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“Atualidade política e social do Brasil me inspirou”, diz Flávia Coelho sobre disco DNA

Áudio 08:18
A cantora Flavia Coelho
A cantora Flavia Coelho RFI

Cantora brasileira radicada na França, Flávia Coelho lançou no mês de outubro o quarto álbum de sua carreira, “DNA”, seu trabalho mais pessoal e engajado.

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O sucesso do show de lançamento de seu novo disco, em Paris, é a melhor tradução de uma carreira que encanta os franceses pela profusão de ritmos, já observada nos álbuns anteriores: “Bossa Muffin”, de 2011, Mundo Meu, lançado em 2014 e “Sonho Real", em 2016.

No novo trabalho, produzido com Victor Vagh Weimann, a mistura de funk com trap (um tipo de rap), de hip hop com reggae, ritmos brasileiros e caribenhos, ganhou desta vez contornos de engajamento político e social.

A polarização política no Brasil e a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência mudaram o foco de boa parte de suas composições e deram uma guinada na concepção do disco, a começar pela música que dá título ao álbum. A ideia de DNA surgiu durante uma viagem a Moçambique. 

“Quando estou na África, me sinto em casa, tem uma ligação com a ancestralidade do Brasil. Escrevi a letra de DNA neste momento em que as pessoas querem muito se separar, ouvimos muito separatismo nos países, mesmo no Brasil. Pensei, peraí, o planeta está queimando, é nossa casa, o aquecimento global está aí. E se a gente procurar a nossa identidade, as nossas raízes, a nossa mestiçagem? Isso é o que nos aproxima mais”, explica.

Em Maputo, imersa no ambiente de dança e músicas em português, ela sentiu a necessidade de expressar seus questionamentos e preocupação com as mudanças observadas no seu próprio país. “E se eu falasse da importância, da riqueza que é o nosso sangue misturado, que é uma das coisas mais importantes e fortes do Brasil? Sinto que isso está começando a mudar. Para mim é importante falar desse assunto neste momento. Sim, é um disco pessoal, engajado, e que precisa falar das coisas como elas são”, afirma.

Críticas à situação do Rio de Janeiro

Na faixa Cidade Perdida, Flávia Coelho quis denunciar a situação do Rio de Janeiro, segundo ela, mergulhada em problemas como a corrupção, explosão da violência e mortes das populações mais vulneráveis nas favelas. 

“Foi uma letra complicada para mim de escrever. É complicado falar e denunciar o que está acontecendo na cidade onde você nasceu e que você ama. Nunca na minha vida pensei em vir morar na França para falar mal do Rio de Janeiro e do meu país. Mas a verdade existe e desde que eu nasci, a cidade não mudou. Ela sempre foi corrompida e violenta e tenho impressão que está a cada dia pior”, afirma.

“Senti a necessidade, até física mesmo, de tirar e extirpar isso do meu coração e denunciar com as palavras que são precisas e necessárias neste momento”, acrescenta.

“Eu acho que me arrependeria muito se não tivesse feito o disco desta maneira. Não conseguiria me olhar no espelho sabendo de todas as dificuldades pelas quais o Brasil está passando”, desabafa a cantora que recorreu também à sua vivência, marcada por muito preconceito.  

Filha de pais nordestinos, ela nasceu e cresceu no que chama de “Nordeste do Rio de Janeiro”.  “Sempre me senti estigmatizada sendo filha de pais nordestinos. Sempre ouvia que era a ‘filha do cabeção’, a ‘filha do Paraíba’, a ‘filha do imigrante’. Mas sempre tive orgulho de minhas raízes. Sempre amei ter pai e mãe do Nordeste, e sempre amei essa cultura, riqueza e mistura, sem mesmo entender o que era”.

Ela viveu períodos alternados entre a terra natal de seus pais,  Ceará e Maranhão, onde teve contato e se banhou em cultura e ritmos regionais, que até hoje a inspiram. “Sempre reivindiquei esse sotaque nordestino. Sempre fui atrás da mistura. Quanto mais faço pesquisas na música brasileira, mais encontro sonoridades de fora, que viraram música brasileira. Como o trap, que a gente mistura com o funk, que dá um som diferente”, explica a cantora, que não abre mão do violão acústico nas suas melodias. “Essa parte brasileira é sempre importante, e sempre, claro, cantando em português”, assinala.

Em busca de reconhecimento no Brasil

Apesar do sucesso e de uma agenda carregada de shows pela França e outros países europeus, Flávia ainda é pouco conhecida no Brasil. “Para fazer sucesso no Brasil, é preciso estar lá, ficar pelo menos seis meses trabalhando em projetos, num disco”, diz.  

No ano passado, sua gravadora lançou no Brasil uma coletânea de seus discos. No entanto, a visibilidade de seu trabalho esbarrou no contexto conturbado política e socialmente. “A primeira música escolhida para ser trabalhada junto ao pública era ‘Sunshine’, que falava da situação das prisões e da violência policial. A Sony achou que essa música era um pouco difícil de trabalhar em um momento de polarização do Brasil. Foi complicado para mim. É uma pena que eu não possa me expressar da maneira que eu acho que é importante para os brasileiros neste momento”, conta.

No entanto, ela diz se sentir muito sensibilizada pelas mensagens de fãs que cultivou no país. “Muitas pessoas me escrevem e querem que eu cante lá. Espero que essa porta se abra, não só para mim, mas para todos os cantores que estão nessa linha, de engajamento cultural, de maior visibilidade das minorias, que estão tendo suas vozes caladas ultimamente”. Por outro lado, ela também é encorajada a permanecer na França, onde chegou em 2006 e sua música tem cada vez mais visibilidade.

“Minha família, meus amigos estão contentes que eu possa ficar aqui, cantar e falar o que tem que ser dito. Eles me dizem, por enquanto fique por aí, depois você volta”, conclui, sorrindo.

Para ouvir a íntegra da entrevista, clique abaixo

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