.

“Há 20 ou 30 anos atrás, o Brasil era o maior país católico do mundo em termos de população. Hoje vemos um crescimento dramático de evangélicos radicais, de neopentecostais, e esse crescimento acontece também na África, com o crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus no continente”, diz. “Um colega meu em Moçambique me deu detalhes sobre essa rápida ascensão evangélica, mas isso ocorre também em outros países. Isso extrapola Trump ou o Brasil”, analisa.

O pesquisador lembra que um dos pontos cegos da teologia dos novos “fundamentalistas evangélicos”, é a questão da “ideologia de gênero”. “Eles são muito reativos a todos os avanços feitos pelos liberais na Europa nesse sentido, como o casamento gay, as diferentes abordagens do gênero, a transsexualidade, são coisas que os perturbam profundamente”, afirma. “Não acredito que estejam simplesmente impondo sua vontade, acho que a vitória desse discurso neorreligioso reflete um desconforto na população ordinária com estes temas”, avalia.

Richard Lapper lembra ainda o recente evento conhecido como “Dia do Fogo”, quando apoiadores de Bolsonaro na Amazônia e no Pará provocaram uma série de queimadas que repercutiram no Brasil e no mundo inteiro. “São colonos que defendem o desmatamento, em sua grande maioria evangélicos. Eles não apreciam os índios. Os evangélicos não possuem apenas um foco na ‘Teologia da Prosperidade’, mas também na ‘batalha contra Satã”, e Satã, para eles, faz parte de religiões primitivas, como o candomblé”, afirma. A análise de Lapper encontra eco na recente onda de traficantes evangélicos do Rio de Janeiro, que perpetraram uma série de ataques coordenados a religiões de matriz africana. Em algumas favelas, segundo relatos da imprensa brasileira, os chefes do tráfico chegam a proibir a prática de religiões afro e o uso de roupas brancas, relata uma reportagem do site The Intercept de 2017.

Um fenômeno mundial

Segundo dados de 2018, os evangélicos seriam hoje cerca de 640 milhões, representando ¾ do protestantismo no mundo, e um cristão em cada quatro. Segundo o Pew Research Center, os evangélicos representariam hoje cerca de 36% do eleitorado mundial, cujo exemplo mais expressivo talvez seja a direita religiosa branca norte-americana que conduziu George Bush e Donald Trump à Casa Branca. Mesmo se a pauta diverge entre as várias facções da igreja evangélica, a pauta moralista continua a mesma de sempre, com um cardápio repleto de “cura gay”, discursos inflamados contra o aborto, a sexualidade fora do casamento e a pesquisa científica em células-tronco de embriões.

No Brasil, o discurso neorreligioso alcança níveis jamais alcançados anteriormente: uma pesquisa Datafolha, realizada em julho de 2019, afirma que 7% dos brasileiros acreditam que a “Terra é plana”, fazendo eco ao movimento conhecido como “Terraplanismo”, nascido nos Estados Unidos, que afirma que as agências espaciais de todo o mundo estariam mentindo sobre o formato do planeta, para “falsificar as viagens espaciais”. O argumento, prosaico e nada ortodoxo, é um dos bastiões defendidos pelo astrólogo Olavo de Carvalho, radicado nos Estados Unidos, ideólogo e um dos principais ativos intelectuais do governo de Jair Bolsonaro no Brasil.

No resto do mundo, correntes evangélicas radicais são cada vez mais exportadas para grandes cidades da Ásia e da África, graças a um discurso religioso emocional e dogmático, que propõe soluções práticas a frustações individuais e coletivas. Segundo os especialistas do Pew Research Center, os evangélicos já seriam hoje o principal grupo religioso nos Estados Unidos, cerca de 25,4% da população. Em 2016, eles foram o principal apoio eleitoral do então candidato Donald Trump, considerado por eles como “um instrumento de Deus para fazer avançar a causa”. Um discurso similar ao do recentemente evocado num vídeo pelo pastor evangélico Edir Macedo no Brasil, ao classificar Bolsonaro como “enviado de Deus”. Segundo o Instituto Datafolha, 29% dos brasileiros se declararam evangélicos em 2016, a apenas dois anos do voto que consolidou a extrema direita no Planalto.

Na França, segundo dados do Conselho Nacional dos Evangélicos (Cnef), eles já seriam hoje mais de 650 mil, ou seja, 1/3 dos protestantes do país. Cerca de 2.500 igrejas eram associadas aoà movimento em 2017, contra 770 nos anos 1970, e uma nova igreja seria aberta a cada 10 dias em território francês. Estudos mostram que a população evangélica francesa segue as grandes correntes de imigração vindas da Ásia e da África, como os chineses, coreanos, africanos e antilhanos, e que seu sucesso seria devido ao tratamento especial devotado a expatriados e exilados. Numa Europa onde durante longos séculos a austera filial luterana do protestantismo floresceu, o terreno se abre para novos cristãos vindos de ex-colônias. O Estado laico, no entanto, parece dar as cartas na velha França, onde o proselitismo religioso continua a sofrer rejeição da maior parte da população.

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