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Governo ataca liberdade de expressão no Brasil e o povo não se dá conta, diz Leandro Demori, do Intercept

Áudio 16:59
Leandro Demori, editor-executivo do The Intercept Brasil
Leandro Demori, editor-executivo do The Intercept Brasil RFI

Leandro Demori, editor-executivo do site de jornalismo investigativo Intercept Brasil, passou por Paris após um giro por vários países no qual participou de conferências sobre a liberdade de imprensa. Vítima de ameaças desde que fez revelações que sacudiram a política brasileira, ele tenta alertar a comunidade internacional para o recrudescimento gradativo da repressão visando jornalistas no Brasil.

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Nas conferências às quais participou, seja nos Estados Unidos, na Noruega ou na Suíça, Demori constatou que a questão da liberdade de expressão é um problema global, que torna o jornalismo investigativo uma profissão cada vez mais arriscada. “Estive com jornalistas da Guatemala, México, Venezuela, e até de países como a Noruega, que a gente imagina que não tem problemas para jornalistas, mas que também sofrem pressão governamental e de agentes privados quando se fazem investigações mais aprofundadas sobre temas da sociedade atual”, relata.

No entanto, pondera Demori, a situação brasileira vem apresentando algumas particularidades ligadas ao contexto político atual do país. “Tivemos uma eleição absolutamente violenta no Brasil, com um candidato a presidente sendo esfaqueado em praça pública. Esse contexto fez com que os políticos, e principalmente Jair Bolsonaro, jogassem muito a população contra a imprensa. Isso autoriza parte da população a atacar jornalistas”, aponta.

Segundo o editor, o ataque recente visando o colega Glenn Greenwald, agredido fisicamente diante das câmeras por outro jornalista durante um programa da Rádio Jovem Pan, é um bom exemplo. “Ficamos completamente chocados ao ver aquela cena”, diz. Mas, acima de tudo, avalia Demori, “esse episódio é um sinal público para a sociedade brasileira de que o espancamento de jornalistas é permitido. Um funcionário de uma empresa pode bater em um jornalista ao vivo e não ter nenhuma consequência, pois essa pessoa continua trabalhando”.

Ameaças e segurança armada na redação

Demori é consciente de que o Intercept é particularmente visado. Principalmente depois que o site começou a investigar a morte da vereadora Marielle Franco, apontando o possível envolvimento de milícias no caso. E, ainda mais, desde de junho deste ano, quando publicou reportagens baseadas no vazamento de conversas atribuídas ao ex-juiz e atual ministro da justiça, Sergio Moro, e procuradores, introduzindo a expressão Vaza Jato no vocabulário da população. Desde então, o veículo é alvo de ameaças e vive em estado de alerta.

“Houve tentativas de derrubar o site com ataques pela internet. A gente reforçou os procedimentos internos de segurança digital e também contratamos segurança armada para proteger a redação e seus jornalistas”, relata. “Foi uma medida extrema, que nenhum diretor de redação gostaria de tomar, pois isso afeta o nosso trabalho e também o psicológico da redação. Mas chegamos à conclusão de que era necessário. A escala de ameaças estava se intensificando elas estavam ficando mais específicas.”

Segundo o jornalista, o Brasil vive um processo de repressão das liberdades que se opera de maneira gradual. “Agentes do governo vão aos anunciantes privados e questionam por que eles estão fazendo publicidade em jornais que discordam do governo. Isso é apertar a liberdade de imprensa. Quando o presidente ameaça de expulsão do país um jornalista estrangeiro, se aperta um pouco mais a liberdade de imprensa. Quando o ministro da Justiça nos chama de aliados de hackers criminosos, coisa que não somos, se aperta um pouco mais a liberdade de imprensa. Esse conta-gotas vem acontecendo no Brasil de modo muito avançado. E eu temo que quando a gente se der conta, teremos virado uma Turquia, onde tudo é permitido e todo o poder do Estado é usado contra jornalistas sem que a sociedade se importe com isso.”

“Não somos imparciais”

Questionado sobre as críticas visando a postura do veículo no Brasil, visto por alguns como uma espécie de porta-voz da esquerda, Demori é categórico: “Nós não somos imparciais. Não somos neutros. O Intercept é um site que busca combater o excesso de poder dos poderosos, estejam eles onde estiverem. A gente faz um jornalismo muito posicionado, muito transparente, muito agressivo em relação aos temas que a gente cobre”, defende.  

“A gente tem na nossa redação uma diferença com relação às mais tradicionais. Não temos uma orientação da casa ou da família sobre que tipo de orientação ideológica o site tem que ter. Cada jornalista tem os seus próprios interesses políticos e as pessoas estão absolutamente livres, inclusive para se manifestarem publicamente. A Intercept incentiva que os jornalistas tenham suas próprias opiniões”, conclui.

Assista a entrevista completa no vídeo abaixo ou clique na foto acima para ouvir.

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