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“Se não tomarmos cuidado, fotografo um mundo em extinção”, diz Sebastião Salgado em Frankfurt

Áudio 07:18
O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado nesta sexta-feira, 18 de outubro, na Feira do Livro de Frankfurt.
O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado nesta sexta-feira, 18 de outubro, na Feira do Livro de Frankfurt. RFI/A. Brandão

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado é um dos convidados de destaque da Feira do Livro de Frankfurt, que acontece neste momento. Neste domingo (20), ele recebe o Prêmio da Paz concedido pelo setor editorial alemão que é uma das principais recompensas culturais da Alemanha. Nesta entrevista exclusiva à RFI, em Frankfurt, ele fala de seu trabalho e engajamento ecológico. Salgado diz temer fotografar um mundo em extinção se não tomarmos cuidado e revela ter esperanças que Bolsonaro possa mudar e se “transformar em um aliado de proteção da Amazônia”.

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Sebastião Salgado é o primeiro fotógrafo a receber o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro alemão. Ele foi escolhido por seu trabalho que promove justiça e paz social, além disso de alertar, com suas fotos em preto e branco, para a necessidade de se preservar a natureza. Leia abaixo a entrevista completa:

Qual a foi a sua reação com mais esta recompensa?

“Eu fiquei muito surpreso de receber esta recompensa por que eu sou o primeiro fotógrafo que recebê-la. Ela existe desde o final dos anos 40 e foi dada a políticos, cientistas, escritores. Estou muito honrado.”

Um reconhecimento da fotografia como linguagem?

“A fotografia é uma linguagem e uma linguagem muito poderosa. Das linguagens de comunicação, somente a fotografia e a música podem ser transmitidas sem tradução. O que você escreve em fotografia no Brasil, por um brasileiro, pode ser lido na China, no Japão, sem nenhuma tradução. A linguagem da imagem é uma linguagem direta e muito compreensível.”

Você está sendo recompensado tanto pela estética quanto por seu engajamento social e ecológico?

“Sim. Pela estética porque a minha linguagem é profundamente estética por que eu trabalho com o quadro, eu escrevo com a luz. O engajamento social, eu acho que ele é importante e está tendo um certo reconhecimento.”

Você teve que adaptar sua estética ao longo dos anos, desde quando começou a fotografar na África no início dos anos 1970 até as fotografias da natureza, dos locais preservados do planeta?

“Não. Eu acho que se você misturar minhas fotografias do início dos anos 70 e com as de agora, você não vê muita diferença. Cada fotógrafo trabalha com a sua herança global, que é a sua ideologia, sua história, de onde ele veio, sua família, sua comunidade de origem. Misturando tudo isso, você forma uma personalidade, uma maneira de ver e você fotografa assim a sua vida inteira.”

Ao atribuir o prêmio, a Federação do Comércio Livreiro Alemão ressaltou também o Instituto Terra que você criou, em 1998, com sua esposa, Lélia Wanick Salgado. Vocês reflorestaram uma área degradada e criaram um reserva natural em Aimorés. Por que sentiu necessidade de passar à ação?

“Eu não tive uma necessidade, foi um pouco casual a criação do Instituto Terra. Meus pais ficaram velhos e tiveram a ideia de transferir a fazenda que tinham para a Lélia e para mim. E a Lélia teve a ideia de replantar uma floresta por que a terra estava tão degradada e morta como toda a terra da nossa região do vale do Rio Doce no Brasil. E ai nós nos aproximamos da natureza. Até então, eu não tinha uma maior preocupação ecológica. Claro que eu nasci na natureza, vivi na natureza e a maioria das minhas fotografias são ligadas da natureza. Mas foi só a partir deste momento que nós nos dedicamos a natureza e hoje, a natureza é uma das coisas mais importantes que existe na nossa vida.”

Você está terminando seu novo projeto sobre a Amazônia, fotografando os índios da região, justamente neste momento de crise provocada pelos incêndios na floresta. Você teme estar fotografando um mundo em extinção?

“Se a gente não tomar cuidado, será um mundo em extinção, mas se a gente tomar cuidado, se a comunidade internacional, todos os brasileiros juntos acordarem, a Amazônia pode ser protegida. Além dela ser importantíssima pela distribuição da umidade no mundo, ela contém um terço de todas as águas doces do planeta. Ela tem que ser preservada. Nós podemos ter outra opção econômica para a Amazônia do que a economia predatória que está sendo imposta à região.

Nós podemos ter uma economia mil vezes mais inteligente, podemos criar o maior espaço turístico do planeta, podemos criar o maior provedor de alimentos biológicos, podemos prover a indústria farmacêutica do planeta inteiro, permitindo que as comunidades locais participem desse processo. A Amazônia tem a vantagem imensa de ter uma população de mais de 25 milhões de pessoas, que é quase a população do Canadá. A maioria dos habitantes é de ribeirinhos que falam bem a língua portuguesa e necessitam de uma melhor penetração econômica.

As fazendas de soja, de gado, não empregam ninguém. Elas só são predatórias. Elas não levam a nenhum futuro da Amazônia. Só a porção de floresta que estamos destruindo vale muito mais do que tudo que uma fazenda de soja ou de gado pode gerar em sua história. Nós podemos obter desse espaço amazônico um retorno econômico muitíssimas vezes maior do que nós estamos obtendo hoje destruindo a Amazônia.”

Isso é possível com o atual governo brasileiro?

“Ê difícil por que a proposta básica com a qual foi eleito o presidente do Brasil é uma proposta puramente predatória. Mas as pessoas podem evoluir. O senhor Bolsonaro pode mudar de opinião. Ele pode se transformar em um aliado de proteção da Amazônia. Por que não? Ele é um homem que tem um poder imenso. Ele foi eleito democraticamente pela maioria dos brasileiros. Eu tenho uma grande esperança que ele se transforme numa pessoa que tenha uma preocupação com o futuro da humanidade, porque depredando, propondo uma economia de destruição, ele está contribuindo de uma maneira brutal para o aquecimento global, para a destruição de todas as concentrações de gelo do mundo. Isso vai elevar rapidamente o nível de água dos oceanos, o que vai levar a destruição de uma grande parte da costa brasileira.”

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